Nó em pingo d’água

Retornando da Assembleia Legislativa, lá no Ibirapuera, numa noite dos anos 80, eu e um amigo, hoje deputado estadual, nos encontramos num restaurante lá na Praça Panamericana, em Pinheiros, com um senhor, então Presidente da Câmara Municipal de Itapevi, Cidade da Zona Oeste na Grande São Paulo, cujo olhar levemente  se assemelhava ao de Nestor Cerveró. Papo daqui, papo dali, instiguei-o a tecer comentários sobre  sua vasta experiência em campanha eleitoral. E ele afirmou que “com aquela cara  que Deus havia lhe dado, eleição ele só ganharia no dia da apuração, lá no Ginásio de Esportes da Comarca de Cotia”. E dava como exemplo o fato de que na  urna em que ele obtivesse 16 votos no mapa iria como 61, e assim por diante. Posso garantir que ele era uma pessoa extremamente inteligente, contador de boas piadas, carismático, político da velha guarda, daqueles que dão rasteiras em minhocas, vendem cordas em terras de enforcado, dão nó em pingo d’água e tiram mancha de onça com benzina. Terminado o jantar, em seu estilo bonachão e cativante, chamou o garçom e pediu de sobremesa “Romeu e Julieta”, pediu a conta e conhecendo os custos, forneceu o número do CGC, hoje CNPJ, e solicitou que fosse duplicado o valor e emitido  uma nota fiscal em nome da Câmara Municipal, que ele na ocasião presidia com muita astúcia. Olhou para nós e disse: “Tenho verba de representação devidamente aprovada pela Colenda Casa de Leis e quem paga as minhas despesas é o povo de  Itapevi, pois foi pra isso  que me elegeram, como legítimo representante deles”. Aos mais íntimos costuma dizer que preferia andar sobre o lombo de um burro a ter que cair de cima de um cavalo de raça.  Na ocasião eu não entendia, mas hoje compreendo o que ele queria dizer.

Joel Avelino Ribeiro
César de Souza, Mogi das Cruzes