MOGI PELO MUNDO

Natural de Mogi, Denise conta como está a vida na Flórida em meio a pandemia de Covid-19

EM ATIVIDADE Desine Cristina Hardt Pires é doutora em terapia clínica comportamental e conta que problemas psicológicos e mentais aumentaram muito, porque o isolamento, acentua a ansiedade e a depressão. (Foto: divulgação)
EM ATIVIDADE Desine Cristina Hardt Pires é doutora em terapia clínica comportamental e conta que problemas psicológicos e mentais aumentaram muito, porque o isolamento, acentua a ansiedade e a depressão. (Foto: divulgação)

Há oito anos, a mudança de Mogi das Cruzes para a Flórida, nos Estados Unidos, foi motivada pelo emprego do então marido. Diretor de novela, ele foi trabalhar na Telemundo. Anos depois o relacionamento acabou, ele retornou ao Brasil, mas ela se estabeleceu lá. Denise Cristina Hardt Pires reconhece que são poucos os brasileiros que conseguem exercer fora de seu país a atividade na qual se formou. Doutora em terapia clínica comportamental, aos 55 anos ela atua como analista de comportamento na clínica de uma brasileira e um americano. Com a pandemia, viu a gama de clientes aumentar consideravelmente, dados os reflexos do isolamento social na ansiedade, depressão e até o suicídio. A situação do país de origem e também onde escolheu viver em 2012 considera bem parecida, sobretudo pela semelhança entre os presidentes Trump e Bolsonaro. Anualmente visita a mãe Cidinha Hardt Pires e o irmão Roberto, o Beto Pires, que chega aos 50 anos este mês e a família planejava uma supercomemoração. Sobre voltar a viver no Brasil, ela não descarta, mas também não planeja. Estar a duas horas de viagem da filha Luísa, de 25 anos, que mora na capital Washington DC, é um dos pontos fortes para continuar por lá. Mas concorda com a frase de Tom Jobim: “Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”.

Por que a Flórida?

Eu já tinha viajado para cá, mas foi um projeto do meu marido à época, que é diretor de novela e veio trabalhar na Telemundo. Há quatro anos nos separamos, eu estava naquele momento me firmando na minha área aqui. Ele foi embora, e eu decidi ficar.

E as dificuldades de morar fora do Brasil?

Pra mim, a maior dificuldade é a saudade do Brasil, da família, dos amigos, e principalmente do clima amigável. A gente vive uma vida com muitos benefícios que são os que me fazem estar aqui, principalmente por ter a minha filha Luísa, de 25 anos, que mora em Washington, porque a minha filha não vai voltar. A gente está a duas horas e meia, a gente tenta se ver com uma frequência de dois ou três meses.

Os Estados Unidos são o país com o maior número de casos confirmados e mortes pela Covid-19 no mundo. Como você percebeu a chegada do novo coronavírus aí?

Eu fiquei sabendo quase como muita gente, no final do ano passado e começo deste ano. As notícias foram chegando, mas eu senti realmente em março, e veio de supetão. No dia 13, eu tinha um show da Diana Ross para ir e, durante a manhã, recebi mensagem cancelando. Nesta mesma semana, as aulas foram suspensas e aí começou a fechar tudo. A quarentena aqui começou oficialmente no dia 19, então de uma semana para a outra tudo mudou muito.

Nova York é o epicentro da pandemia nos EUA. Como foi aí na Flórida?

Eu sei que a Flórida não foi como Nova York, a gente ficava muito impressionado com os números de Nova York no começo, mas hoje aqui a situação ainda está intensa. Aqui ficou um mês realmente sem sair de casa, só para o essencial. Mas agora já está mais flexível. Bares e restaurantes já voltaram a abrir atendendo com apenas 50% da capacidade, sem vender bebida alcoólica, mas muita gente ainda está receosa, porque ninguém sabe ao certo quando tudo isso vai passar. As praias ainda estão fechadas.

Você considera que o presidente Donald Trump conduziu de forma inteligente a quarentena no país?

Eu acho que os EUA não foram corretos, porque eles já sabiam do perigo do vírus e, ainda assim, fecharam as atividades muito tarde e reabriram muito cedo. Porém, eu entendo a situação econômica. O país já está e vai entrar em uma crise econômica pior, assim como deve acontecer em nível mundial. Se tivessem tomado uma medida de lockdown mesmo, fechando tudo bem antes, já teriam melhorado os indicadores.

