ARTIGO

O diabo obsoleto

João Anatalino

A mente humana sempre intuiu que o mundo é construído por duas forças antagônicas. Elas são chamadas de bem e mal, positivo e negativo, yin\yang, luz e trevas, etc. A física moderna as chama de relatividade e gravidade. Uma dispersa, outra reúne.

As religiões transformaram essa intuição numa metáfora interessante. Virou um conflito entre Deus e o Diabo. Antes de o ardiloso anjo caído travestir-se de serpente para seduzir a ingênua Eva, ele era o melhor amigo de Deus. Divergências políticas e ideológicas fizeram com que eles brigassem, e Deus, sendo mais poderoso, expulsou o Diabo do céu, exilando-o na terra. Com ele veio uma horda de seguidores, que passaram a semear a discórdia entre a criação divina.

Desde então o Diabo e seus seguidores fazem esse trabalho sujo. E a se julgar pelo resultado eles têm sido muito eficientes, pois até agora não houve ano sem que provocassem conflitos em algum lugar da terra. Afora isso, aliciaram papas, pastores, rabinos, mulás, aiatolás, pais de santos, religiões, partidos políticos, economistas, advogados, sindicatos, torcidas organizadas e afins, para trabalhar para eles.

Houve vezes que Deus, incomodado com essa balbúrdia, mandou emissários à terra. Mas malgrado o trabalho feito por eles, nem Buda, Maomé, Jesus ou qualquer outro desses emissários tiveram sucesso. O Diabo era muito esperto e controlava a mídia. Perverteu as mensagens deles e utilizou-as em seu benefício.

Foi então que Deus resolveu usar a mesma ferramenta do inimigo, ou seja, a mídia. Foi assim que surgiu a Internet e as redes sociais.

Um dia, um astronauta, girando na órbita da terra, olhou pelo visor da sua espaçonave e viu o Diabo lá fora. Tinha a cara desconsolada de um mendigo errante. O astronauta perguntou-lhe o que estava fazendo ali. O Diabo disse que fora expulso da terra pela Internet e pelas redes sociais. Perdera seu lugar na vida dos homens, pois eles não precisavam mais dele para espalhar a discórdia, a maledicência e a mentira. Ficara obsoleto. Assim, ele estava indo procurar um planeta que ainda não tivesse desenvolvido esses recursos, para trabalhar.  Junto com ele marchava uma legião de blogueiros, twiteiros, whatssapeiros, instagramistas, hackers, paparazzis e semelhantes.

. ̶  Hei ̶  gritou o astronauta. – Não vejo políticos na sua troupe. Você não vai levar consigo os maiores mentirosos da terra?

. ̶   Não ̶ , respondeu o danado. – Alguém tem que ficar para fazer a minha parte. Senão até Deus vai perder a finalidade.

E lá se foi a horda maldita, sumindo no espaço como um exército de Brancaleone.

João Anatalino é escritor e advogado

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