EDITORIAL

Nada de novo

A Polícia Civil é vitrine da precarização do serviço público

Relatório divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) sobre a operação e as condições de funcionamento de delegacias ratifica o que todos sabem. A força do levantamento está em detalhar a precariedade dos prédios físicos e das condições de trabalho dos policiais, que interfere diretamente no atendimento público. Novidade, ele não traz.

Entre os dados, um não pode passar despercebido: o tempo médio de espera de um cidadão que vai registrar uma ocorrência é de 76 minutos em todos os distritos policiais paulistas. Essa é a média – no dia a dia, quando casam a falta de delegados e o acaso de vários flagrantes ocorrerem ao mesmo momento, a espera leva quatro, seis horas. Qual cidadão hoje pode ficar todo esse tempo à espera de um delegado?

A Polícia Civil – e a Militar não está longe disso – é vitrine da precarização do serviço público. Delegacias como as de Mogi das Cruzes têm problemas de toda ordem – falta estrutura básica para o trabalho dos agentes nos prédios e de recursos materiais e elementos básicos – sobretudo veículos e até armamento.

Unidades de cidades menores sofrem ainda mais com a falta dos investimentos no custeio e manutenção. Enquanto isso, as organizações criminosas se valem da fragilidade estrutural para bolar ações cinematográficas, como as explosões de caixas bancários ocorridas nas bucólicas Guararema, neste ano, e Salesópolis, no ano passado.

O mais grave na análise da recente pesquisa é o despropósito do governo do Estado ao responder à grave situação, alegando que recebeu o relatório do TCE e está avaliando o conteúdo das informações para tomar as providências possíveis.

Ora, o abandono dos prédios e da rotina policial não começou ontem, nem anteontem. É algo sistemático. E de amplo conhecimento dos políticos e do governo.

A precarização produz reflexos na condução do que poderia estar melhor – caso de situações como os banheiros sujos e sem papel higiênico – o Estado terceiriza a limpeza patrimonial e compra o papel, e os delegados responsáveis têm a obrigação de cuidar dos seus quintais. A questão é: também há uma falta sistemática de delegados.

Vez ou outra, intervenções surgem para atenuar a desestrutura, o desconforto – como a divisão ocorrida há pouco com a construção de um “puxadinho” na Distrito Central para abrir a Central de Flagrantes, e a tentativa frustrada de se transferir provisoriamente as detentas de Poá para a Cadeia Pública de Mogi.

São saídas improvisadas. Nada que ao menos estimule os policiais. O resultado não poderia ser outro: a desaprovação e o descontentamento popular com o serviço público responsável por proteger as cidades e combater a criminalidade.