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Morre Heleninha Cury, da Casa São João

Heleninha frechou a Casa São João em 2016.
Heleninha fechou a Casa São João em 2016.

Mogi das Cruzes perde mais uma personagem que fez parte de sua história. Maria Helena Carneiro Cury, carinhosamente chamada de dona Heleninha, foi sepultada no final da tarde desta segunda-feira (16), no Cemitério São Salvador, no Parque Monte Líbano. Ela morreu neste domingo, aos 83 anos, após sentir-se mal em sua casa, na Vila Oliveira, e ser socorrida pelo neto, Bruno, que com ela morava, em uma ambulância que a levaria para atendimento hospitalar. Não deu tempo. Um infarto fulminante levou a vida de dona Heleninha no meio do caminho. A notícia entristeceu familiares e a legião de amigos que Maria Helena conquistou ao longo dos anos.

Ela ficou conhecida atrás do balcão de uma das mais antigas e tradicionais lojas da cidade, a Casa São João – inaugurada em 1932 e que funcionou 84 anos, encerrando atividades em 31 de outubro de 2016. Ela comandou o comércio ao lado do marido, Wilson Salomão Cury, que faleceu em 2014, paralelamente à carreira no magistério.

Heleninha chegou a Mogi na década de 40, aos 8 anos, com os pais, Antonio Augusto Carneiro e Helena da Cruz Carneiro, que vieram comandar o tradicional Bar e Leiteria Glória, no centro. Filha única, ela havia iniciado o primário na Capital, aqui ingressou no segundo ano no 2º Grupo Escolar Aprígio de Oliveira, fez o curso preparatório para o Exame de Admissão – onde conheceu Wilson Cury, com quem se casou 11 anos mais tarde -, estudou no Ginásio do Estado e formou-se em 1956 na Escola Normal. Depois de passar por várias instituições de ensino, estaduais e municipais, Heleninha se aposentou após 14 anos como diretora da Escola Mogiana de Educação Infantil (Emei) Monteiro Lobato, na Ponte Grande.

A partir daí, voltou a se dedicar exclusivamente à Casa São João, onde permaneceu até o encerramento das atividades, em 2016. Ora estava atrás do balcão, atendendo os fregueses de todas as idades e, na maioria das vezes, a terceira geração dos primeiros clientes da casa, ora diante da antiga caixa registradora que costumava abrir para mostrar às crianças. Esta era uma das relíquias da São João, que teve início como armazém de secos e molhados antes de começar a vender tecidos, aviamentos, armarinhos em geral, além de fantasias, sempre no endereço da Coronel Souza Franco, em frente ao Mercado Municipal, e sob o comando da mesma família. Ali, os Cury também guardavam uma bandeira da Revolução Constitucionalista de 1932, deixada por um soldado em troca de um pedaço de tecido, e prontamente mostrada a quem se interessasse por um pouco de história.

Viúva, Heleninha deixa a filha Wilmara e os netos Renan e Bruno.

Em março de 2007, Maria Helena Carneiro Cury foi a personagem da Entrevista de Domingo, em O Diário. Confira a matéria:

Em meados da década de 40, os pais de Maria Helena Carneiro Cury (Antonio Augusto Carneiro e Helena da Cruz Carneiro) vieram comandar o tradicional Bar e Leiteria Glória, na esquina das ruas Dr. Deodato (Wertheimer) e Coronel Souza Franco, no Centro de Mogi. Filha única, Heleninha, como ainda é carinhosamente chamada, acompanhava da janela da Maria Fumaça as placas indicando as estações de trem entre o percurso São Paulo-Mogi das Cruzes. Aos 8 anos, a então garota encontrou uma cidade pacata, mas muito acolhedora. Logo, ela e os pais fizeram amigos que a acompanham até hoje. Como tinha iniciado o primário na Capital, ingressou no segundo ano no 2º Grupo Escolar Aprígio de Oliveira, fez o curso preparatório para o Exame de Admissão – onde conheceu Wilson Salomão Cury, com quem se casou 11 anos mais tarde -, estudou no Ginásio do Estado e formou-se em 1956 na Escola Normal. Após passar por várias instituições de ensino, estaduais e municipais, Heleninha se aposentou após 14 anos como diretora da Escola Mogiana de Educação Infantil (Emei) Monteiro Lobato, na Ponte Grande. A partir daí, voltou a se dedicar ao comércio ao lado do marido, na Casa São João, que completa 75 anos em Mogi. Em entrevista a O Diário, ela compartilha suas lembranças:

Quando a senhora veio para Mogi das Cruzes?

