CIRCUITO

O diálogo é a chave para superar traumas

A mogiana Vanessa Costa Navarro, especialista, médica psiquiátrica, fala sobre
A mogiana Vanessa Costa Navarro, médica psiquiátrica, fala sobre superação de traumas. (Foto/ Eisner Soares)

Os quatro primeiros meses deste 2019 infelizmente ficaram marcados na história por várias tragédias, como o rompimento da barragem de Brumadinho, o acidente aéreo que matou o jornalista Ricardo Boechat e o piloto Ronaldo Quattrucci, o incêndio que atingiu um centro de treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro, o violento ataque à Escola Professor Raul Brasil, em Suzano, a também violenta tentativa de assalto a bancos em Guararema, as enchentes que desolaram famílias em Mogi das Cruzes e o recente incêndio na Catedral de Notre Dame, em Paris. Em situações como essas, profissionais da área da saúde mental, como a mogiana Vanessa Costa Navarro, especialista, médica psiquiátrica formada pela Universidade São Francisco e especializada em medicina oriental, são acionados. O trabalho dela é conversar com as pessoas, entendendo e tratando seus traumas, transtornos e doenças mentais, como a depressão. Nessa entrevista Vanessa mostra a melhor maneira de ajudar alguém que está sofrendo, aponta sinais para que os familiares percebam a necessidade de tratamento e conta como é o trabalho de um psiquiatra.

Como é o tratamento psiquiátrico em casos de traumas, como acidentes e assaltos?

No caso de um acidente ou de um assalto a gente precisa dar tempo da pessoa elaborar o que aconteceu. É normal ter pressa em ver a pessoa bem, mas ela precisa de tempo. Quando se perde alguém bem próximo, também acontece a mesma coisa, por meio do luto. Não adianta passar por cima disso. Cada um tem um tempo para essa fase de adaptação da vida e que precisa acontecer, pois se não for bem trabalhada pode virar uma doença.

E em traumas maiores, como as várias tragédias e ataques que vêm acontecendo em sequência neste início de ano?

O ser humano tem capacidade de ser empático, ou seja, se colocar no lugar e se importar com o outro. Por isso, mesmo quem não necessariamente está envolvido com essas situações sofre à distância. Não tem como ficar alheio quando se sente a empatia. Assim, é preciso se permitir sentir, ficar triste e elaborar isso, deixando o tempo agir. Não adianta parar de consumir notícias sobre o fato, pois isso deixará um sentimento de algo não resolvido. E quanto mais empatia houver, mais as histórias vão mexer conosco. É inerente ao ser humano valorizar o que é negativo, como forma de proteção. Por isso é preciso pensar que mesmo em tragédias, como nas enchentes em que famílias perdem tudo, existem coisas boas, já que quase que automaticamente muitas pessoas se unem para doar e prestar assistência.

Como ajudar quem sofreu diretamente, seja com a morte de um ente querido ou presenciando um ato de violência, como o que aconteceu na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano?

Não se pode comparar sofrimento, porque dor não se mede, mas como foi um ato muito violento, além da família que perdeu as crianças, os colegas que estava lá naquele momento ficaram traumatizados, com a sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. Como tudo é muito tênue, no momento que acontece o trauma nem a própria pessoa consegue definir o que está sentindo. Ela pode sentir alívio por estar viva, mas também pode sentir um medo horroroso. Então é preciso deixá-la, mesmo que conte a história muitas vezes, e também respeitar o momento de luto, que pode se resolver rápido, em seis meses ou em anos.

Traumas do passado também podem influenciar na saúde mental?

Existem algumas fobias que parecem não ter razão muito lógica, e elas normalmente tem ligação com memória emocional com algum objeto que aconteceu quando mais jovem. Isso é muito mais terapêutico, na área da psicologia, mas posso dizer que influenciam sim. Às vezes a pessoa não lembra o fato em si, mas a memória emocional é muito forte e alguma coisa que ela vê, cheira, toca ou sente remete ao momento, recriando a mesma emoção. Nessas situações o tratamento consiste em ressignificar o sentimento e a visão em relação a esta emoção, devolvendo a alegria de viver ao paciente, assim como na depressão.

Falando em depressão, ela pode ser invisível, aparentemente sem sintomas. Como perceber os sinais dessa doença?

Realmente, se você não for da área da saúde mental talvez não consiga identificar o que é momento da pessoa e o que é doença. Todo ser humano sente tristeza, ela é natural e há momentos em que acontece. Então a grande dificuldade é saber diferenciar a tristeza, que o tempo vai elaborar, e a depressão, que é diferente e não melhora só com o passar dos dias.

Então você crê que a depressão seja o “o mal do século”?

Ha estudos dizendo isso sim, que o número de casos de depressão aumenta muito e provavelmente ela será a doença deste século. Acredito que exista um conjunto de fatores para isso: as pessoas conhecem mais sobre o assunto, a psiquiatria está deixando de ser tão obscura e as pessoas estão se conhecendo mais, percebendo que precisam de ajuda mais cedo. Nós vivemos num nível de stress aumentado por conta da insegurança, acúmulo de tarefas e responsabilidades e rigidez de horários, o que gera frustração e faz com que as doenças da saúde mental aumentem.

