PATRIMÔNIO

O Casarão dos Duque, em Mogi das Cruzes, poderá ser demolido

RELÍQUIA Casarão dos Duque, na Dr. Deodato Wertheimer, é um dos registros da plantação de café. (Foto: arquivo)

Tramita no Vara da Fazenda Pública de Mogi das Cruzes um pedido para a extinção do processo de tombamento como patrimônio público municipal e a demolição do prédio conhecido como Casarão dos Duque, localizado na Rua Dr. Deodato Wertheimer e um dos únicos registros do curto período da plantação do café na cidade. Aberto pelos novos proprietários do imóvel, a Sotto Teixeira Engenharia, o processo corre em segredo de justiça.

Ontem, uma reunião da Câmara Técnica de Análise de Processo do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico de Mogi das Cruzes (Comphap) avaliou a peça judicial que solicita o fim do procedimento administrativo para o tombamento reaberto neste ano, bem como autorização para a demolição do casario.

ANTIGO Prédio de característica singular foi construído pela família Baurroul nos anos 1930. (Foto: arquivo)

Entre as alegações para sustar o que poderá garantir a preservação desse registro histórico, a Sotto Engenharia alega que não foi comunicada pelo Comphap sobre tal medida, algo confrontado por atas e os conselheiros. Porém, o que mais preocupa a professora Luci Bonini, presidente do órgão, e seus demais integrantes, é o pedido formal para a derrubada do prédio de característica singular construído pela família Baurroul, nos anos 1930.

Os atuais proprietários alegam que a estrutura apresenta um alto risco de desabamento decorrente de problemas como a instabilidade e deterioração de paredes, teto e de outros elementos construtivos, além do comprometimento de vigas de madeira e trincas. Também citam os riscos de queda de árvores nativas e antigas, igualmente consideradas de interesse público para a preservação ambiental e paisagística.

Um laudo técnico ampara o pedido de demolição. O documento valida “a impossibilidade de se preservar o casarão”, o que o Comphap discorda.

Duas vistorias foram feitas por integrantes do Comphap ao local, após denúncias sobre o comprometimento da estrutura, que teria sido provocado pelo abandono do lugar, numa repetição do que se viu com as dezenas de casarios antigos de Mogi que desabaram por falta de serviços de manutenção, conservação e vigilância.

Em uma das vistorias foi feito um boletim de ocorrências sobre o descuido com a propriedade de interesse social para a preservação histórica.

Após isso, os conselheiros registraram a intensificação de avarias gerada por um incêndio e o desalinhamento de telhas. Esses incidentes respondem pela ampliação de patologias construtivas provocadas pela infiltração de água e causadoras de outros danos na construção do século XIX feita de taipa de pilão e de mão.

Foram desfavoráveis aos autores, decisões sobre os pedidos de agravo de instrumento solicitados em primeira instância, à Vara da Fazenda Pública de Mogi, e na sequência, ao Tribunal de Justiça do Estado.

O foco, agora, é a análise e o julgamento do mérito, que pede o fim do processo de tombamento e a demolição.

“Nós vamos mostrar a importância desse prédio para o registro da história e da cultura de Mogi das Cruzes, bem como as possibilidades técnicas que existem para restaurar o imóvel”, afirma Luci Bonini. “Faremos o que sempre fizemos até aqui, defenderemos a história de Mogi”, acrescentou.

Serão os próprios conselheiros que embasarão a defesa da Prefeitura. Um outro processo de tombamento foi iniciado pelo Comphap, no início desta década, mas ele foi encerrado pelo órgão após o comprometimento formal feito pelo então proprietário, João Tadeu Machetti, em construir um empreendimento imobiliário no terreno, com a manutenção do Casarão dos Duques. Naquela oportunidade, a ideia era transformar o antigo casario como uma área de uso social.

O Diário solicitou um posicionamento à Sotto Teixeira Engenharia, mas até o fechamento desta edição não obteve um retorno.


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