LAERTE JOSÉ DA SILVA

Na luta por uma cidade melhor

Laerte José da Silva. (Foto: Divulgação)
Laerte José da Silva. (Foto: Divulgação)

Contabilista, advogado, autor de artigos publicados neste jornal e presidente de uma entidade filantrópica, Laerte José da Silva é um biritibano que mora em Mogi das Cruzes há pelo menos 48 anos. Durante este tempo, mais do que se encantar pela cidade, ele decidiu lutar por ela, abraçando diferentes causas, como a luta, na década passada – e que se repete agora – contra a construção de um aterro sanitário. Ex-integrante de grupos como o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e a Rede Nossa Mogi das Cruzes, ele continua envolvido em debates e movimentos sociais, e por isso explica aqui quais são as pautas em discussão hoje, além de traçar um perfil da abertura do município abertura em relação a estes temas.

Quais são as pautas em discussão na Mogi das Cruzes de hoje?

Costumo dizer que a cidade é um organismo vivo, então as questões sempre mudam. Mas hoje a pauta mais evidente voltou a ser a questão do lixo, assim como já foi na década passada, pois envolve muito dinheiro na remuneração da empresa que faz a limpeza urbana e a destinação dos dejetos. Outro assunto que causa preocupações é a integração do transporte, que sempre foi motivo de discussão. Agora, depois de anos de espera, o Expresso Leste chega até Mogi, mas falta a integração com os ônibus da cidade, o que é importante e poderia ser feito a partir do cartão SIM. Outro tema é a mobilidade urbana e o problema do trânsito. A cidade tem um traçado que não favorece a desapropriação de muitos imóveis, sem contar o custo desse procedimento, mas se não houver intervenções ousadas a situação não vai mudar. Há também a questão do zoneamento da Vila Oliveira e tantas outras, além das pessoas em situação de rua, a segurança, o desemprego e outros problemas que assolam todo o país.

E como é a abertura para estes debates?

Mogi tem muitas mentes brilhantes, mas nem sempre elas conseguem os canais para desenvolver os trabalhos. Há algumas semanas houve uma audiência para falar de uma possível Parceria-Público Privada (PPP) em relação ao lixo, mas penso que as audiências têm de ser mais divulgadas, ostensivamente, com faixas e cartazes, pois nem todos estão atentos à internet. É preciso verificar o melhor horário para os encontros, e também fazer mais de um. Mas de modo geral acho que o município tem dado abertura, e penso que a participação das pessoas incomodadas com as pautas seja algo elementar.

Quando o senhor começou a se envolver com movimentos sociais?

Num ano eleitoral, no começo da década de 1990. Naquela época, me incomodei quando saía do bairro em que morava e ia para o trabalho, passando por uma placa de um candidato a vereador que, mesmo já tendo terminado a campanha, continuava ali, há meses. Fiz uma reclamação sobre isso, e a repassei para o O Diário, que repercutiu. Aquilo me despertou porque, depois dos anos 90, o Código de Defesa do Consumidor inspirou as pessoas a reclamarem pelos seus direitos. Com ele, é possível se mexer, ser ouvido e provocar mudanças em alguns parâmetros.

Em que mudanças o senhor esteve envolvido?

Ainda nos anos 1990, na área próxima ao Shopping havia um caminho em que as pessoas andavam na terra. Mas se todos já passavam por ali, o que fez a grama desaparecer, porque uma calçada direcionada não era feita? Fiz uma abordagem sobre isso e a prefeitura modificou, construindo o traçado para o pedestre de forma segura, sem que ninguém estragasse o canteiro. A partir disso comecei a escrever sobre várias situações, como no início dos anos 2000, quando, numa época de eleições, falava-se muito na compra do voto. Nesse tempo alguns amigos queriam montar em Mogi o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que já tinha alguns módulos espalhados pelo Brasil, mas não aqui. Era o desejo de fazer mais coisas acontecerem, então a iniciativa saiu do papel.