Existem sinais para que os familiares possam identificar essas doenças?

Tem alguns sinais de gravidade, e as pessoas que estão do lado podem perceber isso. Quando alguém começa a se limitar muito, não fazer mais as atividades que gostava de fazer, não ter prazer em trabalhar, é o momento de procurar ajuda. Quando essas coisas acontecem, não se trata de uma simples ansiedade ou tristeza, é algo que está realmente machucando, impedindo que a vida seja realmente plena. Então esse é um sinal de que a pessoa precisa procurar ajuda, com um psicólogo ou psiquiatra. De qualquer forma, o diálogo tem que existir em todas as relações, pois é preciso conhecer aquele indivíduo quando ele está bem para saber quando há algo errado.

Qual a diferença entre o trabalho do psiquiatra e do psicólogo?

A psiquiatria é a especialidade da medicina que cuida da saúde mental, que cuida do emocional, da saúde do pensamento. A diferença destas áreas é que o psiquiatra orienta o diagnóstico, prescreve e conduz medicação, enquanto o psicólogo faz a parte terapêutica. Por isso o ideal é que os trabalhos sejam complementares, culminando num tratamento mais completo para o paciente.

E como é este diagnóstico?

Isso depende muito. A psiquiatria não é tão matemática, e o diagnóstico vem com a conversa. Não há maneira de tratar o paciente sem diálogo, escutando o que ele tem para dizer. Não existe um exame que mostra como está a parte emocional, então é preciso ter a paciência de ouvir. As doenças mentais, como o transtorno de ansiedade e depressão, se confundem e se misturam. Num primeiro momento o quadro pode parecer uma coisa, mas às vezes, ao longo das consultas, fica claro que há outras situações simultâneas. Por isso a avaliação precisa de tempo, até mesmo porque em muitos casos a própria pessoa não sabe o que está sentindo. Ela pode até saber que tem algo errado, um sofrimento, mas é papel do psiquiatra ir investigando, descobrindo.

Quem procura seus serviços?

Há pessoas que percebem a necessidade de tratamento, sabem que tem alguma coisa errada atrapalhando o dia a dia, não sentem mais o mesmo prazer de fazer as coisas que gostam, ou então se estressam muito, não aproveitando a vida tão bem, e aí me procuram. Mas como o autoconhecimento é muito difícil também há casos em que é a família que percebe. E ainda há quem procure o psicólogo primeiro e este me encaminha, pois ainda há um certo olhar de estranheza para com a psiquiatria.

As pessoas se abrem logo na primeira consulta ou há receio em desabafar?

Há um certo receio sim. Não é tão simples falar do que se está sentindo, e isso é uma proteção, uma defesa. A gente sabe que há esse bloqueio, que as pessoas não vão chegar se expondo completamente, e é aí que começa o trabalho da consulta, de conseguir a confiança, que o paciente pode se abrir e que estamos está ali para ajudar.

Como estabelecer essa relação de confiança?

Isso é muito individual. Não há uma técnica específica que seja igual para todos. Precisamos primeiro conhecer a pessoa, para saber qual a melhor forma para ela ficar à vontade de abordar o que precisa. Cada consulta é diferente. Eu normalmente tento fazer com que a pessoa fale, e fale o que quiser, conte o que precisar contar, porque é nesse discurso mais livre que ela vai me apontar onde estão os erros e o sofrimento. Mas ao mesmo tempo em que existem pessoas muito ansiosas para falar, tem aqueles que precisam ser mais conduzidos. Resumindo, depende do medo, do receio, mas sempre existe um sigilo profissional automático que auxilia na construção da confiança.

Quais são as principais questões dos seus pacientes?

A depressão e os transtornos depressivos estão comuns nos adultos, e talvez as pessoas estejam percebendo eles mais cedo, trazendo isso com mais facilidade para o tratamento. Também são corriqueiros os transtornos compulsivos e de ansiedade, como a síndrome do pânico, que envolve medos e inseguranças. Atualmente vivemos em meio à inseguranças, o que acaba machucando e gerando muitas doenças relacionadas ao humor. Já nas crianças aparece a hiperatividade e nos idosos as demências.

Há quem defenda que todos deveriam fazer terapias e tratamentos com psicólogos e psiquiatras. Você concorda com isso?

Sim. Acredito que, da mesma forma que todos devem fazer exercícios físicos e cuidar do corpo, também é preciso ter cuidado com as emoções e os pensamentos. Mesmo que a pessoa não tenha traumas, depressão, transtornos ou síndromes ela pode cuidar do que pensa desabafando e conhecendo ferramentas para reagir às diferentes situações que a vida apresenta. Ou seja, é interessante se prevenir para lidar com a pressão diária sem adoecer.