CHICO ORNELLAS

O dia em que pensaram em mudar o nome de Mogi

Hotel e restaurante Estância dos Reis, de Helena e Carlos Barattino (Fotos: Arquivo pessoal)

Carlos Barattino, durante muitos anos, foi nome de referência da Cidade. Ele e sua esposa Helena. Primeiro no Hotel Estância dos Reis; depois no Restaurante Piatto D’Oro. O hotel ocupava a área onde hoje funciona o NEC, escola da Vila Oliveira. O prédio central era composto pelos apartamentos, pequenos e confortáveis, com portas para um varandão de cerâmica vermelha. O acesso ao hotel se fazia por uma pequena praça, ao lado da qual ficava a administração. Na frente, o salão de refeições. Era ali que o Rotary Club realizava suas reuniões nas noites de quinta-feira. E onde havia almoços comemorativos, jantares de gala e festas de casamento.

Concorrido mesmo eram os domingos. Famílias inteiras se reuniam para o almoço. Os pais e tios ficavam no restaurante em conversa, enquanto os pequenos corriam pela área externa, dando canseira nas babás. Como Adelina, a moça que me cuidou até os 12 anos e só saiu de casa para casar com Emílio. E que canseira lhe dava: a área externa ocupava todo o espaço hoje conhecido como “pombal” – das primeiras casas construídas na Vila Oliveira, final dos anos 60.

A bem da verdade, as casas do “pombal” chegaram à Vila Oliveira depois dos pioneiros do Bairro. O primeiro a morar por lá foi o dr. Brandão, engenheiro da Light que construiu sua casa naquele fim de mundo. Também o dr. Warren e sua esposa Lilian, controladores da Griffith em César de Souza. Moravam em uma propriedade que, há tempos, cedeu lugar a um condomínio de casas. Também outra residência – confesso nunca soube de quem –, quase uma chácara e onde os fundadores do Clube de Campo, no final dos anos 50, pensaram em instalar a agremiação antes de adquirir o terreno da Rua Duarte de Freitas. Também havia a Sauna do Franz e o Restaurante Campestre, vizinhos da Chácara Santana.

Bem, naquela área externa do Hotel Estância dos Reis ficavam a piscina sem azulejos – foi feita nos anos 40. Também o lago, um pequeno campo de futebol, o pomar e um bosque com mesas para piquenique. Em meados da década de 60, Carlos Barattino negociou a propriedade com Marcos Schwartzmann, que construiu o conjunto de residências e fundou o NEC. Quando da negociação houve vereador, em Mogi, que sugeriu transformar o terreno num parque popular. Coisa de quem, não tendo fosfato mais potente, tenta impedir empreendimentos alheios e acaba por colocar a mostra, nua e crua, sua vocação demagógica.

Carlos e Helena criaram, então, o Restaurante Piatto D’Oro, na Avenida Pinheiro Franco, em frente à Rua Santana. Mais um ponto de referência, que perdurou até o final dos anos 70. Foi no seu tempo de Piatto D’Oro que Carlos cismou de lançar-se a uma campanha, para mudar o nome da Cidade. Ele achava que Mogi das Cruzes, reunindo uma palavra indígena com uma referência a cemitério, não caía bem. Durante bons pares de meses Carlos Barattino defendeu sua ideia. Ela não vingou. Alguns – como eu – a defendiam; outros a criticavam sob o argumento da tradição de 400 anos.

A campanha de Barattino acabou. Mas ficou a lembrança de sua proposta e a vontade de alguém tentar algo diferente.

A propósito: o nome Mogi das Cruzes é a atualização etimológica de M’Boigy que, em tupi, significa Rio das Cobras, como era conhecido o atual Tietê. O das Cruzes veio mais tarde, numa referência ao sítio hoje ocupado pela Catedral e que, nos tempos da fundação da vila, era utilizado como cemitério. Por completo, a Cidade chama-se Sant’Ana de Mogi das Cruzes.

CARTA PARA UM AMIGO

Conversa de brasileiro

Meu caro amigo

Quero contar-lhe encontro que tive há alguns dias. Vamos chamá-lo de José. Pediu-me, este velho e outro querido amigo, que se preservasse sua identidade. E José, afinal, existem 6.9 milhões referências no buscador Google da Internet. No Brasil, por certo são muito mais. Pois José, aos 66 anos de idade, é daqueles cidadãos acima de qualquer suspeita. Poucas vezes o vi destemperado. Quando tem uma conta para pagar, paga nem que seja para entrar no cheque especial. Seus cartões de crédito o têm como cliente preferencial. Mas, dia destes, quando nos reencontramos para o almoço mensal no qual há anos colocamos o papo em dia, ele estava destemperado. Muito nervoso.

“Veja só meu caro – disse-me ele – os jornais têm dado grande destaque para as investigações que correm no País”. José graduou-se em Direito, inscreveu-se na OAB, mas nunca exerceu a profissão. Preferiu outras incursões e fez carreira na iniciativa privada. Trabalhou para grandes companhias, construiu um currículo, aposentou-se pelo INSS depois de 35 anos de trabalho. E continua trabalhando.

“Não tenho outro jeito. Minha aposentadoria não chega a R$ 3.000,00; não basta para cobrir minhas obrigações com o seguro saúde que sou obrigado a manter para minha família. Depender da saúde pública?” Para José e seu jeito de ser, isto até que não está de todo errado. “Saúde pública, acho eu, deveria atender apenas aos excluídos”, afirma ele justificando-se: “Aos 66 anos de idade, jamais utilizei os serviços públicos de saúde. Nasci em uma maternidade particular assim como meus filhos, que nunca passaram por um hospital ou profissional sustentados pelos impostos”.

