MÚSICA

‘O Canto de Cabocla Pede Socorro’

LUTA Sandra Vianna espera conseguir R$ 10 mil com a campanha, que também tem o objetivo de fazer com que a casa seja reconhecida como um centro de cultura. (Foto: divulgação)
LUTA Sandra Vianna espera conseguir R$ 10 mil com a campanha, que também tem o objetivo de fazer com que a casa seja reconhecida como um centro de cultura. (Foto: divulgação)

‘O Canto de Cabocla Pede Socorro’. Não é o repórter quem diz, não é o jornal. São as próprias gestoras da casa, as irmãs Sandra e Jéssica Vianna, que, por meio de uma campanha de financiamento coletivo, coletam doações para que a casa continue e seja vista não somente como uma lanchonete, mas também como um ponto de cultura.

Arrecadar R$ 10 mil em doações por meio do site benfeitoria.com e promover o espaço enquanto um centro de cultura, de resistência artística, são os objetivos do projeto. A primeira medida é direta ao ponto, e vai possibilitar a manutenção da casa agora, durante a pandemia do novo coronavírus, bem como sua existência num futuro próximo. A segunda é mais profunda, e busca o “reconhecimento da gestão pública”.

Canto de Cabocla não é uma associação, não tem um CNPJ como casa de cultura. Mas não há como negar que ele é uma. Reduto da música autoral mogiana, sobretudo da MPB, tem recebido, nos últimos dois anos, praticamente todos os cantores locais deste estilo na sede da Rua Barão de Jaceguai, para cantar, tocar, entreter, exercer a arte.

“Para a prefeitura, o Canto é uma casa comercial. Enfrentamos dificuldades para formar uma associação, mas precisamos ser reconhecidos como um ponto de cultura”, explica Sandra Vianna. O motivo? A recém sancionada Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc.

“De acordo com a lei, todos os espaços e trabalhadores culturais indicados pela gestão pública podem receber recursos”, afirma Sandra, que buscou, nas últimas semanas, validar o argumento a partir de depoimentos. O resultado está à disposição no YouTube, em um vídeo emocionante com a história da casa e os pensamentos de seus frequentadores e parceiros.

Este repórter é um dos rostos que fazem parte dos depoimentos, já que tem observado e registrado ao longo dos últimos anos boa parte dos eventos que lá acontecem. Mas as principais falas vêm de quem utiliza o Canto como palco: artistas como Valéria Custódio, Paulo Betzler, Lívia Barros e muitos outros, que defendem a valorização cultural do espaço.

Os depoimentos buscam reforçar a importância de atingir os dois objetivos explicados nesta reportagem, esforço que pode tornar o destino do local diferente do que foi visto recentemente com o Casarão da Mariquinha e o Galpão Arthur Netto, importantes centros da cultura mogiana que fecharam as portas por motivos financeiros.

“Temos consciência de nosso merecimento por conta das atividades que a gente vem fazendo, então aguardamos ansiosamente que consigamos. Estamos pedindo para os amigos compartilharem e apostamos nas contrapartidas para que a adesão seja alta”, afirma Sandra.

Do montante necessário, por enquanto apenas 9% foi arrecadado. Mas ainda faltam semanas até o prazo final, e as tais contrapartidas terão tempo de se provar suficientes. Quem contribuir com R$ 50 “terá o direito a receber esse mesmo alor em produtos do cardápio”. Quem contribuir com R$ 100 terá, além disso, “o direito de agendar um live show”. E quem ajudar com R$ 500 ou mais pode ainda “escolher uma data para ocupar o Canto com convidados e 200 salgados veganos”.

Para Sandra Vianna, que iniciou as atividades do Canto em 2011, quando ainda não havia uma sede física, a questão vai além dos valores em dinheiro. Para ela, que está completamente envolvida e “respira” Canto de Cabocla, trata-se de uma “luta emocional”. “Manter um espaço desse do jeito que mantenho dá muito trabalho. Cuido de tudo, desde higienização até reposição de mercadoria, produção da comida e na hora que está funcionando dou assistência do salão. Por isso os depoimentos me emocionaram muito”, conta ela.

A gestora, que também é musicista, encerra dizendo que “não saber fazer outra coisa da vida” a não ser gerir este espaço. “Faz mais de 25 anos que trabalho em projetos voltados para a música autoral, e percebo que não sei fazer outra coisa. Isso é o que me move a alma e me deixa feliz, apesar das dificuldades”.

Uma nova fase para a casa

Os R$ 10 mil solicitados pelo Canto de Cabocla em campanha de financiamento coletivo servirão para manter o espaço vivo. A verba será utilizada para arcar com custos de aluguel e outras despesas oriundas do encerramento do contrato de aluguel com o imóvel atual, ao número 944 da Rua Barão de Jaceguai. É isso mesmo. O Canto de Cabocla vai se mudar.

“Esta é uma casa muito antiga e nunca teve reforma. Fizemos o possível para adaptar para o uso, mas uma reforma é inevitável, e não temos recursos para isso”, explica Sandra Vianna, que em decorrência da pandemia do novo coronavírus não consegue mais arcar com os custos do aluguel.

A quebra do contrato gerou valores impossíveis de serem quitados sem o financiamento coletivo. Ainda assim, o Canto continua, ela promete. Sandra está finalizando as negociações para alugar outro imóvel na região central, e ainda não pode divulgar detalhes. A única certeza é que as portas permanecerão fechadas até que seja seguro, considerando as recomendações oficiais de isolamento social.

O novo endereço deve representar uma fase diferente para o empreendimento, tanto quanto lanchonete como casa cultural. “Pretendemos fazer mais lives como a de abril, em que encenamos uma peça teatral”, adianta Sandra, que não pode falar muito, mas define que será uma “nova configuração de trabalho”.


Deixe seu comentário