ARTIGO

O “causo” da galinha

Perseu Gentil Negrão

gentilnegrao@uol.com.br

Na ocasião do dilúvio, logo após os bichos entrarem na arca, houve um grande tumulto, ocasionado pela galinha, que gritava desesperadamente. Noé indagou à “penosa” o que ocorrera. A galinha relatou que sua vagina fora furtada. Noé chamou a diligente polícia, que elaborou um boletim de ocorrência. Na mesma oportunidade, Noé determinou a instauração de uma sindicância, para verificar negligências dos funcionários. Alguns dias depois, uns bichos da oposição apresentaram um requerimento para instauração de uma CPB (Comissão Parlamentar de Bichos). Os dias passaram. A polícia não concluiu o inquérito. A comissão sindicante ouviu 50 bichos e apresentou relatório inconclusivo. A Comissão Parlamentar não conseguiu “quórum” para se reunir (os parlamentares estavam nas bases ou aguardando emendas de orçamento). Noé, cauteloso, determinou a instauração de um processo administrativo. O dilúvio continuou. A Comissão Processante, após ouvir 400 bichos, nada concluiu. A polícia pediu mais prazo para conclusão. A Comissão Parlamentar de Bichos preocupou-se apenas com o fundo partidário. O dilúvio acabou e não houve solução para o infortúnio da galinha.

Tempos depois, a polícia localizou o ladrão. Concluído o inquérito, o Ministério Público ofereceu a denúncia que, ao final, foi julgada procedente, sendo o ladrão condenado. O larápio, por seu advogado (pago por um amigo), apresentou apelação. O Tribunal manteve a condenação. Foram opostos embargos de declaração (que foram rejeitados). O hábil advogado ingressou com Recurso Especial ao STJ, que negou provimento ao recurso. Contra esta decisão, a Defesa apresentou Recurso Extraordinário ao STF, que demorou para julgar, ocorrendo, assim, a prescrição do crime.

A galinha, inconformada, procurou a Defensoria Pública (a penosa, ao contrário do ladrão, não tem amigos para custear seu advogado). Por incrível que pareça, a Defensoria ingressou com uma “ação de recuperação da vagina”. Moral da história: há mais de 2 mil anos a ação está tramitando e ainda não foi definitivamente julgada. Fala-se que a “penosa” ganhou em todas as instâncias, mas está aguardando o julgamento do STF. E enquanto isso a coitada da ave continua com apenas um orifício. Tomando no…

A galinha continua cacarejando (chorando a sua perda), enquanto milhares de ladrões (muitos do dinheiro público) estão cantando (rindo) e aproveitando os proveitos de suas gatunagens.

E o STF quer que sejam esgotados todos os recursos.

Perseu Gentil Negrão é……

Deixe seu comentário