Como era a atuação deste grupo?

Exemplifico a atuação com duas iniciativas que foram muito ricas, e mostram que o envolvimento e a luta são necessárias, pois nem sempre todas as portas dos poderes públicos estão abertas. A primeira delas é o Fórum da Cidadania que fizemos em 2008, para buscar o que a sociedade civil tinha de interesse nos candidatos que se apresentavam à prefeitura naquele ano. A partir disso conseguimos marcar um debate com os prefeituráveis, que foi transmitido ao vivo pela TV Diário. Na ocasião, fizemos o termo de compromisso dos candidatos, que reconheciam, por meio deste documento, suas obrigações caso fossem eleitos. Um dos itens abordados era a ouvidoria, que a cidade ainda não tinha e veio a ter logo depois, quando Marco Bertaiolli foi eleito.

Já a segunda, no ano seguinte, foi nossa participação no movimento Ficha Limpa, iniciativa popular para a criação de um projeto de lei que impedisse políticos condenados a se candidatarem. Apesar da controvérsia que envolvia o assunto, saímos pelas ruas da cidade eu, Olavo Câmara, José Arraes, Mário Sérgio Moraes, Macos Soares e Nabil Francisco de Moraes para coletar assinaturas. Conseguimos cerca de 8 mil delas e enviamos para o MCCE geral a fim de agregar a soma total de um milhão de nomes, o que deu certo.

Então Mogi é engajada em causas sociais?

Eu entendo que há engajamento sim, mas tenho minha própria impressão, de que os movimentos são como elásticos: às vezes se estendem e às vezes se encolhem, Já houve a luta do lixão, com a qual nosso grupo participou com o Fórum Luz do Lixo, por exemplo, e essa pauta voltou agora à tona. Em certo momento pensamos em ampliar nossas atividades, pois éramos chamados para outras discussões além do âmbito eleitoral, como na parte cultural. Por isso nos aproximamos da Rede Nossa São Paulo – da qual me afastei para assumir a presidência da loja maçônica Cruzeiro do Itapeti, criando a Rede Nossa Mogi das Cruzes, que junta boas cabeças de diferentes áreas para cobrar melhorias em diversos setores da cidade, a exemplo dos fóruns Segurança Pública e Segurança de Paz, Mogi Pede Água e Mobilidade Urbana, que realizamos nos últimos anos,

De um modo geral, qual é a posição da cidade em relação aos temas abordados pela Rede Nossa Mogi das Cruzes?

Mogi é uma cidade conservadora. No entanto, houve, de certa maneira, uma quebra de paradigmas, não só pelos grupos dos quais fiz parte, mas pela mudança de pensamento da administração pública em relação ao que o município quer e precisa. Nesse sentido o movimento contra o aterro sanitário foi um divisor de águas, provando que é preciso brigar pelas questões da cidade. Claro que grupos políticos sempre administraram acidade, e isso continua. Não podemos ter a ingenuidade de achar que Mogi seja totalmente aberta, mas temos encontrado as portas da Prefeitura mais abertas para conversar conosco. É consequência de tantas marteladas.

Pode-se dizer este é um “trabalho de formiguinha”?

Sim. Quando estávamos no MCCE, fomos em várias escolas da cidade para explicar aos jovens a importância do voto consciente, e me recordo de um garoto que não dava muita importância ao assunto, dizia que tanto fazia. Perguntamos se ele acharia legal se o esgoto, por exemplo, começasse a correr na porta da casa dele, e para quem ele reclamaria nessa situação. A resposta foi: ‘sei lá’. Explicamos a ele que isso é exatamente isso o que permite que maus políticos deixem tudo como está, então se você há um vereador que nos representa, precisamos escolhê-lo para olhar por nós, e assim por diante. Essa conscientização é justamente o “trabalho de formiguinha”, que faz com que os problemas do bairro cheguem ao poder público.