Mogianos pelo mundo na pandemia: Thereza Jatobá na Tailândia

Thereza Jabotá conta que as barracas de comércios de rua adotaram barreiras de proteção. (Foto: Divulgação)
Thereza Jabotá conta que as barracas de comércios de rua adotaram barreiras de proteção. (Foto: Divulgação)

Jornalista formada pela Universidade Braz Cubas, Thereza Jatobá vive na Tailândia desde janeiro deste ano e notou pela primeira vez, ao chegar ao país, um tom mais agudo a respeito da descoberta da doença na China e posteriormente batizada como Covid-19. Na descida do avião, um inglês conhecido durante o voo deu a ela e ao marido, João Magri, uma máscara, proteção usada voluntariamente pela maioria da população local que agora já está experimentando medidas mais flexíveis para a convivência social. “Ali, senti de fato quer algo estava acontecendo”, recorda-se.

Há quase um mês, o país asiático vizinho à China não tem registros de transmissão local – e os índices de pacientes confirmados que costumam zerar em alguns dias são de repatriados pelo governo tailandês.

Thereza estudou no Colégio São Marcos e trabalha desde o início deste ano em um escritório da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em Banguecoque, capital do país. Viveu em Mogi das Cruzes dos 7 aos 24 anos com a família. Na seguinte entrevista da série que mostra como a pandemia é vivida em outros países, ela atribui os resultados do combate ao coronavírus ao atendimento às regras governamentais e a um intenso trabalho de rastreamento dos casos – os testes em massa são um objeto de difícil alcance para a maioria dos povos. Ela prevê uma difícil crise econômica, com impactos agudos entre a população mais pobre e vulnerável. Confira a entrevista:

Desde quando vive na Tailândia?

Cheguei no final de janeiro porque recebi uma proposta de trabalho em novembro do ano passado. Eu e o meu marido já tínhamos planos de morar fora do Brasil. Morei na Tailândia em 2008 e já amava o país, a cultura, as pessoas, a gastronomia. A oportunidade de voltar foi um presente para mim. Eu moro em Bangkok, onde o total atual de casos da Covid- é 1.549 (a população da capital é de cerca de 8 milhões de pessoas).

Quando ouviu pela primeira vez sobre a Covid?

Antes de viajar nós começamos a ver as primeiras notícias sobre o assunto. Quando chegamos, os amigos e familiares expressavam preocupação pela proximidade entre a Tailândia e China e também por ser, na época, o pais da Ásia com o maior número de casos. Ainda no avião conhecemos um inglês que morava aqui e, antes de desembarcarmo, ele deu uma máscara para cada um de nós e recomendou que usássemos. Ali, no desembarque, senti que de fato algo estava acontecendo.

A Tailândia está 2,2 mil quilômetros da China. No Brasil, a distância entre as extremidades é quase o dobro disso. Como as notícias sobre essa doença foram tratadas na Tailândia?

Trabalho para o escritório regional do UNICEF e desde o começo, os representantes da ONU (Organização das Nações Unidas) organizam reuniões regulares sobre o tema, liderados pela OMS. Essas reuniões regulares acontecem até agora, virtualmente. Desde o princípio tivemos uma orientação muito clara sobre prevenção e as medidas tomadas pelo governo foram amplamente divulgadas nos jornais e eu diria que, com poucas exceções, todas foram respeitadas.

Quais são as medidas de saúde pública que você destacaria como positivas para o baixo registro de mortes (58, no país, ate ontem)?

Estamos há 27 dias sem nenhum caso de transmissão local aqui, a vida está a mais próxima da “normalidade” possível. O total de casos de pessoas contaminadas chegou a 3.151 e agora 71 pessoas estão hospitalizadas. Temos muitos dias com zero caso e alguns com um índice baixo, sempre inferior a 10, que são registros de repatriação encaminhados diretamente para quarentena pelo governo tailandês. Eu acho que isso só foi possível por causa da quarentena estabelecida no fim de março. O governo tailandês foi muito ágil em rastrear casos suspeitos e pessoas que tiveram contato com casos confirmados. Também foi estabelecido um toque de recolher que durou mais de dois meses e a venda de álcool foi proibida durante um mês. Isso evitou que as pessoas tentassem se aglomerar principalmente para reuniões sociais e festas. Nesta semana li, em um artigo, que o governo usou um programa com 1 milhão de voluntários do sistema de saúde espalhado pelo país, inclusive na área rural. Essa diretriz de rastreamento eficaz e isolamento de casos suspeitos parece ter sido o que realmente fez a diferença aqui, já que o país não tinha capacidade para testagem em massa como muitos outros também não têm.

