CHICO ORNELLAS

Nicanor Paraguassú

CRONISTA – Nicanor Paraguassú, em foto de 1966. Personagem que faz falta à Cidade, que ele adotou ainda na primeira metade do século passado.

Como Martinho, também era carioca de Vila Isabel. Como Martinho, também tinha preocupações sociais e uma incrível paixão pelo samba. E pelo carnaval. Sujeito ereto de físico e de alma, também de caráter, Nicanor Paraguassú chegou a Mogi das Cruzes para trabalhar. Ferroviário de profissão, escolheu esta Cidade para morar ainda quando integrava os quadros da Estrada de Ferro Central do Brasil, onde se aposentou (1957) chefiando a Estação de Suzano. Aquele homem alto e elegante que morava na Rua Santos Cardoso, passava as tardes na redação de O Diário. Sentava-se a uma poltrona de madeira, acendia um cigarro e equilibrava as cinzas enquanto trocava dedos e dedos de prosa com quem aparecesse. Para mim, que o conheci ali, era um deleite ouvir as histórias de um homem com idade para ser meu avô e que se dispunha também a ouvir.

CRONISTA – Nicanor Paraguassú, em foto de 1966. Personagem que faz falta à Cidade, que ele adotou ainda na primeira metade do século passado.

Nicanor foi parte, por muitos anos, da história da Cidade. Pelos bailes de carnaval do Itapeti Clube, depois do Clube de Campo, ia dançando com passos lentos e em círculos pelo salão, equilibrando sobre a careca negra e lustrosa uma vela acesa, rodeada pela aba de um chapéu sem fundo. Incapaz de uma indelicadeza, atendia a todos com um sorriso e a reverência da cabeça. Com o mesmo sorriso e a mesma reverência atendeu a meu pai, adolescente, quando este lhe pediu que o ensinasse a nadar nas barrancas do Rio Tietê às margens das quais se fundou, há muitos anos, o Clube Náutico Mogiano.

Às quintas-feiras, no salão do restaurante do Hotel Estância dos Reis, mantido com a dedicação que caracterizava o casal Helena e Carlos Barattino, Nicanor podia ser encontrado nas reuniões do Rotary Club. Até onde o saiba ele nunca foi rotariano, mas tinha frequência maior do que a de muitos dos admitidos: era nessas reuniões que Nicanor colhia informações para a crônica semanal que publicava neste mesmo jornal, sob o título “Mundo Rotário”.

Mas não só Rotary e carnaval faziam a vida de Nicanor. Pelo menos uma vez nos desentendemos. Mas o desentendimento bom que marca a dissidência entre os que se respeitam. Foi nas eleições de 1972. Sei lá porque, Nicanor começou a elogiar, em suas crônicas fora do “Mundo Rotário”, o trabalho de um deputado com incursões pela poesia. Falava e elogiava o trabalho de Gióia Júnior e o vinculava a um candidato a prefeito nas eleições locais de 1972. O seu candidato era Sebastião Cascardo. O meu, por laços familiares e lealdade, era Oswaldo Ornelas. Quando vi a terceira crônica de Nicanor elogiando Gióia Júnior e dizendo que o esperava em Mogi para apoiar Cascardo, corri a São Paulo.

Nicanor não sabia, mas Gióia Júnior era primo de Oswaldo Ornelas. Fui buscar Gióia em sua casa, uma travessa da Avenida Santo Amaro e o trouxe para um comício no Alto do Ipiranga. Dois dias depois, O Diário publicou a notícia, com a foto, lado a lado, dos dois políticos. Sei que Nicanor não gostou. Mas ele nunca discutiu comigo, imagina se discutiria por isso. Apenas deixou de elogiar Gióia Júnior em suas crônicas. Continuamos amigos. Eu, que tanto bebera de suas conversas na Redação do jornal, continuei por muitos anos bebendo da talha de água que ele me presenteara no casamento.

O velho Nicanor morreu faz tempo. Não há, na Cidade, uma só rua ou praça pública com seu nome. No prédio da Prefeitura já não vejo, também, a placa que identificava, um dos cômodos, como “Sala de Imprensa Nicanor Paraguassú”.

CARTA A UM AMIGO
Noivado em Pinda

Meu caro Antônio

Seus contemporâneos garantem que o fato é verídico. Eu, pessoalmente, não conheci o nosso personagem. Mas, quem conviveu com ele, o descreve como senhor acima de qualquer suspeita. Tinha conta bancária na agência local da Caixa Econômica Estadual, onde recebia os proventos de funcionário público que era. Todos os domingos comparecia à missa das 11 na Igreja do Rosário, um templo setecentista que ficava na Praça João Pessoa, ocupando a área hoje dominada por lojas e pelo Hotel Binder. Foi nessa mesma igreja que ele e a esposa mandaram celebrar, num início de noite de dia útil, a missa por suas Bodas de Prata, durante a qual trocaram as alianças originais por outras, com filetes de prata. As originais, nosso personagem guardou-as com imensurado carinho. Na missa, os filhos entraram na frente e, ao final, acompanharam os pais até a Estação da Central do Brasil, onde tomariam o Noturno para reviverem, no Rio de Janeiro, o mesmo trajeto que fizeram em sua Lua de Mel.