E no Brasil?

Eu acho que no Brasil foi situação parecida com aqui, apesar de ter fechado mais cedo, mas não fechou direito, não fez um lockdown. Além disso, a pandemia é tratada com o envolvimento político. É muito parecido ao que é vivido aqui. Não defendo nenhum dos dois líderes, para mim, não péssimos.

E como foi a sua quarentena? Pensou em voltar para o Brasil?

Não, eu não pensei em voltar para o Brasil. Eu não entrei em desespero. Eu tive alguns momentos de ansiedade, preocupação em ver a minha mãe, minha família. Mas ainda bem que a minha filha pode vir um pouco para ficar aqui comigo. Eu nunca pensei que fosse uma situação para desespero. Acho que o mundo tem que continuar, apesar de tudo isso, porque não vai acabar logo. É possível que apareça outro vírus. Há quanto tempo a gente vê que os asiáticos usam máscara. A gente achava ridículo, mas pode ser que esse seja um hábito para sempre, a partir de agora. Hoje eu vou ao supermercado, comprar as coisas, mas não vou a um restaurante. Mas eu não estou absolutamente em casa. Estou atendendo na clínica também.

Como profissional da saúde mental, você acha que essa pandemia tem causado danos nesse sentido às pessoas?

A procura por atendimento na clínica em que eu trabalho aumentou muito. O suicídio aumentou bastante, apesar de o governo não divulgar muito isso. Todos os dados de problemas psicológicos e mentais aumentaram muito. Em Nova York, o governo tem uma campanha de saúde mental, porque o isolamento acentua todo o tipo de problema: ansiedade, depressão, convivência. Para algumas pessoas foi bom para aproximar a família, em alguns sentidos, mas na grande maioria é só queixa.

Planos para vir ao Brasil?

Eu costumo ir anualmente, não fico sem ver a minha família. Fui ao Brasil em abril de 2019 e tinha planos de voltar ao país na semana que vem. Íamos reunir a família no aniversário do meu irmão Beto, que faz 50 anos. Agora vou esperar essa situação melhorar um pouco. Pessoalmente, eu não sou tão assutada. Se eu pudesse ir tranquilamente, eu iria. Agora não tem necessidade de eu me expor. A gente está com problemas de voo. Eu posso ir e voltar porque eu tenho residência, mas é toda uma complicação burocrática e, se eu puder evitar, eu vou evitar. Se passar um tempo maior, eu quero ir ver a minha família.

E voltar de vez?

Eu não descarto, porque eu gostaria de voltar. Mas eu não acredito que eu volte. Tenho a minha filha a duas horas daqui. A gente se vê com muito mais frequência do que se eu estivesse no Brasil. Mas é como disse Tom Jobim: “Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”. Aqui não tem a alegria do Brasil, mas a vida é muito boa. A segurança, estabilidade, tranquilidade. E eu tenho uma qualidade de vida aqui, inclusive financeira, que se eu volto para o Brasil, eu não consigo ter. Eu moro na Flórida que é um estado ruim dos EUA e vivo tranquila, sem medo de assalto. Eu posso fazer caminhada à noite, em uma rua escura, que eu não temo ser assaltada. Mas eu não descarto porque eu nunca vou achar que os EUA são a minha casa. Eu estou aqui por conveniência. Eu agradeço, sou grata, mas acho que eu vim muito velha. Diferente da minha filha, que tem 25 anos, e se sente em casa aqui.

Estado tem 179 mil casos da Covid-19

Os Estados Unidos compraram o estado da Flórida em 1819. Até então, o local era controlado pela Espanha. O estado é uma península margeada por grandes corpos de água, em três dos seus lados é possível acessar o Oceano Atlântico. Ela está a 1,1 mil quilômetros de Nova York – centro financeiro dos Estados Unidos, e 1,2 mil km distante de Washington, capital do país. Segundo a atualização do Google, a Flórida tem quase 179 mil casos confirmados da Covid-19, dos quais 3,6 mil pacientes morreram. Já os Estados Unidos se aproximam dos 2,9 milhões de casos e 132 mil mortes.


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