SANDRO SÉRGIO MUNIZ

O implante que quebra o silêncio

Sandro Sérgio Muniz da Silva. (Foto: Eisner Soares)
Sandro Sérgio Muniz da Silva. (Foto: Eisner Soares)

Médico otorrinolaringologista formado pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Sandro Sérgio Muniz da Silva é especialista em cirurgias de ouvido, principalmente as que devolvem ou restauram a audição dos pacientes. Um destes procedimentos é o implante coclear, que consiste num equipamento interno e outro externo, indicado para pessoas totalmente surdas. Sandro considera este um trabalho emocionante e se dedica inclusive a congressos no exterior sobre o tema, como um realizado em Zurique, na Suíça, no final de julho. A O Diário, além de explicar o funcionamento do implante, ele traça um panorama sobre os problemas mais comuns relacionados ao aparelho auditivo.

O que é o implante coclear?

É o assunto pelo qual as pessoas mais se interessam. Embora não posso dizer que seja uma novidade, pois existe há mais de 20 anos, ultimamente tem evoluído muito a qualidade deste equipamento. Os primeiros eram rudimentares: as pessoas eram capazes de ouvir barulhos mas não conseguiam entender uma frase. Hoje em dia se desenvolveu tanto que dá uma acuidade auditiva que torna possível conversar com um usuário do implante sem saber que ele era surdo.

Como este procedimento funciona tecnicamente?

A cóclea é o ouvido interno, parece um caracolzinho, onde estão as células auditivas. Coloca-se ali um eletrodo, e para chegar neste ponto é preciso de uma cirurgia feita a partir de um corte atrás da orelha, acompanhando mais ou menos o desenho do cabelo. Para isso utiliza-se brocas que entram cinco centímetros no crânio, passando perto de estruturas nobres, como a meninge e os nervos da faces, fazendo com que poucos otorrinos se aventurem a fazer este procedimento. Depois da cirurgia, na parte acima da orelha, entre a pele e o osso do crânio, fica como se fosse uma moeda, só que com espessura um pouco mais grossa. O paciente fica um mês com o aparelho desligado e só depois deste prazo é colocada a parte externa, que parece um aparelho auditivo convencional só que um pouco maior.

Como é a programação deste equipamento?

Em todos os casos, principalmente para crianças que nunca ouviram, os fonoaudiólogos são de extrema importância. São necessárias várias sessões de fono e o volume vai aumentando até chegar ao nível do som ambiente, num processo muito emocionante. O médico é só mais um componente da equipe que tem até psicólogos para lidar com as expectativas do paciente.

E o que é a otorrinolaringologia?

O nome “otorrinolaringologia” vem de doenças do ouvido, nariz e garganta, ou seja, é uma especialização que envolve tudo o que está relacionado a estas três estruturas ligadas entre si pelo mesmo tipo de mucosa. Dentro de cada uma destas partes a medicina se desenvolve tanto que é necessário se super especializar. Um médico desta área está apto a atender problemas de todos os tipos, mas existem certos procedimentos que passamos para colegas que tem mais experiência específica.

Qual sua especialidade?

Gosto mais do ouvido e faço muitas cirurgias relacionadas a parte respiratória, como para sanar o ronco, tanto para crianças como para adultos. A princípio o objetivo é tratar os sintomas, e depois disso procura-se pela origem da queixa. Para a parte respiratória existe um exame interessante que nos permite descobrir muito: uma câmera que enxerga dentro do nariz; e na otologia, os fonoaudiólogos fazem testes auditivos.

A questão do ronco é recorrente em todas as idades?

Sim, o ronco é um problema seríssimo, porque quem não respira bem não dorme bem, não se desenvolve bem, então há uma série de fatores que vêm na sequência. No caso dos adultos quem costuma vir reclamar vem reclamar é o companheiro(a), dizendo que a pessoa para de respirar a com a apneia, que é um agravamento do ronco.

Que outras questões respiratórias acometem o público infantil?

Normalmente problemas relacionados à adenoide, que é a carne esponjosa e provoca o ronco e sinusites. Mas há também problemas de ouvido e infecções. Ainda sobre respiração, crianças com 2 ou 3 anos e estão sempre com a boquinha aberta, com carinha ingênua, podem estar com problemas para respirar, o que pode prejudicar a dentição e até o crescimento, pela falha na oxigenação.

