VIOLÊNCIA

Morte de bancário relembra casos de agressão em Mogi

FATAL Gilberto Eduardo Pinto morreu após sofrer agressão. (Foto: Divulgação)
FATAL Gilberto Eduardo Pinto morreu após sofrer agressão. (Foto: Divulgação)

Agressões também tiraram a vida do publicitário Arthur Netto e do jovem Cleiton da Silva, obrigado a pular de trem

Há 10 dias, o caso de agressão que culminou na morte do bancário Gilberto Eduardo Pinto remeteu a um passado triste de Mogi das Cruzes, com atos violentos que terminaram na morte de moradores da Cidade. O caso dos skinheads e o assassinato do ator e publicitário Arthur Netto.

O primeiro deles aconteceu em dezembro de 2003. Na ocasião, Juliano Aparecido Freitas, o Dumbão, Vinícius Parizatto, o Capeta, e Danilo Gimenez Ramos teriam obrigado Flávio Cordeiro e Cleiton da Silva Leite a pularem de um trem em movimento. Flavio teve um braço amputado e Cleiton morreu. O fato ganhou repercussão nacional e chamou a atenção pela intolerância, já que, segundo o Ministério Público, o trio obrigou os jovens a saltarem do trem porque eles pertenciam a um grupo contrário ao dos skinheads.

Em agosto de 2006, o ator e publicitário de Mogi das Cruzes Arthur Netto foi agredido por dois rapazes logo após deixar uma casa noturna e seguia em busca de um táxi no Centro para ir até a sua residência, a Vila da Prata. Segundo a família dos jovens, nada foi levado dele. A vida, porém, foi embora. O ator ficou internado por 31 dias. Outros 10 em casa, mas não resistiu e morreu.

Passados 12 anos, a advogada e irmã de Netto, Renatha Bitelli, diz chorar todos os dias de saudade do irmão. Também foi assim na última quinta-feira, quando a reportagem de O Diário ligou para ela, que contou que era aniversário da segunda sobrinha, que completava na data 13 anos. “Eu escrevi um texto para ela e postei nas redes sociais uma foto muito bonita dela. Depois, comecei a chorar. Chorei pela referência que o Arthur seria para ela, pela felicidade que teria de acompanhar a evolução das sobrinhas”, contou.

Renatha avalia que a crueldade na agressão contra o irmão traumatizou toda a família. O pai havia ficado cego anos antes de uma forma muito rápida. Dormiu e acordou cedo, por conta de um raro descolamento de retina. “Além da dor de perder o filho, meu pai se sentiu impotente. Ele foi militar, não aceitava o que fizeram com meu irmão, então a adaptação dele também foi muito difícil”, pontuou.

CENA Em agosto de 2006, o ator e publicitário Arthur Netto foi agredido na saída de casa noturna. (Foto: Divulgação)

Outra situação que faz o coração de Renata doer ainda mais pela morte do irmão é ter conhecimento de quem foram os assassinos de Arthur e saber que estão livres. Segundo ela, o delegado que investigou o caso disse que as provas eram rasas para prender os dois. Ainda hoje, ela diz encontrar com eles. “É uma cauterização sem anestesia, eu tenho a dor de uma fratura exposta na alma. Tenho um quadro dele na sala, quando passo, tento falar com ele, porque o clima é muito pesado. O que nos faz de certa forma seguirmos após a morte dele é a rede de solidariedade. Pessoas de diversas partes, inclusive da Polícia, dão força para gente até hoje. Amigos dele viraram nossos amigos também”, conta.

Depois da morte de Arthur, Renatha diz que assuntos relacionados à agressão a deixam muito mal. Ela relembrou a morte do rapaz conhecido como Argentino, que também perdeu a vida após ser agredido na saída de uma balada e o recente caso do bancário a fazem repensar a evolução de parte da sociedade mogiana, que parece de nada ter evoluído depois que Arthur morreu. Para lembrar o legado dele e também, infelizmente, ressaltar a história que a agressão pode levar, Arthur Netto ganhou um espaço cultural e também uma praça que levam seu nome.

Para José Luiz da Silva, conhecido como Rabicho, administrador do Casarão da Mariquinha no Centro de Mogi, que também era amigo de Arthur, este é o papel da arte: unir as pessoas e levá-las ao debate de como uma sociedade pode ser mais inclusiva, respeitosa e melhor para todos. “A morte do Arthur chocou a todos nós, eu o vi nascer e crescer e se formar publicitário. Foi triste ter ido visitá-lo e ele não me reconhecer. Por isso, a gente se coloca como uma entidade cultural, porque a violência gratuita dá para coibir com educação e cultura. É essa a nossa missão”, enfatizou.