ARTIGO

O escândalo do dia

João Anatalino Rodrigues

Há momentos em que nossa visão fica tomada por um grande escotoma. As coisas que estão debaixo do nosso nariz somem de vista. Todos os mamíferos têm determinados “pontos cegos” em seu campo visual. São anomalias da retina que acontecem em razão de algum problema com o nervo ótico. Alguns são psicológicos. Em psicologia, escotomas acontecem quando somos submetidos a estados estressantes. É uma mancha que se interpõe no nosso sistema visual e nos impede de ver o que está na frente dos nossos olhos. Isso já aconteceu comigo. Entrei apressado em casa, joguei a chave do carro em cima da mesa da cozinha. Tinha que sair imediatamente para cuidar de outro assunto, e estava atrasado. Mas cadê a danada da chave? Revirei a casa inteira à procura dela e nada. Aí minha mulher me disse: “ Não são essas que estão em cima da mesa?” Eu estava olhando justamente para a dita mesa. “Puxa vida,” disse ela. “ Se fosse uma cobra …”

Uma coisa puxa a outra. O mundo em que vivemos é um verdadeiro caleidoscópio, que muda de cor e forma a todo instante. Se não aprendermos a ver essas mudanças, e mais que isso, a senti-las, ficaremos como aquele personagem do João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina, que em dado momento se sentiu um homem acompanhando o próprio enterro.

A crise política, econômica e moral que estamos vivendo tomou conta do noticiário de uma forma tal, que parece que nada mais está acontecendo no mundo. A gente abre os jornais se perguntando: qual será o escândalo do dia? No entanto, em que época, no nosso país, isso foi diferente?

Geralmente é a minha mulher que costuma limpar os escotomas psicológicos que a mídia coloca nos meus olhos. Ontem eu estava vendo o jornal da noite na TV quando ela perguntou: “Você não cansa de ver as mesmas notícias o dia inteiro?”
Foi então que desliguei a televisão e comecei a ler um livro que estava na cabeceira da minha cama, esperando, há bastante tempo, pela minha atenção. Não sei se isso tem a ver, mas acordei em excelente estado de humor. Acho que vou viajar.

Como disse, certa vez, um poeta: “vi, com olhares novos as coisas velhas, e um mundo que estava morto, ressuscitou perante os meus olhos”. E se quer que as coisas mudem, que tal começar pelos próprios hábitos?

João Anatalino Rodrigues é escritor e advogado