CHICO ORNELLAS

“Nós que aqui estamos por vós esperamos”

PORTAL – É de Paulo Pinhal a sugestão para um novo portal no Cemitério de São Salvador, em substituição ao atual, criado há 148 anos.

Mogi de A a Z

PORTAL – É de Paulo Pinhal a sugestão para um novo portal no Cemitério de São Salvador, em substituição ao atual, criado há 148 anos. (Foto: reprodução)

Talvez tenha sido a primeira vez em que passei momentos a meditar sobre o significado da vida. Devia ter seis anos incompletos quando, na ida para férias em Caraguatatuba, fizemos uma para em Paraibuna. Era um misto de bar e pensão em frente ao cemitério da cidade.

Sempre fui curioso e, assim que terminei o misto-quente com guaraná, fui olhar a varanda que havia na birosca. Lembro pouco da varanda, mas nunca mais esqueci o que li, há pouco alfabetizado, no portal do cemitério: “Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Bastava atravessar a rua para chegar a ele. Acho que nunca havia pensado na morte, o que só me chegaria dois anos depois, pela doída perda de meu avô materno. O paterno morrera quando eu, ainda com dois anos, não aprendera a pensar; apenas vivia momentos.

Desde então o tema me tem acompanhado. Não estranhe, caro leitor, nada a ver com masoquismo. Apenas não há como fugir. E creio que, também ao cineasta Marcelo Masagão: ele tomou a frase como título para documentário, produzido em 1999, e premiado, no ano seguinte, nos festivais de Gramado e Recife.

Duas outras constatações me acompanham nessa seara: em meados da década de 1990 fui a um sepultamento no Cemitério de São João Batista, no Rio. Passeando pouco, deparei-me com uma lápide: “Para alegria de muitos e tristeza de poucos aqui jaz….”. Não lembro o nome, jamais esqueci da frase. Outra é o Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires.

O da Argentina é de 1822 e, a ele, os portenhos dedicam especial carinho. Andar por suas alamedas, a par da surpresa em olhar portentosos jazigos, muitos dos quais em formato de capela, com urnas de mármore visíveis através de gradis envidraçados, também por sua característica de museu: ali estão sepultados os principais artífices da nação argentina. O presidente Agustin Pedro Justo morreu em 1943; Amália Lacroze de Fortabat, empresária e benemérita, em 2012. O mais visitado continua a ser o de Eva Peron, sepultada em 1952.

Mogi das Cruzes tem o seu cemitério de referência: é o de São Salvador, instalado em 24 de julho de 1871. Antes disso, os sepultamentos eram feitos em espaços de propriedades rurais ou, na cidade, no entorno das igrejas. O Cemitério de São Salvador foi criado para regularizar o tema e, também, por questões sanitárias: está, propositadamente, na parte mais alta do centro urbano, longe córregos naturais.

Circular por ele é passear pela história de Mogi. Ali estão os restos da maioria dos que ocuparam a Prefeitura daqui. Como Deodato Wertheimer (1935), os irmãos Francisco (1960) e Carlos Alberto Lopes (1977), Waldemar Costa Filho (2001), Francisco Ribeiro Nogueira (1994), Sebastião Cascardo (1989) e Henrique Peres (1971). Também de empresários que construíram Mogi: Hélio Borenstein (1964) e o sogro Joaquim de Mello Freire (1947) são apenas dois exemplos.

E por qual forma reverenciamos quem fez de Mogi o que é? Houve duas intervenções, há muito tempo: na primeira delas, há cerca de 40 anos, a Prefeitura ampliou o espaço, adquirindo terras na divisa com a Rua Cardoso de Siqueira; na segunda, não muito distante dessa data, também a Prefeitura instalou iluminação no espaço – foi removida anos depois.

Hoje, o Cemitério de São Salvador permanece com as características da época de sua criação, 148 anos atrás. A maior prova disso são as instalações de portaria e administração, com frente para a Praça Antônio Nogueira. Não há sanitários para o público, tampouco espaço para consumir qualquer coisa: de um simples copo de água a um cafezinho.

Foi pensando nisso que, há algum tempo, provoquei o arquiteto Paulo Pinhal, de cuja prancheta têm saído sugestões muito interessantes. Uma delas, pelo menos, levada avante: o Centro Cultural da Praça Roque Pinto de Barros, instalado no prédio da antiga Telefônica. A ideia, de começo, meio e fim, é de Paulo Pinhal.

Pois há alguns dias, o arquiteto deu-me a alegria de uma visita. Trazia pasta com proposta de intervenção urbana na Praça Antônio Nogueira. Por ela, o Semae (Serviço Municipal de Água e Esgotos) devolveria ao uso público espaço da Rua Júlio Prestes, que tomou para estacionamento próprio. Isto permitiria instalações, na área fronteiriça ao atual portão do Cemitério de São Salvador. Estas ocupariam parte da Praça Antônio Nogueira, sem prejudicar em nada sua utilização comunitária. Até favoreceria

Seria um prédio sem grandes pretensões, mas o suficiente para abrigar administração, sanitários e área de alimentação. Pé-direito duplo e espaço para o velório de autoridades e museu.

