EDITORIAL

Não cai do céu

Conquista no ano passado, a inclusão das obras emergenciais de restauração das Igrejas das Ordens Primeira e Terceira do Carmo no Programa de Ação Cultura (ProAC) do Governo do Estado, que permite a captação de recursos financeiros de empresas interessadas em contribuir com a preservação do patrimônio histórico e cultural, nos serve para uma dura constatação sobre os prejuízos criados pela falta de lideranças com peso e vigor capazes de mobilizar a sociedade mogiana na defesa de seus interesses.

Isso se dá no mesmo local que possui um belíssimo exemplo da força de um líder. As Igrejas do Carmo foram defendidas no passado por um professor. Mas, isso é passado. Um professor reagiu ao que poderia ter colocado no chão 400 anos da história brasileira. Foi o inconformismo do mestre em história Horácio da Silveira que impediu os freis carmelitas de demolirem, como queriam, uma das igrejas do conjunto arquitetônico mais antigo da cidade. A ideia dos religiosos era construir uma igreja mais nova no lugar da velha, varrendo a própria história dos carmelitas no Brasil.

Quando soube da decisão, o professor Horácio da Silveira articulou a defesa desse bem tombado, a partir daí dessa luta, como patrimônio histórico nacional.

Desde essa ação, as igrejas do Carmo enfrentam problemas para se livrar dos riscos de deterioração causados pela ação do tempo e de invasores, como os cupins, que atacam peças e pinturas sacras e centenárias.

Desde o ano passado, dois atores, o responsável pelo Museu das Igrejas do Carmo (MIC), que está fechado, e uma representante da Secretaria Municipal de Cultura, têm corrido atrás de empresários para conseguir pelo menos 30% do valor de R$ 790 mil destinado pelo ProAC. A única empresa que respondeu ao pedido, de imediato, foi a JSL, com 15%.

Não se viu, até aqui, uma articulação mais forte de representantes da Igreja Católica, da Diocese de Mogi das Cruzes, da Província de Santo Elias, do Comphap (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artísticos e Arquitetônico de Mogi das Cruzes), dos poderes Executivo e Legislativo, de outras instituições com algum raiz na história, na cultura e na educação como as universidades mogianas, educadores, historiadores, arquitetos, festeiros…

Sombrios esses tempos marcados por um vazio social que lega valores às gerações mais jovens centrados no cada um por si e no rompimento de compromissos com o passado, com quem muito fez para que essas igrejas chegassem até o século XXI contando como viviam, como rezavam, como construíam.

Não vão cair do céu os recursos para salvar esse patrimônio mesmo com as facilidades oferecidas pelo ProAC. Faz falta cidadãos como Horário da Silveira.