ENTREVISTA DE DOMINGO

Nildo Alabarce, um patriarca empreendedor

O advogado Nildo Alabarce cresceu em um sobrado da rua Doutor Ricardo Vilela. (Foto: Eisner Soares)
O advogado Nildo Alabarce cresceu em um sobrado da rua Doutor Ricardo Vilela. (Foto: Eisner Soares)

A trajetória do empresário e advogado Nildo Alabarce está marcada por uma decisão dos filhos e da mulher Valéria, em 11 de novembro de 1994, quando foi aberta a primeira loja da rede de supermercados que leva o nome do imigrante espanhol José Alabarce Gimenez, que chegou ao Brasil no final do século XIX. Mais precisamente, em Sabaúna. Nildo estava com 52 anos. Ele tinha o patrimônio, o tino para os negócios, aprendido com o pai, Raphael Alabarce Lopes. Os filhos, um projeto em um ramo novo, o varejo. Com memória invejável, fala pausada, Alabarce viveu parte da história recente de Mogi das Cruzes do lugar privilegiado dos que cresceram jogando bola na rua Dr. Ricardo Vilela e de quem acompanhou, dentro de casa, lances decisivos para a expansão urbana da cidade. O pai dele foi um dos loteadores do Mogilar. Casado com Valéria, pai de Roberta, Rafael e Ronaldo, e avó de sete netos, o mais velho, João Rafael, de 19 anos, já trabalhando no grupo familiar, Nildo Alabarce postergou a seguinte Entrevista de Domingo por mais de uma década:

Quais são suas origens?

Espanhola, austríaca e portuguesa. Meu avô paterno, José Alabarce Gimenez, era da região de Andaluzia, na Espanha, chegou a Sabaúna no final do século XIX e se casou com Angela Lopes Prado, que também era espanhola. Ele tinha 20 anos quando veio para o Brasil, e possuía um termo de posse da terra assinado pelo presidente Campos Sales. Eles tiveram 11 filhos, um deles, o meu pai, Raphael Alabarce Lopes, que se casou com Laura Mayer Alabarce. Ela era filha de João Mayer, que era austríaco, de Innsbruck, nos Alpes, e de Maria Ferreira Mayer, que nasceu em São Lourenço, em Minas Gerais, e era filha de portugueses.

Nasceu em Mogi?

Não, eu nasci em São Paulo, porque meus pais, depois de se casarem, foram para São Paulo, onde o meu pai tinha uma banca no Mercado Municipal. Eles tiveram Léa, a minha irmã, que aos 3 anos e meio faleceu, apesar dos cuidados que recebeu do doutor Deodato Wertheimer, aqui em Mogi, onde minha avó morava. Onze meses depois, eu nasci, em outubro de 1942, e nos mudamos para Mogi.

Onde morou na Mogi da década de 1940?

Meu pai construiu o sobrado na esquina das ruas Dr. Ricardo Vilela e Coronel Moreira da Gloria, onde hoje está uma escola de música. Estudei no Instituto Dona Placidina, no Coronel Almeida e no Aprígio de Oliveira. Éramos vizinhos da família Manna, de João de Oliveira e Álvaro Freitas.

Como era Mogi?

Era uma delícia. Todos se conheciam, entre os amigos estavam m Francisco José Witzel, Mário Ikeda, José Tomazullo, José Cardoso Pereira, Gerson Unger, Milinho Guazzeli, José Brasílio de Azevedo Marques, Zé Marti, Vadico Vicco, Benedito Leite da Cunha, Claret e Simão Abib, Cida Fidalgo. Nosso campinho era a rua Dr. Ricardo Vilela. Na calçada, fazíamos a “picova” para jogar a bolinha de gude. O Mercado Municipal não tinha telhado, só os boxes, nas laterais, eram cobertos.

Filho único, teve muitas regalias?

Não, meus pais foram amorosos, mas severos, Fui privilegiado por tê-los como pais.

Washington Luís ou Liceu Braz Cubas?

Fiz o clássico no Washington Luis, com professores como Jair Batalha, Paulo Lopes da Silva, Antonio Melo Silva, Maria Nair de Castilho, José França Bueno, Heitor Pierangele, e a faculdade de Direito em Taubaté.

Conheceu a Valéria, na escola?

Não, ela era de outra turma. Conheci a irmã dela, Márcia, que foi esposa do engenheiro e professor Claudio Abrahão. Era o final de 1963 e, havia o trote, a brincadeira por telefone. Uma moça me ligou, e disse que se chamava Roberta, mas não a conhecia. E eu, tímido, ficava esperando o telefone tocar. Um dia, eu estava subindo com o meu Fusca pela Rua Senador Dantas, encontrei a Lucília Santos e a Célia Jungers, e elas me falaram sobre uma festa do dia 1º de maio, Dia do Trabalhador. Eu fui e recebi o ‘correio amoroso, elegante’. Eu vivia aquele suspense, sobre quem teria dado o trote (foi Valéria). Não sabia quem havia escrito, mas disse a ela, naquele dia: “Eu prefiro que seja você”. Eu tinha 21 anos, ela 16. Em 15 de junho de 1964 a pedi em namoro, e nesse dia, dissemos um ao outro que, se casássemos, e tivéssemos uma filha, ela se chamaria Roberta.

Por que Roberta?

Por causa da música do Peppino di Capri. Casamos na Catedral de Santana, com o padre Herval Brasil, tio da Valéria.

Trabalhou com o seu pai?

Meu pai teve uma casa de produtos para a lavoura, na esquina das ruas Barão de Jaceguai e Presidente Rodrigues Alves. E quando eu me formei em Direito, fui trabalhar com meu ex-professor de Geografia, Jair da Rocha Batalha. Para mim, nosso melhor advogado.

