Mogianos pelo mundo na pandemia: Lucimara em Pompeia, na Itália

Mogiana Lucimara afirma que viver a pandemia ajudou a reanalisar conceitos. (Foto: Divulgação)
Mogiana Lucimara afirma que viver a pandemia ajudou a reanalisar conceitos. (Foto: Divulgação)

Morando a maior parte de sua vida na Itália, em Pompeia, a mogiana Lucimara Albuquerque da Silva estava no Brasil quando começou a pandemia do novo coronavírus e retornou para a sua casa um dia antes de o país europeu, que foi um dos mais afetados pela pandemia da Covid-19, começar a flexibilizar o isolamento social. Aos 47 anos, 24 deles na Itália, Lucimara vive na região de Campania onde o sol brilha o ano inteiro. Por lá, restaurantes já estão abertos e cheios de seu povo que é amante de seus tradicionais pratos, quase sempre uma massa. No entanto, ainda há o alerta para que as medidas de higiene sejam adotadas. O primeiro ministro, inclusive, deixou a população ciente de que até mesmo, se necessário, adotará um lockdown novamente. Na entrevista a O Diário, Lucimara diz que a pandemia reforçou nela a ideia de que a vida precisa ser aproveitada ao lado daqueles que ama.

Conte um pouco da sua vida em Mogi

Até os 23 anos de idade vivi em Mogi . Estudei em Braz Cubas, no Galdino Pinheiro Franco, e sucessivamente no Arsol, onde concluí o ensino superior. Toda minha infância vivi aí. Tenho ótimas recordações e hoje praticamente toda minha família vive em Mogi. Da cidade, gosto de tudo, principalmente da cultura japonesa muito viva entre seus habitantes.

E a decisão de ir embora para a Itália?

A primeira vez que visitei a Itália foi em 199, com 17 anos. Vim para Pompéia e Nápoles, onde fiquei por três meses. Foi o suficiente para descobrir que aqui era o país que eu iria morar no futuro . Identifiquei-me muito com a cultura e me apaixonei pelos lugares lindos daqui .Voltei em 1997, decidida a viver aqui. Fiquei, a princípio, na casa de uma amiga brasileira casada com um napolitano. Um dia, visitando as ruínas de Pompéia, conheci meu marido, Raffael. Estamos juntos há 23 anos . No começo aqui foi tudo maravilhoso porque passeávamos muito, ele me levava cada dia para conhecer um lugar diferente. Me adaptei muito rápido a tudo.

E como você sabendo do novo coronavírus, qual foi o primeiro impacto?

Como meu marido e eu trabalhamos com turismo, vendendo souvenirs em frente às ruínas de Pompeia, todo ano vamos ao Brasil. Saímos daqui em novembro e voltamos em março, porque é o período que o turismo fica escasso por aqui. Em novembro de 2019 pegamos um navio em Gênova e embarcamos rumo a Santos. Chegamos dia 7 de dezembro. Em janeiro, quando começamos ouvir falar do vírus lá na China, fiquei com bastante medo, porque disseram que o contágio seria muito rápido.

Como foi a sua quarentena?

Nós estávamos aí no Brasil e, quando ouvimos falar da Itália, ficamos preocupados. A Organização Mundial da Saúde declarou pandemia e aqui no Sul da Itália fechou tudo de um dia para o outro. Não poderia visitar nem os pais idosos que estivessem mesmo em 1 km de distância. O governador da nossa região foi muito rígido. Parecia um campo de guerra, porque as forças da Polícia estavam na rua. Só poderia realmente ir à farmácia ou ao supermercado. Nós ficamos assim também aí no Brasil, em um apartamento em Santos. A gente via que muitos não estavam respeitando. Uma semana antes da quarentena começar, eu já tinha comprado a máscara e já tinha o hábito de andar com álcool em gel. Mas ficamos realmente dentro de casa, pedindo comida pelo whatsapp. Em alguns dias, o meu marido queria ver um pouco de gente, e aí dávamos uma volta de carro.

E o retorno à Itália?

Até então, o meu marido tinha reservado a nossa volta para a Itália para o dia 9 de abril, ela foi adiada. Depois foi para o dia 19, depois o dia 24 de abril e também foram adiadas pela companhia. Eu falei ao meu marido que a gente deveria voltar, porque estávamos preso em um apartamento pequeno. Na Itália eu tenho espaço, jardim grande em que posso caminhar. Descobri que uma companhia estava voando para a Itália. Falei com um amigo que mora na Alemanha e pedi para ele ver se tinha a passagem. Conseguimos e tivemos que viajar em dois dias em um voo lotado.