A Paulo Pinhal agradeço pela sugestão. Mas, como ele, tenho cá minhas dúvidas de que será acatada. Há histórico para isso: há três anos (1º/junho/2016) o vereador Protássio Nogueira apresentou, na Câmara Municipal, indicação para que a Prefeitura fizesse estudos para a implantação de um crematório em Mogi das Cruzes. Usou, o vereador, o termo “com urgência” em seu pedido. Sabe qual a resposta a isso? Passados três anos, silêncio absoluto.

(Foto: reprodução)

Carta a um amigo

A moça não é de menor?

Meu caro leitor

CASAMENTO COMPLETO – Mogi das Cruzes não seria Mogi sem gente como Adelina e João Mendes. (Foto: arquivo pessoal)

Há, dentre as características peculiares desta Cidade, exemplos de “casamentos completos”. Por isto se entenda não apenas aquele celebrado pelo homem e pelo padre, como se dizia em tempos passados. Tampouco os que se prolongam anos e anos sem rusgas – estes não existem. “Casamento completo” é mesmo o que os leva a conversar sem falar, entender-se pelo olhar, caçoar um do outro sem discutir, acordar gargalhando e chorar sonhando sem precisar explicar os motivos, conhecidos dos dois. Os dois discutem pelo pé de jabuticaba do quintal que ficou dois dias sem água, e nem dão preço para a portão automático que desceu sobre o carro novo.

Eles são assim, conseguem entregar a alma ao diabo para ver um filho feliz, mas não perdoam a menor, a mais branca das mentiras.

João Mendes foi pioneiro na Confraria de Santa Fé, o grupo de mogianos que há 50 anos se reúne. Pioneiro e assíduo. Frequentou o espaço durante mais de 30 anos; legou incontáveis e inesquecíveis histórias. Continuaria a ser o companheiro de sempre e o contador de causos impagáveis, não tivesse sido apanhado por um coração traiçoeiro. Foi-se o João alegre, amigo, companheiro. Restaram-nos seus filhos, netos. Também a lembrança de Adelina, a esposa e companheira permanente. Lembranças de um casamento completo.

Foi com Adelina que, certo dia, João rumou para São Paulo. Ia cumprir compromisso profissional e social. Meio a meio. Comerciante e securitário, João dirigiu, durante anos, um respeitado escritório de corretagem de seguros na Cidade. Era o Kimen, sigla que identificava os sócios Kiokawa e Mendes.

Pela Mogi-Dutra e depois Ayrton Senna, João foi dirigindo rumo ao jantar oferecido pela Companhia Porto Seguro, em São Paulo. Estava animado. Gostava das festas, sobretudo das conversas.

João e Adelina estiveram no coquetel, depois no jantar e divertiram-se com o show que se seguiu. João abusou um pouco do uísque, que consumia ao estilo cowboy. Passava das 10 horas da noite quando deixaram o encontro social. O esforço da viagem e da festa pesou no casal sessentão. Trafegavam pela Avenida Marginal do Tietê quando João propôs:

Adelina, estamos cansados, eu não estou me sentindo bem. Você não acha melhor nós pararmos por aqui, dormirmos e voltarmos a Mogi amanhã?”

Adelina concordou de pronto. Seria conveniente evitar a viagem. João passou por um, dois, três, quatro. Achou que o quarto motel tinha boa cara. Entrou, apresentou seu documento à recepcionista e pediu uma suíte. A moça da portaria olhou o documento e abaixou-se para ver quem acompanhava aquele senhor. Estava escuro. Perguntou ao motorista:

A moça não é de menor?”

Durante muito tempo João e Adelina divertiram-se lembrando dessa história. E divertiram também seus amigos com essa e muitas outras que viveram em seu casamento completo.

Um abraço do

Chico

GENTE DE MOGI

Waldemar Campos Cortez. (Foto: arquivo pessoal)

VEREADOR – Ele foi ativo sem nunca ter pretensões de líder. Vereador por quatro legislaturas, entre 1964 e 1996 (ficou fora de 1983 a 1992), ouvia sem sorrir os pleitos de seus eleitos, mas a nenhum deixava de dar encaminhamento. Passou ao largo de maracutaias e tinha o bairro do Shangai como seu principal reduto. Waldemar Campos Cortez morreu em dezembro de 1998.

O melhor de Mogi

Em nome da cidade, Marcus Melo recebeu esta semana, do insuspeito Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), dois prêmios: 1º lugar pela Sala do Empreendedor (categoria desburocratização) e 1º lugar pelo Polo Digital (categoria inovação e sustentabilidade).

O pior de Mogi

O secretário adjunto de Saúde do Estado, Alberto Hideki Kanamura, revelou esta semana desconhecer, por completo, a reivindicação de um heliponto para o Hospital Luzia de Pinho Melo. Alguém pode nos dizer para que, afinal, servem nossos deputados?

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… prestigiar o Grupo Raízes de Teatro e marcar presença na próxima sexta-feira (31.5), no Theatro Vasques. Às 8 da noite as cortinas se abrem para a apresentação da peça “Um dia para David”.

www.chicoornellas.com.br


Deixe seu comentário