Nasci em São Paulo, onde morei até os 8 anos. Meu pai (Antonio Augusto Carneiro) era dono de um bar e lanchonete ao lado da Igreja de São Benedito, na Rua Florêncio de Abreu. Ele tinha um amigo português que era comerciante em Mogi e comandava o Bar Antarctica, onde hoje funciona a Lojas Riachuelo. Como ele sabia que meu pai trabalhava com bar e ficou sabendo que a Leiteria Glória estava à venda, o avisou. Meu pai veio para cá, fechou negócio e passou a trabalhar neste tradicional endereço da Cidade, que ficava na esquina das ruas Dr. Deodato Wertheimer e Coronel Souza Franco, onde hoje está a Lojas Colombo. Eu e minha mãe (Helena da Cruz Carneiro) continuamos morando mais seis meses lá, até as férias escolares e, então, também viemos para cá.

Como foi sua chegada?

Heleninha – Viemos de Maria Fumaça, que na época levava duas horas até São Paulo. Assim que passávamos em cada estação, eu olhava atenta pela janela porque não conhecia Mogi das Cruzes e tinha medo de passarmos do local. Só que não precisava disso, porque era a estação final. Viemos para a moradia que havia no mesmo prédio da Leiteria Glória, que era enorme e também abrigava seis mesas de bilhar.

Quais as lembranças da Leiteria Glória?

Lembro que meu pai fazia sorvete artesanal de massa e palito, além do arroz doce. Minha mãe também ajudava muito e eu, embora pequena, colaborava colocando os palitos nos sorvetes. Meu pai trouxe a primeira pizza para Mogi, então, todos os finais de semana, vinha um pizzaiolo de São Paulo, o senhor Nicola, para prepará-las. Ele ficava em casa e, em pouco tempo, ensinou um empregado nosso, o Primo, que passou a fazer as pizzas.

Havia dificuldades para encontrar os ingredientes em Mogi?

Aqui em Mogi, naquela época, não havia mussarela, então, eu e minha mãe pegávamos a Maria Fumaça e íamos buscá-la no Mercado Municipal de São Paulo. Como eu era pequena, não agüentava carregar mais do que uma forma de mussarela em cada mão e minha mãe trazia a maior parte. Depois disso, conversamos com o pessoal do Mercadão de Mogi e começamos começamos a comprá-la aqui. Meus pais foram aventureiros porque saíram de São Paulo e vieram para cá sem conhecer nada.

Quais foram os primeiros amigos da família na Cidade?

Não tínhamos parentes aqui, então, nossos primeiros amigos foram o casal Paulo Pereira Passos e Thereza Rissoni Passos, da Casa Passos, que vendia tecidos e artigos esportivos, no prédio onde hoje está a Casas Bahia. Logo fizemos amizade com o senhor Odair Paiva e dona Jahira Paiva, donos da Padaria Central, no Largo da Matriz. Minha melhor amiga, com a qual sempre brincava, era a Maria Aparecida Rissoni Beber, a Cice. Eles, com os filhos e netos, são minha família em Mogi.

Quem freqüentava a Leiteria Glória?

A Leiteria ficou famosa na Cidade e muitas pessoas lembram com saudades de lá. O local era freqüentado por toda a família e virou ponto de encontro das pessoas, principalmente da juventude. Ali tivemos freqüentadores assíduos como José Arouche de Toledo e seus irmãos Zoé e Benedito Leôncio, além de Elias Cecin, professor Jair Batalha, Jorge William Cury, Milton Alves, Jamil Makssud, Milton Cruz, Nelson Cruz, Benedito Alves dos Anjos, os irmãos Jaime e Isaac Grínberg, Tufi Andery, Isidoro Boucault e seus filhos Plínio, Sebastião, José Carlos, Getúlio, Salvador e Dorinho. A Leiteria Glória também era ponto de encontro dos jogadores e diretores do União, na época de ouro do time, e também do Vila Santista, apesar da rivalidade entre eles.

Havia campeonatos de bilhar lá?

Eram realizados vários campeonatos de bilhar e lembro que havia alguns senhores que jogavam muito bem. Os jovens, como não podiam participar por causa da idade, davam trabalho. Eles colocavam bombinhas de festa junina dentro das caixas de cigarro e as deixavam no centro da mesa para assustar os mais velhos. Gostava muito de lá e ajudei meu pai no caixa, onde vendíamos cigarros de todas as marcas. Ele ficou oito anos lá e, quando adoeceu, fomos morar um tempo em Poços de Caldas e, na volta, ele vendeu a Leiteria. Lembro que meu pai era muito amigo do Tote (Tirreno Da San Biagio, diretor de O Diário), torcia por seu sucesso e todo 13 dezembro, quando o jornal faz aniversário, ele ia tomar um café com ele para cumprimentá-lo.

Ele teve outros estabelecimentos comerciais na Cidade?

