Mogianos preferem livros tradicionais

Bibliotecário Auro Malaquias junto ao acervo de 35 mil títulos da Biblioteca Municipal / Foto: Eisner Soares
Bibliotecário Auro Malaquias junto ao acervo de 35 mil títulos da Biblioteca Municipal / Foto: Eisner Soares

O filósofo grego Platão disse anos antes de Cristo que “o livro é um mestre que fala, mas que não responde”. Essenciais no processo da educação e para formação do repertório cultural em qualquer sociedade, essas publicações acompanham os novos tempos e vão parar nas telas dos computadores, tablets, celulares e Kindles. Apesar da inovação, os livros digitais não decolaram no Brasil e seguem estagnados nos Estados Unidos e na Europa. Para quem trabalha com isso, o processo de adaptação a essas novas ferramentas gerará impacto profundo em espaços de saber e aprendizado como as bibliotecas, por exemplo. Esses especialistas não acreditam na extinção dos livros, mas ressaltam que os impressos se tornarão artigos de arte num futuro não tão distante.

Estudo lançado este mês pela Association of American Publishers (que representa as editoras nos Estados Unidos), mostra que as vendas de e-books caíram 11% nos nove primeiros meses de 2015 em comparação a igual período de 2014. No Brasil, a projeção é de estabilidade e, mais adiante, queda. Em 2014, o setor movimentou US$ 2,3 milhões, no ano passado foi de US$ 2,4 mi e, em 2020, deve cair para US$ 1,1 mi. Nos EUA e na Europa, as vendas superam US$ 1 bilhão, mas devem ficar nesta casa por um bom tempo.

Decleia Faganello, bibliotecária-chefe da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), afirma que a demora na ampliação da leitura dos livros digitais é natural. “As pessoas mais velhas têm uma aptidão maior pelo impresso e as novas gerações buscam ferramentas mais virtuais para o complemento do aprendizado e do entendimento. Apesar disso, não acredito no fim dos livros. Eles sempre existirão. O aprendizado é feito a partir de livros. É perceptível uma resistência aos livros digitais quando se fala em literatura. As pessoas gostam de ter o livro na mão, de sentir, tocar, ler”, avaliou.

Pedro Passos, professor de Inovação da Universidade Braz Cubas (UBC), analisa este cenário dos e-books. “Devemos observar por dois pontos. O primeiro é o social. As pessoas economicamente ativas talvez não tenham dinheiro para sustentar esta nova forma de ler livros, preferindo manter o velho hábito do impresso. Para as novas gerações, ler digital já é uma maneira nativa. Do ponto de vista cultural, há necessidade de uma adaptação à primícia do compartilhamento de conteúdo e acesso às ferramentas digitais por parte de diferentes faixas etárias. Os livros digitais vieram para ficar. Isso não quer dizer que os livros vão sumir, vão ganhar status de obras de arte, assim como o vinil. As bibliotecas, como conhecemos na atualidade, também precisarão se atualizar para oferecer ferramentas de acesso mais amplas, já que os livros não são mais a única fonte de informação”, destacou.

Com 35 mil livros catalogados, a Biblioteca Municipal Benedicto Sérvulo de Sant´Anna, em funcionamento no Centro Cultural de Mogi das Cruzes, é um dos principais espaços do gênero na Região. Por lá, o processo de entrada na era digital já começou. “Há livros falados, CDs, DVDs e outros mecanismos digitais que complementam informações a quem vem até aqui. Ainda não há um acervo digital na Biblioteca por causa da pluralidade de títulos e gêneros que há aqui, mas é algo inevitável no futuro porque os mais novos se interessam por conteúdos passados de outras formas”, explicou Auro Malaquias, bibliotecário-chefe do local.

Qual a saída?
Na visão dos ouvidos por O Diário, é preciso que as editoras e autores apostem nos mais novos para disseminar a leitura digital e estabeleçam um processo de transição para os mais antigos. “Eles passarão a ler de uma outra forma. Há de se apontar um jeito em que eles sejam incorporados à técnica da leitura digital e passem a adotá-la também. Veja o caso das notícias. Há mais facilidade em ler notícias na internet do que no impresso porque elas são mais curtas, mais resumidas”, apontou Decleia. (Lucas Meloni)


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