ARTIGO

Não foi um sonho

João Anatalino Rodrigues

Vi uma bromélia nascendo dentro da caveira de um boi e uma madressilva que rompia a densidade de uma parede de pedra em busca de ar. E uma “Maria sem Vergonha” brotando no meio do asfalto, para dizer ao mundo que toda impossibilidade deve ser desafiada.
Vi um sorriso amistoso brotar nos lábios eternamente côncavos do Gilmar Mendes, fazendo o seu rosto sombrio inundar-se de luz e o ministro Sérgio Moro sendo recebido na Câmara dos Deputados com uma grande salva de palmas. Vi o presidente Bolsonaro abraçando, efusivamente, o cantor Pablo Vitar,  convidando-o para exercer um cargo no seu ministério.

Vi uma Casa Legislativa cheia de parlamentares trabalhando até tarde para aprovar matérias de interesse público, esquecidos dos seus compromissos com os lobbies que os elegeram.

Vi um skinhead ajudando um cego a atravessar a rua e o segurança de um shopping center oferecendo um lanche para um menino de rua. Depois todos foram juntos ao cinema assistir ao filme Paz, Amor e Muito Mais.

Vi uma multidão vestida com camisas de diversos times de futebol, lavando o piso de uma praça pública, como fazem as baianas com as escadarias do Senhor do Bonfim, enquanto padres e maçons cantavam o Hino Nacional em frente a uma sinagoga. Vi um rabino de longas barbas bifurcadas rezando o Padre Nosso, enquanto um barbudo sheik muçulmano distribuía ao povo que se ajuntava em frente a sua mesquita, a hóstia consagrada.

Vi um grupo enorme de pessoas, portando bandeiras vermelhas, ornadas com foices e martelos, lavando as portas de vidro de um banco, enquanto cantava uma letra de Caetano Velloso, adaptada para o Hino à Alegria, de Beethoven. Do outro lado da rua , um grupo de pessoas, vestindo balandraus brancos, com cruzes vermelhas no peito e cabeças cobertas por capuzes da mesma cor, ajudavam senhoras do Exército da Salvação a servir sopa para os pobres e entregar cobertores para uma multidão de indivíduos sem teto, onde predominavam negros, mendigos e homossexuais.

Vi milhões de evangélicos realizando a Marcha para Jesus; no meio do cortejo havia um andor com a imagem de Nossa Senhora Aparecida sendo conduzida por eles ao som da Ave Maria de Gounod.

Vi milhares de soldados marchando ao som da canção “Caminhando” de Geraldo Vandré; ao invés da marcha militar eles caminhavam de mãos dadas; no lugar de fuzis levavam rosas em suas mãos.

Vi imbuias, mognos, perobas e jequitibás, sendo plantados no lugar das chamas que consumiam uma floresta.

Vi tudo isso e não foi um sonho. Era um universo paralelo que eu acabava de adentrar em meu desejo de ver um mundo diferente.

João Anatalino Rodrigues é escritor e advogado