CIRCUITO

O médico André Pessanha explica como cuidar da pele e evitar o câncer

André Pessanha. (Foto: Eisner Soares)
André Pessanha. (Foto: Eisner Soares)

Para o médico dermatologista André Pessanha, “o sol não é um inimigo”, mas “há um limite tênue entre os benefícios e os malefícios dele”. Também professor universitário e coordenador da campanha Dezembro Laranja da Policlínica da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), ele explica, nesta entrevista, quais são os tipos de câncer de pele e seus respectivos tratamentos, além de definir os principais cuidados que deve-se ter em relação ao maior órgão do corpo humano.

Quais as principais recomendações de cuidados com a pele?

Antes de ir ao médico dermatologista, o que deve ser feito pelo menos uma vez ao ano, o cuidado começa em casa. A pessoa precisa estar atenta a lesões, e para tanto será necessário fazer um acordo com quem mora com ela, para verificar a presença de pintas em partes “escondidas” do corpo, como o couro cabeludo, áreas genitais e região do dorso. Quem tem muitas pintas merecem cuidado especial, ou seja, procurar o médico dermatologista com mais frequência para fazer exames de rotina e verificar o histórico familiar, com possibilidade de realizar até um mapeamento corporal. Também é preciso ficar atento a lesões que não cicatrizam, como algumas vermelhinhas e que descamam, principalmente em idosos.

Além do autoexame, ou seja, conhecer o próprio corpo, o que mais pode ser feito?

É muito importante pontuar que o sol não é um inimigo, mas que há um limite tênue entre os benefícios e os malefícios dele, e que por isso, assim como tudo na vida, temos que atingir o meio termo. Para as pessoas de risco, com muitas pintas, o sol tem que ser evitado. Mas não totalmente evitado, porque 90% da vitamina D advém da exposição solar e não adianta achar que a reposição vai suprir essa grande fonte natural. O sol tem picos de incidência, e o índice de raios ultravioleta fica altíssimo entre 10 e 16 horas, período muito crítico e que deve ser evitado para atividades recreativas e esportivas mesmo em dias mais cinzas.

O protetor solar é um aliado?

Sim. O uso do filtro/protetor solar é muito importante neste processo de prevenção, até porque um dos malefícios do sol em excesso é o envelhecimento precoce da pele, com aumento de rugas, flacidez cutânea e surgimento de manchas, fatores muitas vezes irreversíveis mesmo com os tratamentos disponíveis.

Na prateleira dos supermercados e farmácias há vários tipos de protetores. Qual escolher?

O filtro solar, hoje em dia, é um produto com muitos valores agregados, e por isso há grande variação de preço, a depender da marca e se tem algum aditivo, como base, maquiagem, antioxidante ou fator de proteção mais alto. Isso deve ser escolhido de forma bem particular. Por exemplo, se a pessoa for para uma praia ou atividade física ao ar livre, recomendo o uso de fator de proteção maior, porque nem sempre a gente consegue passar com 100% de precisão em toda a superfície corporal. E o que se recomenda, de modo geral, é repassar o produto a cada duas horas.

O que é a campanha Dezembro Laranja?

Há muitos anos existe uma campanha nacional de atendimento de prevenção ao câncer de pele, que é realizada em um sábado por ano, geralmente em novembro ou dezembro. Hoje ligada ao nome Dezembro Laranja, a ação é organizada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia e é delegada para os distritos da sociedade, como Mogi, onde realizamos as atividades na Policlínica da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) no último dia 8, das 9 as 15 horas.

Quem pode participar desta ação?

A campanha tem portas abertas para qualquer pessoa que tenha lesão suspeita de câncer de pele, que a grosso modo é dividido em melanoma e não melanoma. O melanoma é aquele que se assemelha a uma pinta, e o não melanoma, que é a maior parte dos cânceres, não tem nenhuma similaridade com pintas. São lesões crônicas, então apresentam padrões diferentes.

A campanha prevê outras atividades?