Então a dificuldade de respirar é recorrente em seus pacientes?

Sim. Às vezes tem um adulto que não ronca, mas pratica esport, e relata sentir que o nariz o está limitando. O nariz tem uma função, o ar tem que entrar por ele, e além de filtrado, é aquecido e umidificado para que chegue em condições ideais no pulmão, para haver trocas gasosas. Se o ar vai direto pela boca, além de ressecar e provocar inflamações na garganta, não vai chegar nas condições ideais, então quem estiver praticando algum esporte vai sentir diferença de rendimento.

E quais são as principais reclamações relacionadas aos ouvidos?

Dor de ouvido e queixas que podem parecer mais bobas, como excesso de cera de ouvido, que na verdade é coisa séria e acaba atrapalhando todo o equilíbrio da pessoa, e torna difícil até a tarefa de dirigir. Crianças costumam ter muita dor de ouvido, principalmente depois de gripes mal resolvidas, e há várias pessoas com perda auditiva, inclusive aqueles que ouviam bem na infância e foram perdendo esta capacidade ao longo da vida. Ainda há quem reclame de zumbidos ou labirintite e muitas outras situações.

O que leva à perda da audição?

Muitas vezes a perda de audição é causada por problemas infecciosos, como os que podem causar uma perfuração no tímpano fazendo com que ele não feche mais, chamados de otites crônicas, mas são muitas causas. Em casos que a criança nasce sem ouvir pode haver influência do uso indiscriminado de antibióticos na maternidade, doenças que a mãe teve durante a gravidez, como sarampo e rubéola e citomegalovírus. Também podem ocorrer infecções depois que a criança nasce, como a meningite, que também acomete adultos.

Fatores externos, como exposição ao som de fones de ouvido, também são prejudiciais?

Temos visto muitas crianças e adolescentes começarem a perder a audição por causa do uso indiscriminado de fones de ouvido. Apesar de se ouvir o som em volume alto, quando se usa o fone desta maneira as pessoas ao redor nem sempre estão sabendo, pois só o usuário está ouvindo. É um problema que os médicos têm frisado bastante, pedido para mães e pais policiarem os filhos. Recomendo aos meus pacientes que gostam de ouvir música para jogar videogame, por exemplo, que coloquem no som aberto. Prefiro que incomodem os pais mas que não se prejudiquem.

Existem casos extremos relacionados a isto?

Já tive pacientes de 17 anos que chegaram praticamente surdos em meu consultório, e já estavam aptos para o implante coclear, indicado basicamente para casos de surdez total. O conselho que eu dou para quem usa é, primeiro colocar no volume médio, e além da intensidade há também a questão da quantidade de horas que a pessoa é exposta ao ruído.

De modo geral, é importante que o diagnóstico relacionado aos ouvidos seja feito precocemente?

Sim, o quanto antes. Em adultos as vezes é até mais fácil fazer o procedimento, porque tudo é maior e o cérebro dele já foi alimentado com informações auditivas, mas como na criança o cortex auditivo não foi desenvolvido, pede-se que o implante seja feito até os cinco anos de idade.

Você esteve recentemente num congresso em Zurique, na Suíça. Como foi essa experiência?

Foi a quarta vez que estive lá. Foram dois cursos em um: cirurgia de ouvido e base de crânio da Escola Fische, da qual sou representante no Brasil. Na parte de ouvido fui palestrante e preceptor, orientando médicos que vinham de toda a Europa, dos Estados Unidos, da China e da Índia. E na parte da base de crânio participei como aluno.

O que traz destas experiências no exterior?

Trago técnicas, inovações e equipamentos. A tendência é o desenvolvimento de próteses novas, porque fora o implante coclear, que é indicado para totalmente surdos, existem outros tipos para pessoas com audição parcial.

E o que leva do Brasil?

A criatividade do brasileiro em tentar fazer a mesma técnica, a mesma cirurgia, mas sem os equipamentos que se tem por lá. Pediram para pausar minha palestra para explicar sobre a gaze, pois na Suíça se utiliza uma que se parece com uma bolinha, e por aqui, como não temos este modelo, recortamos as normais e mantemos os resultados. Lá fora muitas vezes se cancelam as cirurgias por falta de materiais específicos, e aqui dificilmente isso acontece, claro que sempre considerando a segurança da cirurgia.

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