CHICO ORNELLAS

O bacalhau do Zé

DESEMBARGADOR – José Elias Habice Filho chegou a Mogi, para judicar, em meados da década de 1970, nunca mais saiu.
DESEMBARGADOR – José Elias Habice Filho chegou a Mogi, para judicar, em meados da década de 1970, nunca mais saiu.

Há uma particularidade curiosa em Mogi das Cruzes: a sorte da Cidade com seus quadros do Poder Judiciário. Salvo raríssimas exceções – de todos conhecidas – Mogi sempre se deu bem com os seus juízes. E os seus juízes também sempre se deram bem com a Cidade. E com a carreira, do que são prova e exemplos Nelson Pinheiro Franco e Sérgio Augusto Nigro Conceição, que chegaram à presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo e continuaram, por vocação, mantendo estreitos laços com os amigos daqui.

O estereotipo disso chama-se José Elias Habice, hoje aposentado como desembargador do Tribunal de Justiça. Eu o conheci em 1976. Havia então voltado à Cidade para fazer o Diário de Mogi e ele estava recém empossado na Comarca local. O primeiro bispo daqui, dom Paulo Rolim Loureiro, havia falecido havia alguns meses em um acidente da Avenida Sena Madureira, em São Paulo, e a chamada “elite dirigente” reuniu-se em um jantar para recepcionar, no Clube de Campo, o novo bispo que viera de Orlândia, dom Emílio Pignolli.

No jornal, a esse tempo, eu cuidava de manter acesa a questão de exploração do subsolo: com decretos de lavra e liminares judiciais, mineradoras ocupavam terrenos de terceiros, cavoucando-os e abandonando sem recuperação o que eram áreas passíveis de abrigar indústrias. Pois foi no Clube de Campo, naquele jantar clerical, que um homem recém entrado nos 30 abordou o jornalista recém entrado nos 20.

Você é o jornalista Francisco Ornellas? Pois eu sou o dr. José Elias, juiz de Direito. Quero lhe dizer que concordo com a posição do jornal na questão das mineradoras; mas não tenho como fugir à lei”.

Impressionou-me a franqueza do magistrado e a passagem nunca mais saiu-me da cabeça. Voltei a encontrar José Elias, com mais frequência, entre 1994 e 1998, então quase diariamente na Universidade Braz Cubas. E, esporadicamente, em reuniões gastronômicas que ele promove – ou às quais comparece –, sempre com um humor apurado.

Certa vez foi na Chácara de Santa Fé. Outra foi no Restaurante do Tufy, onde Zé Elias agendou um bacalhau. Estava impecável. O bacalhau e o Zé, sempre disposto a relembrar passagens curiosas. Como aquela audiência no Fórum de Mogi. Ele era o juiz e recebeu uma das testemunhas no processo para a oitiva de praxe. A testemunha estava enfiada na cadeira, numa postura que, ao juiz, pareceu desrespeitosa: a cabeça encostada ao tampo da mesa. O meritíssimo, em nome da liturgia do cargo, chamou-lhe a atenção: “Componha-se”. A testemunha respondeu:

Eu o faria doutor, se não estivesse com a perna engessada a me obrigar a esta desconfortável posição”.

Ao juiz não restou alternativa senão erguer o jornal que tinha sobre a mesa e cobrir o rosto para o inevitável sorriso.

Carta a um amigo

Mais Demi do que Natalie

Amigo Chiquinho

Recebi, por envio de uma amiga comum, exemplar do Diário de Mogi do dia 4 de agosto. Ela me havia telefonado antes, contando que eu teria sido personagem de uma crônica que você publicara no jornal, relatando um encontro nosso em São Paulo. Duvidei; achei que era brincadeira. Fui ver a página do jornal na internet e não encontrei a tal crônica. Aí liguei para ela, duvidando ainda mais da novidade que me havia contado. Ela resistiu e pediu a um filho, que estuda em São Paulo, que me trouxesse o jornal. Não acreditei! Continuo não acreditando! Você viajou!

O pior de tudo é que não posso brigar com você. Primeiro porque não brigo com quem não vale a pena. E faz muito tempo, desde a época do Instituto de Educação, quando você fazia o Clássico e eu o Normal, aprendi a não brigar com você. Você nunca teve jeito. Segundo porque, no fundo no fundo, você não inventou nada e relatou minha experiência com o curso de autoestima feminina e as técnicas de strip-tease com absoluta precisão. O problema estava comigo, não com você. Quem mandou contar-lhe isso.

Esqueçam Natalie Portman. Nossa amiga diz que está muito mais para Demi Moore, na foto em cena do filme “Strip-tease”.

Mas há um reparo a fazer no seu texto. Meu marido, meu querido e amado marido não me compara com Natalie Portman, a stripper do “Closer”. Aqui também parte da culpa é minha, que lhe contei, no café do shopping Higienópolis, que meu marido se lembrava sempre daquele filme em que uma artista fazia o papel de stripper. Você foi atrás e achou o filme “Closer”, com Natalie Portman.

Na realidade, a comparação que ele faz – e muito me envaidece – é com Demi Moore, a protagonista do filme “Strip-tease”, de 1996. No filme, ela tira (quase) toda a roupa, interpretando uma dançarina de strip-tease que precisa manter a guarda de sua filha. Também estão no filme Burt Reynolds, Armand Assante e Ving Rhames.

Nele, Demi Moore faz o papel de Erin, moça que perde o emprego de secretária no FBI por causa do marido, um pequeno golpista. Por não ter emprego, perde a custódia da filha. Começa então a trabalhar como stripper e se vê às voltas com o ex-marido trapalhão, um congressista tarado e um detetive que quer ajudá-la.

Mas, deixa isso pra lá. Tudo está bem, tudo está ótimo. Sei que não adianta pedir-lhe que não publique este e-mail. Sei que é perda de tempo.

Com afeto

Tidika Bueno

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
XI DA SAUDADE – Ela imperou por cerca de 25 anos, a partir do final da década de 1960. Era a equipe do XI da Saudade, integrada por veteranos do União FC e presente, todo sábado, no campo da Rua Casarejos. No flagrante, de meados da década de 1970, recebeu o reforço de Mané Garrincha, o primeiro atleta, agachado, da esquerda para a direita.

GENTE DE MOGI
INSUPERÁVEL – Jamais houve, jamais haverá. Lourdes Romeiro é uma só: professora de Educação Física do Instituto de Educação Dr. Washington Luiz, incentivava suas alunas à prática de danças escocesas. Daí surgiu, em 1960, o grupo das escocesinhas. Eram 60 de início, chegaram a 120. Todas entoando, em flautas doce, os arranjos do maestro Niquinho e desfilando à frente da fanfarra. Ela morreu em fevereiro de 1984

O melhor de Mogi
As esculturas que Rodrigo Bittencourt espalha por Mogi. Agora, é “Siderurgia”, que ele monta na rotatória de Cesar de Souza.

O pior de Mogi
O Velório Cristo Redentor foi instalado há mais de 40 anos. Continua sem ampliação, adequação, sem plano algum.

Ser mogiano é….
Ser mogiano é… saber por que muitos da Cidade chamam o Santuário do Senhor Bom Jesus de Igreja de São Benedito. Foi assim: em 1879, a Irmandade de São Benedito transferiu-se para o Santuário do Bom Jesus e o costume teve início.