MÚSICA

Niw Rapper canta questões raciais

REFLEXÃO Niw espera que seu EP gere conscientização a partir de mensagens como a valorização do corte de cabelo black power. (Foto: divulgação)

Niw Rapper, mogiano, se antecipou ao debate antirracista hoje em pauta. Em fevereiro, pouco antes da pandemia do novo coronavírus, ele lançou nas plataformas digitais ‘Niw’, EP com cinco músicas cujas rimas falam principalmente sobre o orgulho de ter a pele preta. As letras são pesadas e promovem a conscientização sobre questões raciais e também de gênero.

As faixas são as primeiras lançadas por Niw desde novembro 2018, quando pôde ser visto num single em parceria com DJ Nandes, ‘Vida Equilibrada’. De lá para cá, ele veio trabalhando em novos materiais para lançar um disco, mas depois de alguns percalços no caminho, precisou mudar os planos, sob o lema “sustentar o rap para que ele possa me sustentar no futuro”.

Hoje aos 27, Niw já faz rap há muito tempo. Entre indas e vindas no universo da música, ele sempre precisou se reinventar para trabalhar a fim de manter o sonho de fazer arte. Já trabalhou em cozinhas, lanchonetes, lava rápido e, mais recentemente, como promotor de merchandising.

Foi, aliás, o dinheiro advindo da rescisão do último contrato de trabalho que permitiu a conclusão do EP, gravado em São Paulo, onde o cantor encontrou “profissionalismo como nunca tinha visto”. Contada, além de pagar a confecção dos beats e a edição da imagem da capa –que, a título de curiosidade, é o Niw quando criança, com o uniforme do Ensino Municipal de Mogi- a grana deu para custear apenas quatro horas de estúdio. Mas isso não foi um problema.

Niw rimou tudo de maneira rápida, sem stress. “Fiz tudo de primeira e sem colagem, inclusive os refrões, como se fosse um show”, diz ele, que financiou todo o projeto e só precisou adicionar alguns detalhes ao som, na sequência.

A experiência tem tudo a ver com a resistência que ele mostra na primeira música do trabalho, ‘Black Power’, que expõe como o racismo está enraizado na cultura brasileira. Ao propor “voltar no tempo”, ele recria os tempos de escola, quando “apelidos” como ‘Pelé’, ‘Lacraia’ e ‘Saci Pererê’ infelizmente são recorrentes à pessoas de pele negra, assim como a comparação dos cabelos à palhas de aço.

“Quando fui escrever essa letra eu tentava de alguma forma responder a ataques racistas que são estruturais no Brasil. Em todos os ambientes há esse tipo de zoação com pessoas negras, e eu imaginava de alguma forma como se eu tivesse respondendo a isso”, explica ele, que revela que essa tem sido a faixa que mais impressiona o público.

A próxima, ‘Maria e João’, fala de outra questão importante, o machismo. Niw se torna narrador de uma crônica sobre um casal que, a princípio, parece ter uma relação boa, mas há uma traição por parte de João, e a história “não teve final feliz”. “Quando a mulher trai, ela apanha. Quando o homem faz isso, não. Mas é imperdoável do mesmo jeito, então essa é a reflexão”.

As mensagens fortes já ditas até aqui preparam o ouvinte para a próxima canção, ‘Niw Batendo na Sua Porta’, escrita antes da chacina de Paraisópolis, ocorrida no primeiro dia de dezembro de 2019, mas que faz alusão a este tipo de crime. “Esta eu escrevi imaginando meu rap como a única arma que tenho, e que posso colocar na cabeça das pessoas. Utilizo essa arma contra policiais de má índole, assassinos que estão arrebentando tudo por aí”.

Na sequência, uma melodia mais leve, que conta com um vocal feminino também (Miriam Bonifácio, prima do rapper), mas cuja intenção é tão pesada quanto as outras. Dedicada à mãe, às irmãs, às primas, às tias e “a todas as rainhas de cabelo black power do país”, ‘Hey Negra’ mostra a importância de assumir o corte de cabelo enrolado, como ele é por natureza a quem tem a pele escura.

“Esse som vem de uma vivência muito forte. Minha mãe alisava o cabelo de todas as mulheres da família quando eu era criança, e vi naturalmente o processo de transição capilar delas, que usam black power hoje em dia”, explica Niw.

Na última faixa, Niw se volta mais para si, falando de inveja e outros temas sob a própria “perspectiva de vida”. “Me sinto eternizado colocando meus sentimentos num CD. Assim posso morrer feliz, porque quando a gente vai embora, o que deixamos? O dinheiro vai embora, então o que posso passar para meus filhos são minhas mensagens, por meio da arte”.

Independente, mas não sozinho

O que Niw Rapper pretendia, quando lançou o EP ‘Niw’, em 29 de fevereiro, era divulgar as cinco novas músicas nas redes sociais, tornando-as conhecidas do público, para, na sequência, fazer um show e talvez gravá-lo para um possível DVD. Mas não é surpresa que os planos tenham sido frustrados, diante da pandemia de Covid-19.

“Uns 10 dias depois de lançar o EP veio a pandemia e também descobri que tinha Lúpus, então passei por um período muito crítico”, conta o artista mogiano, que mesmo assim não desanimou e tem promovido o trabalho, do qual também é produtor, na internet.

“Existe uma competição por atenção o tempo todo, e passei a entender que neste mercado tem que apresentar a música para muitas pessoas para converter números em pessoas que viram fãs, seguem, curtem e ouvem”, diz ele, que “só agora”, depois de meses de trabalho, está começando a conseguir analisar os tais números.

Niw sabe que o mercado atual praticamente exige impulsionamentos em dinheiro para as publicações e também a produção de videoclipes para as faixas, o que também exige dinheiro. E esse é exatamente o problema: a falta de recursos. “Tenho músicas para lançar um segundo CD, mas ainda não dá para pagar estúdio e outras coisas”.

Exatamente por isso, acompanhado de primos e amigos, ele criou um selo musical, o Black Boni, cujo logo está estampado na capa de ‘Niw’, o EP. “O artista aprende a depender dos outros, de um produtor, de uma gravadora, de todo mundo para soltar o som, mas aí não sai como ele quer”, explica o rapper, que espera, futuramente, mais do que viver das próprias rimas, promover a própria marca, para “lançar outros artistas, a exemplo do Emicida e seu Laboratório Fantasma”.


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