DÉBORA ABDALA

“Nunca imaginei que viveria uma pandemia”, relata a médica mogiana Débora Abdala, que atua na linha de frente contra a Covid-19

Textão, no ambiente da internet, é o relato que costuma escapar da superficialidade e da futilidade nas redes sociais, embora possa trazer conteúdo verdadeiro ou não. Na semana passada, a médica mogiana Débora de Barros Abdala usou desse artifício para falar de uma situação real, acontecida em um hospital particular da cidade, mas que se replica em outras cidades brasileiras. O depoimento fala sobre problemas como o colapso do sistema de saúde brasileiro medido pela falta de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e de respiradores necessários para tratar pacientes de regiões gravemente afetadas pelos casos da Covid-19, o descumprimento do distanciamento social e o peso das falsas notícias replicadas à exaustão.

Em sua rede social no Facebook, a profissional admite o cansaço ao “ler opiniões pessoais ou interpretações surreais. De saber que não sabemos nada, e ver que quem não sabe acha que sabe tudo. De ver todo dia mais tomografias com pulmões destruídos. De ver as ruas e supermercados lotados”.

SOCIEDADE Débora Abdala aposta na valorização da presença física do profissional de saúde. (Foto: divulgação)

Médica formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, com residência feita no Hospital das Clinicas Luzia de Pinho Melo e pós-graduada em Medicina de Emergência, ela destaca a gravidade das lesões pulmonares e o aumento dos pacientes que dependem de mais dias de internação (veja o texto abaixo).

Na última pandemia que o mundo viveu, a da H1N1, provocada pelo vírus Influenza, Débora começava a atuar profissionalmente. Aquela foi a primeira experiência com uma doença nova, como acontece agora com a Covid-19, e de impacto mundial. Segundo ela, não dá para comparar as duas ocorrências.

Há 11 anos, lembra, “embora tenhamos tido muitos casos, era uma situação completamente diferente, tanto em número de casos, como em gravidade. Atendíamos muitos casos de síndrome gripal, mas não vi uma sobrecarga do sistema de saúde da cidade”.

Aquela gripe exigia um tratamento mais abreviado, de quadros moderados da doença, que exigiam de 2 a 5 dias de internação, antes de os pacientes irem “para a casa bem”.

Hoje, não. “Estamos vivendo algo que assusta. Todo dia temos pacientes novos, todos com lesões pulmonares importantes, e quase todos precisando usar oxigênio suplementar pra manter a oxigenação sanguínea adequada”.

Outra grande diferença está no período de ocupação de um leito hospitalar. “As internações são mais arrastadas e os pacientes moderados, ficam internados de 7 a 10 dias, e é isso que acaba por sobrecarregar o sistema de saúde, tanto público como particular”, diz, acentuando que ninguém sabe “qual será o grau das sequelas dessas lesões”.

Débora fala ainda sobre o excepcional momento vivido pelo planeta. “Não, eu nunca imaginei que viveria uma pandemia, nunca imaginei que uma situação mais crítica pudesse acontecer ”.

Entre as preocupações, pontua: “hoje, o que mais me assusta é a dificuldade de as pessoas compreenderem a importância do isolamento. Estamos na Grande São Paulo, e temos uma estrutura hospitalar boa, inclusive quando analisamos a rede pública. Mas temos nossas limitações de espaço, de mão de obra, de equipamentos de proteção”.

Outra preocupação reside no fato de o país viver situações tão distintas, quanto se fala em saúde pública. “See sairmos da “caixa” onde está a grande São Paulo, a estrutura hospitalar certamente preocupa muito. Temos hospitais completamente sucateados. Décadas de descaso ficam mais evidentes nestes momentos”, reforça.

E qual será o legado da pandemia para a medicina, os médicos e a sociedade? Para a medicina, opina Débora, “que fique cada vez mais a certeza da importância da ciência (a medicina baseada em evidência), e talvez mais, a humanização da medicina. Em tempos em que pacientes ficam 7…10 dias internados em isolamento total, muitas vezes nossa presença, como profissionais da saúde, é uma oportunidade única para pessoas conseguirem se comunicar com o mundo além da porta do quarto, ou de uma tela de celular”.

Ela espera que a humildade seja uma conquista aos profissionais da saúde. “A humildade que a profissão, tantas vezes descrita como um “sacerdócio”, exige. Espero que consigamos nos espiritualizar mais. Acreditar fortemente em uma força maior. Títulos e prepotências ficaram de joelhos diante de um vírus: um ser invisível e microscópico”.

E, por fim, e a sociedade no futuro?

“Penso que este isolamento “obrigatório” vai fortalecer laços de família. A valorização da presença física. Do abraço, tão saudoso nestes dias. Do sorriso, que se esconde atrás de tantas máscaras. Espero que saiamos mais fortes, mais humanos, mais humildes e mais sorridentes”.