Assim como outras campanhas de câncer, como Outubro Rosa e Novembro Azul, o Dezembro Laranja, com o advento das mídias sociais, faz um trabalho bem amplo para divulgar informação para a população em relação as lesões suspeitas de câncer de pele e medidas preventivas. Nessa época, os dermatologistas divulgam dados oficiais que inclusive podem ser encontrados na plataforma Dezembro Laranja, disponível gratuitamente pela internet.

Como foi o atendimento na Policlínica?

O sábado foi muito produtivo. Nesse ano fizemos diferente, porque pudemos promover procedimentos no próprio dia, como biópsias e algumas cirurgias um pouco maiores. No ano passado tivemos cerca de 150 atendimentos, e agora foram 240 aproximadamente. Ao todo foram 63 procedimentos, e foi possível assimilar todos os casos cirúrgicos.

Quais as diferenças entre os tumores?

Tumor benigno é qualquer lesão na pele que praticamente qualquer pessoa vai ter com o passar do tempo, que tem uma organização das suas células, e geralmente é circunscrita, bem delimitada, tem contorno regular. Já uma lesão maligna, que já é um câncer de pele, é um crescimento desordenado das células, que já perderam totalmente sua característica em relação a normalidade e podem ter crescimento indefinido para estruturas mais profundas, como gordura, músculo, osso e até mesmo a corrente sanguínea.

Quais são os tipos de câncer de pele?

O câncer de pele tem basicamente três tipos: o melanoma, o carcinoma espinocelular e o carcinoma basocelular. Há diferenças epidemiológica entre eles e também de prognóstico, que é o que se espera em termos de cura e sobrevida para o paciente. O melanoma tende a ter pior prognóstico do que os outros, isso em termos de vida, risco de morrer, o que é praticamente nulo no basocelular e surge apenas em alguns casos no espinocelular.

Que fatores levam uma pessoa a ter essas doenças?

Em relação ao melanoma, têm mais risco pessoas com múltiplas pintas, de pele, olhos e cabelos claros, e também quem já teve história na família, principalmente em parentes de primeiro grau. Mas como na medicina tudo é multifatorial, o ambiente e o histórico de queimaduras solares também influenciam, assim como pessoas negras e asiáticas também tem maior risco genético.

Já em relação ao grupo não melanoma, ou seja, os outros dois tipos, o fator solar tem muita importância, já que o tumor geralmente aparece área exposta luz solar, como face, antebraço, parte superior das costas, pés e tornozelos. Ou seja, nestes casos o sol ao longo da vida é o maior fator de risco, até mesmo para pessoas de pele escura.

Qual é a chance de cura?

A gente tem que definir, em relação a cura, a extirpação completa do tumor no organismo. 90% dos casos conseguem tratamento no âmbito ambulatorial, e somente de 5 a 10% dos casos vão precisar de atendimento multidisciplinar, com oncologista e eventualmente cirurgia oncológica.

Como são os tratamentos?

No carcinoma basocelular, o tratamento é eminentemente cirúrgico com margem de segurança. No espinocelular os métodos são muito parecidos com o anterior, mas este tem um espectro de casos intermediários a potencialmente graves, inclusive ameaçando a vida do portador por devido a metástases, então pode se fazer radioterapia e quimioterapia, mas somente em 10% dos casos. E no melanoma, o comportamento biológico é bem diferente e o tratamento vai depender do grau de invasão tumor, sendo a imunoterapia uma opção.

Em quais idades as pessoas são mais acometidas por este tipo de doença?

Embora seja muito raro em crianças, o câncer de pele pode acometer desde o nascimento até o último ano de vida da pessoa. O melanoma acomete mais pessoas numa idade intermediária, dos 30 até os 60 anos, enquanto o não melanoma segue progressão linear de acordo com a idade: quanto maior idade maior o risco para se ter. Mas é preciso ficar alerta, pois estudos mostram que o carcinoma basocelular tem surgido cada vez com mais frequência em jovens adultos.


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