EDITORIAL

Motivo de orgulho

Na capital mundial da música clássica, Viena, berço dos compositores Wolfgang Amadeus Mozart, Franz Schubert, Joseph Haydn e Gustav Mahler, um mogiano brilha ao fazer bonita história na regência do coral dos Pequenos Cantores, fundado há 520 anos, isso mesmo, em 1478, e formado por 100 meninos de diferentes nacionalidades.

A vida do maestro Luiz Guilherme de Godoy, de 31 anos, é motivo de orgulho e exemplo. Alguns lances dessa trajetória convergem para o acerto da família que o inspirou e de uma fase interessantíssima das políticas públicas culturais de Mogi das Cruzes, de interesse para projeção, memória e zelo.

Aos 5 anos, Luiz Guilherme foi levado pela mãe, a professora Lidia, da rede pública, aos ensaios da maestrina Dulce Primo no projeto Um Canto em Cada Escola, no início da década de 1990. A vinda para Mogi da maestrina mineira conhecida pelo coral natalino que rege em Curitiba foi um momento definitivo para o enraizamento da música clássica e instrumental na cidade, responsável por despertar a vocação e pela formação profissional de centenas de mogianos.

Essa experiência musical foi impactante para o garoto, que nem era alfabetizado ainda. Daí vieram as aulas de piano, a faculdade na USP, o convite para ser o pianista na turnê brasileira dos Pequenos Cantores de Viena, a carreira internacional, prêmios como o Erwin Ortner, o “Oscar” da música na Áustria, o convite para Ópera de Hamburgo, na Alemanha.

Na Entrevista de Domingo, concedida ao jornalista Darwin Valente, Luiz Guilherme contou sobre a carreira, discordou da supervalorização do sacrifício no Brasil, e disse sentir falta da família, dos encontros com os amigos mogianos em pontos como o Casarão da Mariquinha (hoje com o futuro incerto). Onde ele gostaria de estar? Num Brasil, que seria muito melhor, “se houvesse escolas de música com a qualidade da Municipal de São Paulo espalhadas por todo o País e mais gente tivesse acesso à educação musical sem ter que se sacrificar”.

O laços mantido com a “ilha”, onde nasceu, com a família, onde aprendeu sobre valores e ética, é algo valoroso. Quando perguntado sobre qual recado teria a quem aqui permanece, o músico rega o que pode se contrapor à modernidade líquida, caracterizada por Zigmunt Baumann, como uma sociedade individualista e de relações efêmeras: “Acredito plenamente que somos resultado das interações sociais a que somos expostos. Minha carreira, minhas conquistas, são o produto de todas as conversas, todo o afeto, toda a atenção e troca humana que vivi e vivo. Muito obrigado à minha família e aos meus amigos por serem quem são e me fazerem quem sou”.