Que Itália você encontrou?

Chegamos aqui no dia 26 de abril. Ainda em Roma tivemos de preencher um formulário nos comprometendo a ficar por 14 dias sem sair de casa para nada. Foi muito difícil, porque nenhum parente poderia ir até o Aeroporto para nos buscar. As agências de locação de carros estavam fechadas. Um conhecido nosso, de Pompéia, foi, correndo o risco de ser parado, mas conseguiu nos buscar. Ele precisava trabalhar, porque trabalha com turismo. Tivemos sorte. Só na esquina de casa havia alguns policiais. A partir do dia 27 de abril já começou a flexibilizar aqui na Itália, então a gente passou a quarentena mais em São Paulo.

E como você avalia as políticas de isolamento social aí na Itália?

As medidas que foram tomadas aqui na Itália eu achei muito eficazes, apesar de que a Lombardia sofreu muito. Eu tenho amigos que estavam em Bérgamo. Eles falaram que perderam muitos amigos, conhecidos também. Eles são idosos também. Estavam assim assustadíssimos. Aqui, onde eu moro, a minha sogra mora embaixo. Ela tem 87 anos e ficou por dois meses sem ver ninguém, fazendo pizza, pão, jogando no celular. Então ela passou o tempo assim com videochamadas e conosco, quando estávamos no Brasil. Toda a Itália parabenizou o governador aqui da região da Campania. Ele foi rígido até demais.

Como está a situação hoje aí?

A situação aqui ainda é de alerta, tanto é que o primeiro ministro prorrogou até 31 de dezembro o prazo para que ele pudesse, inclusive, decretar um lockdown se for preciso. Nos últimos três dias tiveram mais contatos ao norte, na Lombardia. Então ele disse que precisa neste momento para tomar muito cuidado. Digamos que a vida aqui é normal. Os jovens, como sempre, não usam máscaras. Os restaurantes estão funcionando cheio de pessoas. O italiano ama uma boa comida. Já tem quase um mês que foi liberado visitar parentes e amigos. Nós estamos sempre tomando precauções, mas vamos também tomar um sorvete, fazemos um churrasco no jardim, mas ainda respeitando, ainda que não tenha mais casos por aqui no Sul.

E o que esses dias de pandemia trouxeram? Você perdeu alguém para a Covid-19?

Foi um momento de muita reflexão, de avaliar a minha vida, a minha existência, a minha fé. Então foi um momento de avaliar essas coisas e entender o quão pequenos somos, diante de algo tão minúsculo, invisível, que praticamente parou o mundo inteiro. Eu reavaliei vários conceitos da minha vida, porque muitas vezes a gente prioriza demais o trabalho. Aqui no setor de turismo praticamente não para de março a novembro, então para mim está sendo um momento de poder respirar. Eu trabalho com o meu marido já tem praticamente 20 anos, e era um trabalho que fazia o meu sogro, e acabou que o meu marido deu continuidade. No ramo de turismo em que você tem de novembro a março livre, para fazer uma viagem, é maravilhoso. Então todo o final do ano a gente faz as malas e vai para o Brasil passear. Não perdi ninguém na Itália, mas no Brasil perdi prima e amigo de adolescência.

Você tem planos de voltar a viver no Brasil?

Não. Até porque vivi mais aqui do que no Brasil. Aqui tem uma segurança. As coisas funcionam melhor. Saúde, escola, é tudo muito mais fácil. Essa segurança que eu tenho aqui, eu não troco por nada. Mas eu amo o Brasil, Mogi. Mogi é uma cidade tranquila. Eu penso no futuro passar um pouco de tempo no Brasil, talvez seis meses aqui, seis meses aí. Mas os meses que eu passo aí anualmente me faz sentir como viver um pouco aí também.

POMPEIA

A região da Campania, na Itália, havia registrado até ontem, segundo atualização do Google, 4.991 casos confirmados da Covid-19, dos quais 432 pacientes evoluíram a óbito. Em toda a Itália, o número de infectados já havia ultrapassado os 242 mil, com quase 35 mil mortos.

A cidade de Pompeia é conhecida por ser um vasto sítio arqueológico, que foi soterrado no ano 79 depois de Cristo por um vulcão, e a visitação às ruínas do local atrai hoje o segundo maior número de turistas do país, atrás apenas do Coliseo.


Deixe seu comentário