Seu pai foi um dos loteadores do Mogilar?

Em 1949, ele abriu a Companhia Melhoramentos de Mogi das Cruzes S/C Ltda., com Antonio Argentino, Júlio Bettoi Cardoso, Yoshio Honda, José e Henrique Alabarce Lopes, Hélio Arbulu, Gaspar Emérito Arbulu. Meu pai tinha um terço das ações. A empresa adquiriu da família Avignon a área de 44 alqueires, que é hoje o Mogilar. O nome, Mogilar, surgiu de um sorteio feito entre os sócios. Em 1971, parte do imóvel foi vendido para o padre Manoel Bezerra de Melo, e, anos depois, foi comprado por Henrique Borenstein (que constrói o complexo Patteo Mogilar no local).

Seu pai construiu mais?

A casa de materiais de construção na rua Coronel Moreira da Glória. Na rua Dr. Deodato Wertheimer edificou dois prédios e atuou no ramo de postos de gasolina.

Esses negócios fizeram parte do processo da expansão da cidade?

Sim, e acho que Mogi só não evoluiu antes em função da topografia e a localização, porque São José dos Campos era menor do que Mogi e se desenvolveu mais rapidamente.

Contou para isso a Mogi-Dutra?

Sim, muito, e o Waldemar (Costa Filho) foi o melhor prefeito de Mogi.

Como a família migrou para o varejo?

Mérito da Valéria e dos meus filhos. O primeiro supermercado Alabarce foi no prédio onde funcionou o Dias Supermercado, mas não a rede que tem esse nome hoje. Os inquilinos entregaram o prédio e eu pensei em reformá-lo para alugar. Mas eles tiveram a ideia de abrir um supermercado. Eu fui contra. Felizmente eles não me ouviram, e deu mais do que certo. Ronaldo tinha 17 anos, o Rafael 20 anos e a Roberta, 23. São sócios até hoje. Ainda me surpreendo com essa trajetória (diz, muito emocionado).

É uma história de sucesso?

É. Por mérito deles, eu tinha o patrimônio, que foi o de menos. Valeram o trabalho e dedicação deles. Quando eles nasceram, a Valéria abriu mão de exercer o magistério, atendendo a um pedido meu. Muitos disseram: isso é fogo de palha, e eles erraram e acertaram até chegar agora ao projeto da quinta loja (prestes a ser construída).

Por que deu certo?

A figura do meu pai e os valores dele, sempre lembrados pelos meus filhos, pesaram muito.

A expansão imobiliária mudou a cidade?

Sim, é digno de registro, o que os empreendedores imobiliários fizeram nesse sentido. O Henrique Borenstein, Wilson Cruz, Jurandyr Bianchi, Claudio Martins, construíram muito para a cidade chegar onde está.

Mogi está bem?

Sim. Mogi tem tradições fortes, e há uma incógnita sobre como deveria ser a manutenção dessas tradições históricas, de seu patrimônio, e a modernização.

Os políticos representaram bem a cidade?

Relativamente bem, porque ela poderia estar melhor, ter uma diversidade maior. A segurança ainda é deficiente, a educação, também, e não só em Mogi, é no Brasil.

Gostaria de dizer algo mais?

Sim, sobre a dona Valéria. Esse é um capítulo à parte em minha vida, porque ela é uma mulher especial, batalhadora. Um exemplo: decidimos construir a loja da Vila Oliveira depois de visitar o imóvel. Fomos lá, e ela disse, vamos construir um supermercado aqui. Eu olhei para ela e disse: “Você está louca”. O terreno era terrivelmente desfavorável, com 24 metros de declive, o lugar não tinha nada em volta. Depois de uma semana, eu já tinha aceitado a ideia. E construímos. No começo, até um ônibus velho nós mantivemos para levar clientes à Vila Oliveira. Um dia, o ônibus quebrou (sorrisos), mas persistimos.

É verdade que mogiano só compra em supermercado de mogiano?

Não é verdade, houve esse comentário, no passado, quando o Grupo Pão de Açúcar chegou a Mogi, mas o que faltou, ali, foi uma política de mercado, o que para nós, os supermercados mogianos, foi excelente.

Como é a concorrência no setor?

Olha, nós não tivemos problemas, quando começamos, inclusive, participamos de algumas ações conjuntas, nos disseram, “Vocês estão loucos?” (de atuar nesse ramo). Para mim, o sol nasce para todos.

Foi difícil?

Não entendíamos desse mercado. Eu menos ainda. Um dia, eles pensaram em desistir. Mas a Valéria disse: “Nós já pagamos os produtos, uma hora eles serão comprados”.

O que prevê para o futuro?

Eu poderia responder por um viés mais religioso, dizer que um ser superior irá resolver tudo isso. Não direi isso. O que falta são mais recursos, oportunidades para todos. O que no Brasil, nós precisamos, é menos corrupção, o fim da impunidade, padrões mais comedidos nas relações. Filho deve ter limite. Aluno não pode agredir professor. Pais precisam se dedicar aos filhos, família é um compromisso.

O que gosta de fazer?

De viajar com a família, receber os amigos. Tenho uma turma de amigos há mais de 70 anos, que se encontra sempre (Adeimar Santana de Toledo, Francisco José Witzel, Mário Ikeda, Ireneu Alabarce Paiva, José Roberto Castro Alabarce, José César Garcia Sgarbi, Rivaldo Azevedo Neto e Mário Nagao). E um hobbie: colecionar uísques escoceses.

O que vale na vida?

Tudo na vida se resume em ter saúde, a harmonia familiar e o cultivo de amizades.


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