O nosso personagem, como se disse, era funcionário público. “Concursado”, fazia questão de declinar. “E nomeado pelo Adhemar de Barros, de quem nunca foi simpatizante”. Realmente ele não aceitava favores. Gostava de prestá-los e vangloriar-se depois. Como vangloriava-se da fidelidade absoluta à família. Guardava em pastas de elástico, com etiquetas de identificação, todas as certidões familiares. Suas, da esposa e dos filhos. Incluindo as certidões de batismo, de primeira comunhão, os boletins escolares e a ficha de inscrição no exame de admissão ao ginásio de cada um dos filhos. Dois passaram no Washington Luís e um, o do meio, só no Liceu Braz Cubas. Naquele tempo era assim.

Sabe-se lá o que aconteceu em meados dos anos 50, quando nosso personagem tinha 47 para 48 anos de idade. À família e aos amigos ele disse que tinha sido promovido na repartição e, em suas novas funções, era obrigado a viajar pelo Vale do Paraíba para inspecionar outras repartições. Seguia sempre pelos trens da Central. Às vezes no Noturno, outras no Expressinho. Levava pouca bagagem; muitos papéis. Ia a trabalho em missões que duravam de dois a três dias. Foi ano e meio nessa ladainha, vez por outra obrigado a estender seu périplo pelos finais de semana, sob a justificativa de que a inspeção, iniciada na sexta-feira, só seria concluída na segunda.

Foi no mês de novembro, garante a testemunha que me relatou o fato, sem se lembrar com certeza do ano. Talvez 1954 ou 1955; poderia ser 56. Numa missa dominical das 11 horas na mesma Igreja do Rosário onde se celebrara o casamento e as Bodas de Prata, nosso personagem estava acompanhado da esposa, quando depositou o óbolo no saquinho de feltro verde. Respondeu com um cerimonioso curvar do pescoço ao bom dia que lhe deu a senhora que recolhia as contribuições. Nem chegou a fitá-la. Deveria.

Ao final da missa, já na Praça João Pessoa, a senhora que recolheu o óbolo o esperava. Só então ele a reconheceu. Morava em Pindamonhangaba e estava de passagem por Mogi, visitando parentes. Católica devota, dispôs-se a recolher as contribuições daquele domingo. A conversa de nossa personagem e sua esposa com a forasteira começou na praça mesmo e se prolongou, por horas, na Confeitaria Central. Ela era tia de uma moça, professora casadoira, de 28 anos de idade, que vivia em Pinda. Clareou-se tudo.

Na realidade, nosso personagem aposentara-se da repartição na qual trabalhava em Mogi. Aposentou-se em sigilo e resolveu aventurar-se pelo Vale do Paraíba. Não como inspetor público de outras repartições, mas como um viúvo que chegara a Pinda em busca de notícias sobre um tio-avô rico, que lhe deixara herança. Quando desceu pela primeira vez do trem, nosso personagem apanhou um táxi no Largo da Estação de Pindamonhangaba. Vestia um terno cinza, tinha duas alianças no anular esquerdo (as originais que guardara em suas Bodas de Prata) e um fitilho negro na lapela. Estava de luto pela morte da esposa. Disse isso ao motorista do táxi e ao gerente do hotel em que ficou. Na manhã seguinte, com duas alianças e o fitilho negro, percorreu o cemitério, os cartórios e a Prefeitura de Pindamonhangaba. Procurava notícias do tio-avô rico. E ia contando sua história.

Ao final do primeiro dia já estava convidado para um chá. Em casa de família bem-posta. Compareceu às 17h30, como combinado. Retirou-se às 19 horas, agradecendo a deferência e desculpando-se por não poder aceitar o convite para o jantar no dia seguinte. Iria ao Rio de Janeiro visitar um contemporâneo de seu pai, o único ainda vivo da turma de 1903 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Sim: o pai, como ele próprio, tinha sido advogado e lhe legara uma concorrida banca em São Paulo, com clientes que incluíam a CTB e a Light.

As moças casadoiras de Pindamonhangaba ficaram extasiadas. Era muito bom para ser verdade; mas era verdade! E passaram a disputar nosso personagem, que acabou celebrando noivado foi mesmo com a professorinha. Quem? A professorinha sobrinha da senhora que, coincidência das coincidências, recolhia o óbolo naquela missa dominical das 11 horas na Igreja do Rosário.

O noivado terminou ali. O casamento perdurou até quase as Bodas de Ouro. Que nosso personagem não pode comemorar: morreu antes. No caixão, tinha um sorriso de vitória.

Um abraço do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
SOLAR – Na esquina das ruas Senador Dantas com Capitão Paulino Freire ficava o solar da família de Yayá Mello Freire, a rica herdeira mogiana que, declarada louca, viveu interdita a maior parte de sua vida. O espaço hoje é ocupado pelo Instituto Dona Placidina

GENTE DE MOGI
ZECA – Valia-lhe o fio do bigode. Zeca Arouche (José Arouche de Toledo Júnior) nasceu em Mogi em 1854, morreu aqui em 1914 (60 anos). Foi vereador e prefeito, cargo ao qual renunciou por não concordar com decisão da Câmara Municipal. Segundo marido da viúva Henriqueta Batalha Arouche, teve com ela 10 filhos: Eliezer, Leôncio, Álvaro, Acácio, Nabor, Alcides, Zoé, Sílvio, Henriquetinha e Zoroastro. Afora os 3 do primeiro casamento de Henriqueta, que considerava como seus.

O melhor de Mogi

A escultura de Manabu Mabe colocada desde as comemorações do cinquentenário da imigração japonesa em frente à sede da Associação dos Agricultores de Cocuera. É uma das mais valiosas peças artísticas do acervo público de Mogi.

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