Depois, ele abriu o Bar do Lanche, onde hoje fica a Lojas Marisa, no Largo do Rosário, em sociedade com o Cícero Alves dos Anjos. Este era um bar muito freqüentado pelos jovens da época, como o Ery Brasil de Siqueira, José Carlos Miller da Silveira, conhecido como Tuta, o Marcos de Souza Leite, José Luiz Arouche de Toledo, Geraldo Sica, Wilson Cruz, Toshio e Satio Kitahara, João Batista Leite, o João Bateria, entre outros. Mas este pessoal era louco para pregar peças nos outros.

A senhora lembra de algumas destas histórias?

Meu pai era muito alegre, gostava dos jovens e do comércio. Lembro que uma vez inventaram uma história de que o Walter, da Cassis, uma perua que circulava pela Cidade fazendo propaganda e tocando música, estava com a bateria arriada em São Paulo. Eles pediram para o João Batista Leite, que era uma pessoa muito disposta a ajudar os outros, para socorrê-lo. Ele prontamente disse que iria, então, disseram que providenciariam a bateria. Só que deram a ele uma caixa cheia de paralelepípedos, que ele carregou até São Paulo pensando que fosse a bateria. Chegando lá, com aquele peso, abriu e viu que tinha sido enganado. Então, ficou com o apelido de João Bateria.

Quando veio de São Paulo, a senhora continuou os estudos em Mogi?

Vim para o segundo ano e estudei com a professora Anyris de Freitas Boucault, no 2º Grupo Escolar Aprígio de Oliveira, no prédio onde hoje fica o Liceu Braz Cubas. Só que, como vim de São Paulo, estava atrasada. Então, esta professora me levava depois do almoço para sua casa e fiquei dois meses estudando com ela à tarde, até conseguir acompanhar a turma. No terceiro ano, tive aulas com a Dona Hermogênia Silva Vieira e, no quarto, com a professora Maria Aparecida Batalha.

E depois?

Como a maioria dos mogianos, fiz o curso preparatório para o Exame de Admissão ao Ginásio, com a dona Iracema Brasil de Siqueira e a professora Romani. Conheci o Wilson (Salomão Cury) nesta época, já que estávamos na mesma turma. Comecei a namorar com 11 anos e ele tinha 12. Mas naquele tempo, namorar era só ficar olhando porque não podíamos sair sozinhos para lugar nenhum. Às vezes, íamos com uma turma de amigos às sessões Pif Paf do Cine Odeon. Depois de aprovados no Exame de Admissão, fomos estudar no Ginásio do Estado e Escola Normal, onde hoje funciona a Diretoria Regional de Ensino. Na época do Ginásio, estudamos junto com o Mauricio de Sousa.

Quais as lembranças da Escola Normal?

Nossa formatura na Escola Normal foi em 1956, então, no ano passado, comemoramos 50 anos de formação. Fizemos uma festa e reunimos nossos colegas e professores como o Miled Cury, Maria Aparecida Fonseca e Maria Mello Freire. Na sala, tínhamos amigos como Ary Arizza de Oliveira, Alzira Urbano, Aparecida Faria, Mario Kauffmann, Asmar William Cury, Mauricio Najar, Roberto Moretti, José Roberto de Mello, Benedicto Ivan Perotti, Neide Lara, Nilza Aparecida Moretti, Rosely Vieira, Sueli Augusta de Araújo Macedo, Maria Lúcia Mello, Elcy Lopes Guedes Mármora, Maria Ignélia Gomes de Oliveira, entre outros. Era uma delícia, fazíamos parte da classe mista e estávamos sempre unidos, promovendo festas e demais eventos.

Quando teve início a carreira no magistério?

Dei minha primeira aula numa Quarta-Feira de Cinzas, como professora substituta da escola Coronel Almeida. Sabia que uma professora iria viajar e, então, me propus a trabalhar no lugar dela neste dia. Na época, recebi um cheque e, em vez de ir ao banco descontá-lo, meu pai me deu o dinheiro e ficou com o cheque. Só depois que ele morreu, há nove anos, quando arrumava seus pertences, encontrei uma caixa com muitas lembranças. Uma delas era o cheque, que meu pai guardou em vez de descontá-lo, como recordação do meu primeiro pagamento como professora.

E depois desta aula?

Era difícil conseguir uma vaga para dar aulas porque os professores não faltavam. Mas, em 1957, uma professora ficou doente e passei o ano todo lecionando em sua sala de terceira série, na própria Coronel Almeida. Em seguida, fui lecionar em Biritiba Ussu, para onde só tínhamos dois ônibus, um pela manhã e outro à tarde, andando pela estrada de terra. Levávamos uma hora para chegar até lá, onde convivia com uma colônia japonesa maravilhosa, com a qual aprendi muito. O armazém dos Cardoso, que havia no Bairro, era ponto de encontro dos professores. Alí nós parávamos para tomar um lanche, enquanto aguardávamos o ônibus.

