Mogianos pelo mundo na pandemia: Jornalista Jairo Máximo diz que Espanha pode viver segunda onda da Covid-19

Jairo Máximo, mogiano de César de Souza, mora em Madri desde o final dos anos de 1980. (Foto: Divulgação)
Jairo Máximo, mogiano de César de Souza, mora em Madri desde o final dos anos de 1980. (Foto: Divulgação)

Jairo Máximo se define como um “jornalista por formação e tradutor por vocação”. Nascido em Mogi, no ano de 1957, ele mora em Madri, na Espanha, desde 1989, onde exerce o ofício de jornalista. Casado, pai de duas filhas, trabalhou em jornais, revistas, agências de notícias, rádio e televisão. Atualmente publica o Blog do Pícaro¸ em português e espanhol, buscando, dessa forma, aproximar a Espanha do Brasil, ou vice-versa, por meio da informação. O blog faz referência ao jornal O Pícaro, que ele ajudou a fundar, e foi publicado em Mogi entre os anos de 1984 e 1988. Nesta entrevista a O Diário, Jairo, que nasceu em César de Souza, conta como convive com a pandemia do novo coronavírus em terras espanholas. Acompanhe seu relato:

Como foi o seu primeiro contato com a pandemia?

Quando no final de dezembro ao ano passado saiu a notícia de que um vírus desconhecido estava circulando timidamente na China, pensei: “Outro vírus; como tantos outros…”. Na segunda quinzena de janeiro apareceu em muitos comércios da colônia chinesa em Madri este aviso: “Fechado temporariamente por férias. Desculpe pelos transtornos. Obrigado”. Fiquei intrigado. Por que tantas férias ao mesmo tempo? No começo de fevereiro, o vírus recém-batizado como coronavírus – Covid-19 começou a se propagar rapidamente pela Europa. Foi neste momento que captei a mensagem do aviso: os chineses estavam em quarentena por prevenção. Eles eram as primeiras vítimas deste invisível vírus global, responsável pela primeira pandemia do século XXI. Um predador! No dia 14 de março, o governo espanhol decretou o estado de alarme: isolamento e distanciamento social para os 47 milhões de habitantes. Ficamos em estado de choque. Foram 74 dias de quarentena vivendo numa cidade vazia, sem vida. Neste período, mais de 28 mil espanhóis perderam a vida e outros cerca de 400 mil, até hoje, no mundo inteiro. Tudo tão rápido, tão estranho… Uma tristeza infinita.

E como você enfrentou a quarentena aí na Espanha?

Particularmente, enfrentei a quarentena sabendo que um vírus letal estava lá fora. Segui as diretrizes impostas pelo governo e as normas recomendadas pelo Serviço Público de Saúde. Pertenço ao grupo de risco. Tive altos e baixos de angústia, preocupação, inquietação. Isso tudo sem pensar nas desconhecidas consequências econômicas, sociais, emocionais e políticas que a pandemia vai gerar (já está gerando) a nível mundial. Ao mesmo tempo, ficava mais triste ainda ao saber do trágico grande alcance da pandemia no Brasil, inclusive junto à população indígena. Aqui na Espanha, nem entramos ainda no mundo pós-pandemia, e as autoridades sanitárias avisam que se aproxima uma segunda onda de contágios, maior que a anterior. Um novo mundo virulento e desconhecido nos espera lá fora. O mundo agora é outro. Só a vacina nos salvará. Resistiremos!

Em que a Espanha se diferenciou do Brasil no combate aos efeitos do novo coronavírus?

O respeito incondicional da população às normas governamentais e as indicações dos responsáveis dos serviços de saúde pública: “Fique em casa” era a consigna. Com esta única e inevitável política diante da pandemia morreu muito menos gente e o número de contagiados diminuiu consideravelmente em todo território nacional.

De que maneira a sua vida profissional e familiar foi afetada pela pandemia e pela quarentena?

Como sempre trabalhei em home office, procurei continuar escrevendo, confinado em casa com a minha família. A realidade pós-pandemia afetará a minha economia igual à de milhões de espanhóis. Apesar de tudo, penso com determinação que não existe melhor maneira de proteger a economia que cuidando das pessoas. Sem saúde não existe economia. São coisas compatíveis. Temos que encontrar o caminho…

Qual foi o momento mais crítico vivido por você até agora aí na Espanha?

