Não tenho tempo a perder

A cada volta que o ponteiro dá é um minuto a mais que temos vivido e um minuto a menos que temos para viver. E assim, de minuto em minuto, vamos levando a vida – ou dar-se-ia de ser o contrário?- É exatamente isso que acontece. É ela quem nos leva, quem nos conduz em marcha acelerada, ritmada e orquestrada pelo balanço das horas.
– Correto. E essa é uma verdade inexorável: não há neste mundo quem seja capaz de deter o andamento do tempo. Para uns ele concede um período mais elástico de existência; a outros, nem tanto, contudo, por mais elasticidade que tenha a concessão, o viver do ser humano não passa de ser miseravelmente efêmero como a vida duma linda e colorida borboleta. Hoje me dou conta dessa realidade e fico pensando: quão bom seria se me fosse dado o poder de retroceder aos primórdios da minha infância, adolescência, juventude e maturidade para que pudesse reescrever minha história de modo a levar todos que a lessem a exclamar: “Que história linda e maravilhosa!”
– Quer saber duma coisa? O que você acaba de dizer despertou em mim algo que se achava adormecido e ao qual nunca liguei a mínima.
– É mesmo? Que bom! Sinto-me feliz em poder contribuir para que alguém abra os olhos e veja com clareza aquilo que se achava encoberto pela bruma da indiferença. Com que, então, minhas palavras acordaram quem dormia? E quem é que estava ferrado no sono?
– O modo descuidado, o jeito destrambelhado com que tenho conduzido o meu viver que incutiu em minha mente o pensamento incoerente de que os dias da mocidade jamais chegariam ao fim e que o mundo deveria sempre girar em torno de mim. Ah, como deploro aqueles anos desperdiçados que joguei pelos ares e permiti que fossem levados ao sabor do vento. E hoje, por mais que me empenhe em busca diligente, jamais poderei resgatá-los.
– É, meu amigo, a vida da gente é uma coisa muito séria e seria sumamente excelente que todos se dessem conta de que o viver é uma arte que deve ser aprimorada a cada dia para que não se dê o caso de algum desleixado dizer que viveu sem ter vivido e que, quando se deu por achado, já se encontrava perdido. E para que saiba também o seguinte: que a dor que agora perdura é marca que o tempo deixou, visto que, não pode colher doçura, quem amargura plantou. E com a sua devida licença, agora vou me retirando, pois tenho muito o que fazer, os minutos vão passando e não tenho tempo a perder.

Gê Moraes é cronista


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