EDITORIAL

Mudou o endereço

Os problemas são os mesmos. O endereço muda. As situações relatadas por comerciantes e trabalhadores do Largo Francisco Ribeiro Nogueira em nossa edição de ontem são conhecidos de quem reside ou trabalha em outros espaços públicos que recebem moradores de rua durante o dia e principalmente à noite, quando a temperatura cai e uma marquise, o vão de um canteiro ou um banco servem de abrigo contra o frio e a chuva.

Homens e mulheres sem teto migram de uma praça a outra, um resultado direto do crescimento da população de rua brasileira. Há uma alternância entre bairros e cidades, como mostram os relatórios dos serviços de assistência social mantidos por prefeituras.

As mudanças são ditadas pelo ritmo da fiscalização e policiamento. Agora mesmo, a Prefeitura de Mogi está conseguindo conter a ocupação do coreto do Largo Bom Jesus dessa forma, com a permanência de guardas municipais.

A medida adotada pelo governo do prefeito Marcus Melo (PSSDB) também ocorreu em algumas ocasiões durante o mandato do ex-prefeito Marco Bertaiolli. Tanto no passado como agora o efeito é o mesmo: a descentralização da moradia de rua com a ocupação da vizinhança, os largos do Carmo e Prefeito Francisco Ribeiro Nogueira.

A resposta do poder público segue inconsistente para um problema social e de saúde pública de raízes diversas, acentuadas pelo aprofundamento da falta de escolaridade e de emprego para a parcela da população em situação de miséria e pobreza, e o aumento da dependência química desacompanhado do tratamento de fácil e amplo acesso a todas as pessoas.

A rede de atenção à pessoa em situação de rua atende uma pequena dessa demanda. Muitos dos moradores não tem condições de rapidamente se inserirem na sociedade, não têm documentos, formação profissional e têm debilidades físicas.

Apesar dos investimentos na assistência social, com o funcionamento de serviços, como os Cras (Centro de Referência em Assistência Social), faltam respostas rápidas e efetivas a situações como a dos moradores que apresentam vísiveis sinais de demência e de comprometimento da saúde. Sobre isso, em uma rede social, há uma fotografia de duas moradoras de rua dormindo, uma delas, seminua, em um dos canteiros do Largo Francisco Nogueira. É uma imagem irretocável sobre o tamanho do desafio imposto ao poder público e à sociedade. O regramento do convívio público compete ao estado, e o estado tem falhado. Porém, cuidar de um filho, um irmão ou um pai ou uma mãe, ou ainda um órfão de vínculos sanguíneos é responsabilidade de todos (familiares, conhecidos, educadores, entidades não governamentais, etc.) na construção de uma sociedade mais humana, justa e generosa.