“Ai doutora, eu queria tanto poder te abraçar”

Eis o texto escrito pela mogiana Débora de Barros Abdala:

“Hoje, eu estou cansada. E talvez por isso, tenha burlado minha própria regra: “não comente sobre isso, Débora… apenas continue a nadar”.

Então, pra não concordar ou discordar de ninguém, queria explicar uma coisa, pra ajudar (quem concorda e quem discorda) a pensar fora da caixa:

Vagas de UTI: Nunca foi o forte do brasileiro, convenhamos.

Na rede pública, há uma recorrente falta de vagas, e quando a gente fala em colapso do sistema, não é pela UTI apenas, até porque, sem vaga de UTI, a gente sabe brincar. O médico brasileiro é formado pra lidar com isso. Acreditem!

Já segurei plantão de 12 horas, em sala de emergência de SUS, com 14 pacientes entubados num lugar que caberiam apenas 8. E com a UTI lotada.

Agora, sabe a hora que trava?

A hora que a gente liga pra diretoria e fala “precisa fechar a porta” (leia-se: não aceitar mais referenciados, seja do SAMU, seja transferência da Emergência! Não cabe mais!?

Não é a hora que acaba vaga em UTI. É a hora que acabam os ventiladores do hospital. Meu amigo… nessa hora… é um frio na barriga constante! Sabe por quê? Porque no SUS, não existe como FECHAR a porta.

Há alguns dias, li que o Ministério da Saúde enviaria a Manaus mais 15 ou 20 ventiladores mecânicos.

Sabe o que é isso?

Isso representa 2/3 da quantidade de ventiladores que temos no hospital onde eu trabalho. Um hospital particular, de tamanho mediano, numa cidade de 440 mil habitantes, onde há vários outros hospitais.

Basicamente? Não vai servir nem pra começar a brincadeira no Amazonas. Pronto. Isso que eu falei não é opinião pessoal. É vida real.

E o que tem a ver meu cansaço com isso?

Relato de caso: 32 anos. Masculino. Prestador de serviço essencial (alimentício). Morador da cidade de São Paulo. Sem comorbidades. Transferido pra “terra do caqui” (Mogi das Cruzes) porque na capital, nos hospitais referenciados do plano de saúde dele, não tinha mais vaga para suspeita de coronavírus (ou seja, até pode ser que tenha vaga no hospital, mas não na ala definida pra isolamento).

Há 5 dias internado. Sempre gentil. E piorando. Sozinho. Isolado (nem a família pode visitar).

Ele me olha e diz: – Quando essa falta de ar vai acabar, doutora?

Ele não sabia, mas já estava uma correria fora do quarto pra separarmos material – ele seria entubado. E qual era a preocupação da equipe? Não tinha vaga na UTI pra ele ir imediatamente. Num hospital particular de uma cidade de interior. Mas o alívio era que tínhamos ventilador. Eu tentei, com um nó na garganta, explicar:

– Você não consegue mais respirar sozinho… Seu pulmão está cansado. Nós vamos te ajudar a acabar com a falta de ar. Você vai dormir. E vamos ligar você ao respirador.

Silêncio. Meu e dele.

– Você entendeu?

– Entendi… é que eu nunca passei por isso…

Gelei. A única coisa que consegui responder:

– Nós também não…

Sai do quarto, e chorei. Respirei. Voltei pro front.

Neste momento recebo um aviso: “doutora, a mãe dele está aí, veio trazer roupas e produtos de higiene pessoal.”

Decidi dar a notícia de forma mais digna do que pelos boletins telefônicos diários que fazemos todas as tardes. A cada dia, pra mais famílias…

– Doutora, não entendo. Pra mim, quando alguém vai pra UTI, eu sempre acho que é porque a pessoa está entre a vida e a morte. Me diz: meu filho está entre a vida e a morte?

Deus do céu… como tranquilizar uma mãe? Tem como fazer isso? Há 12 anos sendo médica, ainda não descobri. Tento. Explico. Finalizo:

– Estamos fazendo tudo que podemos por ele! Agora a senhora vai rezar muito, pra que o pulmão dele responda! Peça com fé em Deus! Ele é jovem, é forte, e vai sair dessa!

– Ai doutora… eu queria tanto poder te abraçar agora… mas eu sei que não posso…

Ela chorou. Eu chorei. Perdi o rumo por bons minutos. Na verdade, perdi o rumo pelo resto do dia. Talvez por isso eu esteja cansada.

De ler opiniões pessoais ou interpretações surreais. De viver e ver cada dia mais casos e mais história. De saber que não sabemos nada, e ver que quem não sabe acha que sabe tudo. De ver todo dia mais tomografias com pulmões destruídos. De ver as ruas e supermercados lotados. E hoje, o que fica na minha mente é isso:

– É que eu nunca passei por isso…

– Nós também não…

Obs: Rapidamente conseguimos a vaga de UTI.”


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