EDITORIAL

Morte lenta

Nem nas primeiras braçadas das nascentes, o Tietê vive bem (e isso não é culpa dele)

Nos últimos três anos, os resultados da pesquisa Observando o Tietê, da Fundação SOS Mata Atlântica, revelam que muito pouco fez o poder público regional para mudar as condições da qualidade do rio que nasce em Salesópolis para se transformar no principal recurso hídrico do Estado de São Paulo. Nem nas primeiras braçadas editdas nascentes, o Tietê vive bem (e isso não é culpa dele).

O manancial começa a morrer poucos quilômetros depois de nascer e vai piorando ao passar por Biritiba Mirim, Mogi das Cruzes e Suzano.

O rio em Biritiba Mirim e Salesópolis apresentou melhores condições nos anos de 2014, 2015 e 2016. A qualidade da água foi classificada como boa nesse período. Nos três anos seguintes, essas cidades saíram da classificação boa para regular. Estacionaram nessa métrica. A partir de Mogi das Cruzes até Ferraz de Vasconcelos e Itaquaquecetuba, nos demais pontos de avaliação em córregos e no próprio Tietê, a situação se degrada ainda mais.

As prefeituras e a sociedade civil organizada não estão conseguindo reagir ao avanço da poluição, resultado da urbanização intensa, a redução de vegetação das cidades e a falta de políticas públicas que preservem o rio do esgoto doméstico e do pesadelo vivido a partir de bairros de São Paulo onde o Tietê está completamente morto.

Há projetos em andamento para a despoluição. Mas o ritmo de investimentos não atende ao que realmente interessa: melhorar as condições das águas do Tietê.

A pesquisa Observando o Tietê coloca em xeque os dados oficiais sobre a despoluição. Já há alguns anos, a Prefeitura de Mogi das Cruzes divulga que está tratando mais de metade do esgoto despejado nos cursos d’água. O drama é: apesar disso, a condição da água segue ruim no trecho mogiano.

Entre as explicações estão o intenso processo de urbanização – mas, detalhe, novos empreendimentos imobiliários são obrigados a nascer com sistemas próprios de tratamento. Ou seja, o passivo do despejo do esgoto nos córregos e ribeirões tem causa no passado – e o pior, permanecerá o mesmo por muito tempo.

Obras de saneamento são caras, demoradas, de execução trabalhosa, impopulares e de pouco capital político. Elas não dão a visibilidade política aos gestores públicos.

Então, o que temos: além da vontade do poder público, a questão do Tietê não se resolve rápido porque mesmo com o aumento da percepção popular sobre os estragos provocados pelos crimes contra o meio ambiente, ainda falta a falta de conscientização das pessoas, dos eleitores, sobre o que um rio limpo significaria para a vida nas cidades.

E como se nota que a maioria das pessoas vira as costas para o Tietê em agonia? Nos hábitos que matam o oxigênio da água: o óleo jogado na pia, a alta carga de agrotóxicos químicos, o desmatamento que reduz as nascentes, e etc.

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