A senhora passou por outras escolas?

Na gestão do prefeito Carlos Alberto Lopes, dei aulas no curso de admissão mantido pela Prefeitura, num casarão perto da Praça Rotary. Depois de dois anos, fui para a escola Benedito Estelita de Mello, no Socorro, e de lá passei a dirigir a Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) Monteiro Lobato, na época denominada Parque Infantil, na Ponte Grande. Foram 14 anos como diretora até que me aposentei, com 28 anos de serviço. Esta foi a melhor época da minha vida. Antes, na gestão do Waldemar (Costa Filho, ex-prefeito), a escola ficava no Largo Bom Jesus, onde também funcionou o Tiro de Guerra e depois voltou a ser praça. Tenho saudades de lecionar e do contato com professores e alunos, porque vivíamos num ambiente familiar.

Quando a senhora se casou?

Namoramos 11 anos e me casei aos 22. A cerimônia foi na Catedral e a festa no Itapeti Clube. O Coral 1º de Setembro cantou na Igreja e na recepção. Meus sogros (Salim Salomão Cury e Luiza Borges Cury) já tinham a Casa São João e o Wilson dividia o tempo entre o trabalho no comércio e as aulas no Instituto de Educação (Washington Luiz) e no Liceu (Braz Cubas). Ele sonhava em estudar Educação Física e, ao sair da Escola Normal, passou na USP (Universidade de São Paulo), mas como era difícil estudar em São Paulo, não fez o curso lá. Quando o Náutico abriu a Faculdade, o Wilson estudou e era o mais velho da turma. Hoje, a Casa São João completa 75 anos.

Quem comanda a Casa São João hoje é a senhora e o marido?

Quando nos casamos, fomos morar na Rua Coronel Santos Cardoso 214, e como trabalhava oito horas dando aulas, não tinha muito tempo para ajudar na loja. Só passei a me dedicar a este serviço depois que me aposentei. Gosto muito de trabalhar aqui, ficar no balcão, atender as pessoas e cuidar do caixa porque isso me faz resgatar o passado e os tempos da Leiteria Glória. Neste ano, a Associação Comercial (de Mogi das Cruzes) irá homenagear 10 mulheres que trabalham no balcão há mais de 10 anos e serei uma delas.

Como eram os Carnavais de antigamente?

Esta paixão do Carnaval vem do meu pai, que trabalhava até às 22 horas, tomava banho e ia para o Itapeti. O Clube recebia grandes orquestras e tinha o melhor baile, onde dançávamos de sábado a terça-feira de Carnaval e, novamente, no Sábado de Aleluia. Meu pai sempre me acompanhava. Antes, tínhamos os salões do União e do Vila Santista, que na época ficavam na Rua Barão de Jaceguai. A juventude também costumava passear no Jardim da Praça Oswaldo Cruz, onde moças e rapazes andavam por lados opostos até se encontrarem no meio do trajeto. Quem já estava namorando, quando encontrava seu par, ia para o bosque dos namorados. Também freqüentávamos o Cine Avenida aos sábados e o Urupema aos domingos.

Qual sua maior alegria?

É ver minha família com saúde, minha filha formada em Medicina e Biomedicina, estar junto com meus netos e as pessoas que amo. Meu maior sonho é ver os netos formados porque eles são a razão da minha vida.O

E tristeza?

Perder meus pais. Minha mãe morreu há nove anos e meu pai, há oito. Eles se amavam muito e moraram 30 anos conosco, na mesma casa. Lembro que eles assistiam à televisão de mãos dadas. Tenho muita saudade deles, que foram criaturas maravilhosas e puras. Sinto falta da força e firmeza de caráter da minha mãe, que sempre me transmitia segurança, e do abraço aconchegante do meu pai.

A senhora praticou esportes na Cidade?

Queria jogar vôlei, assim como o Wilson, mas como era baixinha, a professora de Educação Física me colocava na queimada. Então, eu ficava bem na frente, para a bola acertar logo em mim e sair fora do jogo. Nos desfiles cívicos acontecia o mesmo. O Wilson levava a bandeira paulista e o Tonico (Antonio Brasil de Siqueira) ficava com a do Brasil. Mas eu, embora permanecesse na ponta do pé para ser escolhida, era sempre deixada lá atrás do Batalhão.Então, na primeira esquina, fugia do desfile, voltando apenas no trecho onde sabia que minha mãe iria estar.

A senhora teve participações em outras atividades em Mogi?

Participamos do Cursilho, que foi um forte movimento religioso na Cidade, e durante 15 anos demos o curso de Batismo na Igreja  do Carmo. Como gostamos de dançar, participamos dos bailes no Clube de Campo e durante dois anos fomos premiados como os foliões mais animados do Carnaval.

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