O isolamento é cumprido? Quais são as diferenças notadas entre a Tailândia e o Brasil?

Tivemos notícias, pelos jornais, de poucos grupos que violaram o toque de recolher em bares clandestinos e casas, e foram presos. O acesso entre províncias também foi limitado, apenas pessoas que tinham uma justificativa especial podiam viajar de um estado para outro, e os voos locais foram paralisados. Já sobre as diferenças entre as reações entre os tailandeses e os brasileiros, é difícil comparar o comportamento de pessoas de culturas tão diversas mas algo que certamente temos em comum é o medo, todos sentimos medo. Todos tememos pelos nossos familiares, amigos, pelo risco de contagiar o próximo. Aqui, o tema foi levado muito a sério desde o começo e sei que entre os meus familiares e amigos no Brasil também foi.

O que mudou no seu cotidiano?

Passei a trabalhar remotamente assim que o estado de emergência foi decretado – como a maioria das pessoas. No começo conseguia fazer um pouco de atividades ao ar livre, mas logo os parques também fecharam. Ainda podia me exercitar na rua de casa, que é bem tranquila. Além disso, saía apenas para comprar comida e ir à farmácia se fosse necessário, observando todas as medidas preventivas. Hoje, no entanto, estamos já na fase de relaxamento do isolamento social há algumas semanas, com exceção de bares e lugares de aglomeração como estádios, o restante está praticamente tudo aberto. Podemos viajar pelo país novamente, mas ainda não estão permitindo a entrada de estrangeiros, apenas voos de repatriação com tailandeses.

Em 2018, a Tailândia ficou muito conhecida por causa do resgate dos meninos presos em uma caverna. A busca pelos jovens jogadores de futebol foi um desses momentos históricos, por vários elementos. Chamava atenção em reportagens, algumas considerações sobre a cultura tailandesa. Uma delas: a maneira como a população delegou às autoridades a condução do salvamento. Gostaria que você falasse um pouco sobre a sua percepção sobre os traços da cultura tailandesa, que podem ser considerados determinantes para o reduzido número de mortes pela Covid-19, e que poderiam servir de exemplo para outros países.

Não estava no país nessa época, mas acompanhei o caso também pelos jornais. Quando chegamos muitas pessoas já usavam máscara regularmente por causa da qualidade do ar, que estava muito baixa durante o período de queimadas no norte do país – ou seja, o uso da máscara já era algo comum para a maioria da população. Vi no jornal local que 85% das pessoas usam a máscara voluntariamente.

As pessoas são mais fechadas, mas senti que a população confiou no governo para conduzir a resposta à pandemia. Claro que algum nível de criticismo e de questionamento existe. Mas como as diretrizes foram claras e seguidas por todos, começamos a ver os resultados muito cedo, a diminuição do contágio, o baixo índice de mortes, tudo isso contribuiu para aumentar a confiança das pessoas no que estava sendo divulgado. Algumas medidas foram mais duras, como o toque de recolher, mas foram revogadas assim que a situação foi considerada controlada, o que é positivo. Acho complicado falar sobre o que pode servir de exemplo porque cada governo adotou a resposta que julgou correta considerando dados muito particulares da situação de um determinado país, algumas escolhas que vemos parecem ter sido acertadas e outras nem tanto, o mundo todo está lidando com isso.

Muito já se fala sobre o pós-pandemia. O que você acha que virá no futuro?

Uma crise econômica se aproxima e, para alguns países, pelo menos da Ásia, ela poderá ter inclusive efeitos mais duros do que a própria crise de saúde, principalmente no que diz respeito ao impacto na vida dos mais pobres e grupos mais vulneráveis. Espero que de maneira geral a pandemia tenha nos tornado mais humildes e resilientes, e que, de fato, seja possível sair desse momento com a produção de uma vacina no futuro próximo.


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