Citando uma ou outra passagem do noticiário a respeito das denúncias atuais, não muito diferente das passadas, ele gesticulava e falava: “Também aos 66 anos de idade, nunca dei trabalho para a Justiça. Sei, a Justiça precisa existir para que a lei seja cumprida. Mas, se todos cumprissem a lei, para que serviria a Justiça?”

No almoço do final do mês José pediu um nhoque à bolonhesa. Era dia 29, sexta-feira, dia do ‘Nhoque da Sorte’. “Não, eu não reclamo da vida, muito pelo contrário, agradeço todos os dias por tudo que a vida já me deu. Mas tenho de cultuar algumas superstições, como esta do ‘Nhoque da Sorte’. Afinal, minha família terá como herança apenas o pouco que consegui guardar e minha mulher fica com a pensão de nem R$ 3.000,00”.

Ele avermelhou, perguntoume e ele próprio respondeu: “Você viu que deputados e senadores, incluindo delegados, policiais e juízes não fazem outra coisa senão aparecer na televisão ameaçando quem recebeu – ou não recebeu – o tal do petrolão? Sabe de uma coisa? Nos últimos 15 anos eu sempre recebi, como salário, mais que o teto da Previdência. Coisa pra lá de 50 salários mínimos e minha aposentadoria, hoje, não chega a quatro salários mínimos. Detalhe: nunca recebi um tostão que viesse por conta de imposto. Está certo o trabalhador comum pagar 35 anos de previdência oficial, receber em média R$ 650,00 por mês e ter de escutar tudo isso de gente que só recebe dos cofres públicos? É só o que me faltava neste Brasil! De mais a mais, cada salário que eu recebia tinha de ser justificado na empresa; eu tinha metas a cumprir e prazos a obedecer. Ai de mim se um prazo não fosse cumprido ou se um objetivo não fosse atendido. Havia a controladoria, a inspetoria, os orçamentos, os relatórios de gestão. Eu nunca reclamei de nenhum desses controles. Eu nunca tive problema com controle algum porque sempre tive a consciência tranquila. Cada controle que eu recebia terminava com um atestado de competência. E, a partir dele, eu podia reivindicar promoções e aumentos salariais”.

Conforme ia falando, José lembrava-se de outros detalhes: “Como eu nunca utilizei os serviços públicos de saúde, também nunca utilizei os planos públicos de habitação. E não acho que tenha de me lamentar; incentivo para casa própria deve ser dado aos excluídos; quem tem posses que vá ao mercado buscar financiamento”.

Ele insistia: “Não, não estou reclamando, estou apenas divagando. Outro dia fiz as contas de quanto já paguei, atualizados, de tributos federais. Foram cerca de R$ 130 mil para a previdência pública e perto de R$ 600 mil para o imposto de renda. Fora os tributos indiretos que incidem sobre tudo que compro, tudo que pago. De impostos estaduais eu nem faço a conta e, de municipais, eu me compenso vendo o que acontece na minha Cidade. Tudo isto me deixaria muito feliz se visse os programas públicos de saúde, educação, habitação oferecendo serviços adequados a quem precisa. Mas o que acontece é exatamente o contrário: as carreiras de delegado de polícia, juiz e promotor são muito mais valorizadas do que a de professor. Continuam a valorizar quem pune e a menosprezar quem ensina. Se o aprendizado fosse eficiente, não haveria necessidade de tanta punição”.

José silencia. Olha para mim enquanto sorve o último gole do café e confere a conta do restaurante, com seu nhoque à bolonhesa e o meu espaguete marinara. Olha de novo e pergunta:

– E você, o que me diz sobre tudo isso?

Um grande abraço do

Chico

GENTE DE MOGI

José Arouche de Toledo (Foto: Arquivo pessoal)

ADVOGADO – Ele foi o quarto da família a se formar, em 1933, pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a mesma da qual seu ancestral, José Arouche de Toledo Rendon, foi o primeiro diretor (1827-1833). Antes dele, dois tios e um irmão; depois, sete, entre irmão, primos e sobrinhos. Graduado, estabeleceu banca em Mogi das Cruzes, onde nasceu em novembro de 1908. Até que incursionou pela política: foi vereador entre 1948 e 1951 e ocupou a presidência da Câmara Municipal. Nunca mais. Dedicou-se, por toda a vida, à família, à advocacia e ao Rotary Club. Foi fundador do Clube de Campo e integrou na Comissão Técnica do Plano Diretor, no final da década de 1960. José Arouche de Toledo morreu em agosto de 1994, empresta o nome a uma das ruas do Real Park.

O melhor de Mogi

As crônicas de Nicanor Paraguassú. O velho ferroviário, tão preto quanto o luzidio de sua careca, foi-se embora em junho de 1979. Deixou muitas lições de vida para os que conviveram com ele na Redação deste jornal. Como eu.

O pior de Mogi

Faz um ano, este mês, que o DER encerrou a concorrência para a duplicação da Mogi-Dutra, no trecho da Ayrton Senna até Arujá. Disse, na época, que esperava iniciar as obras ainda em 2017. Pois é: estamos no 2º semestre de 2018 e até agora necas de pitibiriba.

Ser mogiano é…

Ser mogiano é… reverenciar a memória de Georgina, a Menina da Pipoca, irmã de Yayá Mello Freire, cuja sepultura é a mais visitada do Cemitério de São Salvador.