ARTIGO

O homem que não vendeu a sua alma

João Anatalino Rodrigues

Thomas More foi um grande filósofo da Renascença e autor do livro Utopia, no qual critica as desigualdades sociais e os regimes políticos que as perpetuam (na sua opinião, os regimes despóticos, conduzidos por uma elite indiferente e perdulária que usa a força do Estado somente para benefício próprio). Ocupou o cargo de chanceler no reinado de Henrique VIII (o que teve oito esposas), entre 1529 a 1532, equivalente hoje ao de primeiro ministro. Católico convicto, brigou com o rei porque recusou-se a aprovar a separação da igreja da Inglaterra do Vaticano. E negou apoio à pretensão do rei de divorciar-se de Catarina de Aragão, para casar-se com Ana Bolena. Em consequência foi preso, condenado à morte,e depois virou santo em 1932. Essa história foi contada no premiado filme “O Homem que não vendeu sua alma”.

Longe de mim querer comparar o presidente Bolsonaro com o rei Henrique VIII e o ex-ministro Sérgio Moro com o chanceler Thomás More. Mas que há paralelos, isso há. Bolsonaro sonha com a volta da ditadura militar. Absolutismo puro. Se alguém duvida que essa lambança que ele está fazendo tem como objetivo encaminhar alguma coisa nesse sentido, então pode começar a desconfiar. Inclusive essa de colocar-se na contramão dos que recomendam isolamento social para combater a Covid-19.

Já o ex-juiz e ministro Moro, (até o nome lembra o filósofo inglês), embora não seja exatamente um humanista como ele, mostrou que tem lá os seus princípios. Podemos até suspeitar das suas motivações, já que ele parece ter um ego maior que suas próprias ambições. E, de fato, ele nunca negou que seu sonho era ser ministro do STF.

Já se disse que Deus foi tão sábio que não colocou duas estrelas no mesmo sistema para que uma não ofuscasse a outra. Moro e Bolsonaro jamais dariam certo juntos. Ambos são vaidosos demais para dividir poder. Ainda bem que, cá no nosso caso, Bolsonaro nunca vai conseguir ser o ditador que gostaria de ser. E nem Sérgio Moro vai virar santo. Shakespeare não escreveu isso, mas que essa história mostra que tem muita coisa podre no reino do Planalto, isso tem.

João Anatalino Rodrigues é escritor e presidente da Apae


Deixe seu comentário