ENTREVISTA

O arquiteto e professor José Reinaldo Stilhano Gomes apresenta os desafios para Mogi crescer com qualidade

FUTURO José Reinaldo afirma que Mogi é um ponto estratégico na Região Metropolitana e pode melhorar, mas terá de ser qualificada para isso. (Foto: Eisner Soares)

Uma conversa com o professor José Reinaldo Stilhano Gomes, de 65 anos, leva o interlocutor a conhecer memórias peculiares da família que fazem parte da história da cidade. Filho de Maria Maximina Stilhano do Nascimento e de Elpídio Gomes, ele viu a completa transformação de lugarejos como a Vila da Prata, onde o avô dele, o espanhol Felipe Gomes Huñes, foi um dos proprietários da conhecida pedreira ali existente, e o Mogi Moderno, bairro surgido a partir do desmembramento de chácaras. Os serviços de mármore da Catedral da Sé, em São Paulo, foram feitos por Huñes. Do lado materno, as origens são italianas e portuguesas. Professor e arquiteto, José Reinaldo leciona na ETEC Presidente Vargas, onde foi um dos coordenadores da montagem do laboratório de construção, dedicado aos alunos do curso técnico de Edificações. Vizinho do Casarão dos Duque, alvo de polêmica por conta do processo de tombamento como patrimônio histórico, ele viveu a maior parte da vida no mesmo quarteirão da antiga fazenda de café, como conta na seguinte entrevista:

Onde nasceu?

Na casa de número 2.350 da rua Dr. Deodato Wertheimer, que anteriormente tinha o número de 1.318 e se chamava Avenida Centenário, em um parto feito pela mãe da cantora Perla, que viveu em Mogi das Cruzes. Fui filho único e tive a infância marcada pela ausência de minha mãe que teve tuberculose e permaneceu os meus primeiros anos de vida internada em São Paulo. Então, eu ficava ora na casa de minha tia Janete, ora na casa de minha avó, Josephina Stilhano, que foi casada com o português Manuel Maria do Nascimento, que teve uma das primeiras empresas de ônibus de Mogi, que fazia o trajeto entre Jacareí, Guararema, Mogi, e o Largo da Concórdia, em São Paulo, e morreu assassinado, depois de uma discussão, em Luiz Carlos. Como a minha avó ficou viúva, ela acabou se casando com o irmão dele, Berto Pinto, arranjos comuns, naqueles tempos. Foi o irmão da minha avó, Roque, quem comprou a chácara no Mogi Moderno, que tinha como vizinhos o casarão dos Duque.

Estudou onde?

Eu não queria estudar, no início, era muito rebelde, e minha mãe me matriculou na escola do Sesi, que ficava onde está hoje o prédio da Helbor, mas eu não queria ficar na escola, agredia a professora. Depois, fui para a escola adventista e para o Instituto Dona Placidina. E minha mãe, não desistiu. Por fim, fui para a escola Coronel Almeida. Eu fui um garoto rebelde. Muito criança, passei muito tempo longe de minha mãe. Mas, tive professores que me ajudaram muito, como a dona Eunice Neves.

E como terminou essa fase?

Um pouco mais velho, eu queria uma bicicleta, pedi no Natal, passou o Natal, e não ganhei nada. Alguns dias depois do Natal, fomos na loja Urbano, na esquina da tenente Manoel Alves e a Avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco, e eles compraram em 24 parcelas, uma Caloi, de aro 13, que eu nem tinha altura para usar, e ganhei após muito insistir. Até hoje guardo a primeira bicicleta. Eu vi o esforço deles, e decidi me dedicar aos estudos.

Fez a Faculdade de Arquitetura em Mogi?

Fiz o técnico de Edificações no Colégio Marechal Rondon, e depois a faculdade de Arquitetura na Universidade Braz Cubas, na turma de 1981, e comecei a trabalhar como profissionais como o Claudio Martins, e algum tempo depois, como professor, uma profissão com a qual me identifiquei e fui inspirado por um professor que tive, de Planejamento, Irineu Idoeta, que fez o projeto mais econômico para a construção da rodovia Mogi-Bertioga, a pedido do ex-prefeito Waldemar Costa Filho. Fui assistente dele na faculdade e isso determinou minha carreira na educação.

Qual é a diferença dos alunos de ontem e de hoje?

É grande a diferença na educação porque antes, o professor tinha o respeito dos alunos e também era respeitado pelo governo, que o contratava. O professor trabalha por amor e porque se satisfaz com o encontro de ex-alunos que reconhecem o nosso trabalho, alunos que se transformam em juízes e outros profissionais reconhecidos. Hoje, há mudanças que não concordo, como a troca do estágio pelo TCC (o Trabalho de Conclusão de Curso). O aluno aprende muito mais na prática do trabalho.

O ensino técnico da ETEC permanece como uma referência?

Sim. E a procura pelos cursos na ETEC mostra isso. Mas, veja, o currículo técnico que antes era dado em quatro anos, reduziu para um ano e meio: como manter o mesmo conteúdo?

É vizinho do Casarão dos Duque?

Eu nasci no Mogi Moderno. Essa é uma casa do ciclo do café de Mogi das Cruzes, e havia uma outra fazenda, que também não existe mais, e que ficava na Ponte Grande, ao lado da via Perimetral – um casarão enorme, com vários quartos, e que, dizem, chegou a receber dom Pedro, quando ele passava por Mogi das Cruzes a caminho de São Paulo. Esse outro patrimônio foi derrubado sem que a cidade notasse.

Acha que a demolição será evitada?

O processo de destruição do casarão está acelerado. Eu mesmo me sinto ameaçado por denunciar o que está acontecendo ali. Já fui ameaçado e, se acontecer alguma coisa comigo, deixo aqui registrado. O problema é que durante o desenvolvimento de Mogi das Cruzes, os governantes, a partir da década de 1970, não tiveram o interesse de preservar os exemplares que ainda existiam no centro. Havia casas do século XX maravilhosas que foram derrubadas.

O que tinha nesse casarão?

Peças antigas, como as do moinho que produzia o fubá e utilizava a água do Ribeirão Ipiranga. Ali também havia as correntes que amarraram os escravos no passado. Não houve interesse de se manter essa parte da história de Mogi e do Mogi Moderno.

O que poderia ser feito ali?

Foi apresentado um projeto para a construção de prédios que prometia manter a casa como uma sede social. Essa casa de fazenda foi o coração daquela região e pode ser derrubada. Segue o mesmo que se viu com o casarão dos Barradas. Falta a Mogi uma lei que busque recursos, como a do direito de construir, para preservar os casarões antigos. Parece que, agora, já está se falando nisso. O que aconteceu com a casa dos Barradas foi por falta de vontade de proteger a história.

Qual avaliação faz do crescimento de Mogi?

Mogi é um ponto estratégico na Região Metropolitana e pode melhorar muito mais, mas precisa ser qualificada. Muita gente não gosta, mas ela é uma cidade dormitório, mais pessoas poderiam trabalhar na cidade. Em 40 anos, ela cresceu muito, melhorou, em muitos aspectos, e agora está se voltando para a região da Estrada do Beija-Flor, no Botujuru. E terá desafios para comportar os moradores, tantos carros e a qualidade de vida.


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