Sem nenhuma dúvida é o aqui e o agora. A chegada da Covid-19 colocou a realidade mundial de ponta-cabeça.

A Espanha já começou a sair da quarentena. Como isso está acontecendo no País?

O País retoma de forma gradual e regionalizada a antiga normalidade, com muita cautela e precaução. O governo estipulou três fases para se retomar a “nova normalidade”. Estou na fase um. Posso sair de casa para caminhar com horário programado. Os comércios que, em seu interior, os espaços de distanciamento social podem ser respeitados começam a reabrir. Teatros, cinemas, museus, discotecas, escolas, universidades, bibliotecas, hotéis, restaurantes e shoppings continuam fechados. Na semana passada, na hora do rush, num vagão do metrô, éramos uns 10 passageiros. Um se afastando discretamente do outro. Todos com máscara, que é de uso obrigatório nos lugares públicos Os bancos do vagão estavam marcados quais sim e quais não se pode utilizar, assim como caminhos pré-determinados para entrar ou sair da estação.

E como foi sua primeira saída de casa após o período de distanciamento social obrigatório?

Tive aquela sensação que a gente tem quando acorda de madrugada no meio de um pesadelo e não sabe o que está acontecendo. Foi no segundo dia do afrouxamento, quando decidi sair de casa e passear. O corpo e a cabeça pediam. Mas quando coloquei o pé na rua, rapidamente voltei pra casa. Fiquei emocionado pelo fugaz passeio primaveril, porém, assustado por ver que éramos muitos (todos mascarados) que desejávamos fazer a mesma coisa, nas mesmas horas: andar e respirar livremente pela cidade. Inconscientemente, desrespeitávamos o distanciamento social. No ato pensei em Ícaro: “Passarinho quer voar até o sol sem olhar para os lados”. Realmente fiquei assustado. Temos que aprender a estar num novo mundo. Ser ou Não Ser. Tudo é tão raro. Tão imprevisível. Estaremos em estado de alarme até o próximo dia 21 de junho.

De que maneira as notícias sobre o avanço da pandemia no Brasil são recebidas aí na Espanha?

Com preocupação e assombro. Sabem por experiência própria que a Covid-19 vai matar milhares de brasileiros. Consideram que o presidente Jair Bolsonaro é um irresponsável que está colocando a vida da nação em grave perigo sanitário. “O demente Bolsonaro deveria ser internado numa clínica”, escreveu, recentemente, o escritor espanhol Javier Marías, no diário El País. Em poucas palavras o escritor sintetizou o que a sociedade espanhola pensa sobre a pandemia da covid-19 e a atuação do presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro.

Quais as lembranças que você guarda de seu período na cidade?

Muitas. Três décadas da minha vida. Se fosse escritor, dramaturgo ou roteirista de cinema, argumentos não iam me faltar para registrar as histórias vividas na cidade. Lembro-me que aprendi escrever na hoje denominada Escola Estadual Professor Sebastião de Castro; na Vila Suíssa, bairro em que nasci. Que aprendi a ler na hoje denominada Escola Técnica Estadual Presidente Vargas. Que aprendi a pensar no Instituto de Educação Washington Luís. Três instituições de educação pública da cidade que me ensinaram muito, principalmente a refletir. “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”, ensina Aristóteles. Obrigado mestres. Que aprendi o oficio de jornalismo na UMC. Lembro-me da desaparecida pista de kart, onde hoje está o Centro Cívico, que um dia esteve destinado a ser o Centro Cultural de Mogi. Ledo engano! Lembro-me das tardes de domingo nos cinemas Urupema e Avenida, que hoje em dia são igrejas evangélicas. Lembro-me da cosmopolita Mogi que recebia estudantes universitários do País inteiro, que proporcionavam um intercâmbio cultural fértil que E o Vento Levou… Lembro-me de políticos que governavam a cidade como sua “fazenda”. Um deles, não faz muito tempo, até se suicidou dentro do Cemitério São Salvador. Corto. Fim do filme!


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