EDITORIAL

O melhor de Mogi

É no período de baixas temperaturas que aflora mais o sentimento de compaixão com a população de rua, um complexo drama social que nos outros períodos do ano faz nascer o oposto disso: a violência, a repressão, a indiferença e o preconceito.

Nas últimas semanas, uma olhada nos pertences desses moradores atesta a troca dos velhos por novos cobertores. É o sinal do que Mogi tem de melhor. Além da atuação de entidades não-governamentais e religiosas (a maioria delas), muitas pessoas em ações isoladas trocam o conforto do quarto aquecido pela dureza da rua, e levam agasalhos e alimento aos moradores que resistem aos abrigos e albergues mesmo com tanto frio.

Melhor mensurado em municípios como Mogi das Cruzes, que conseguiu criar uma rede mais estruturada do que a maioria dos demais, o aumento da população de rua mede o tamanho da exclusão social brasileira, de responsabilidade do estado, e a perda do fôlego de outras instituições, como a família e a sociedade civil organizada.

No meio desses hiatos, estão cidadãos deserdados em vida de pais, filhos e irmãos, e do poder público. São respostas lentas dadas pelo estado a essa demanda. Em breve, o governo brasileiro está prestes a perder uma oportunidade de peso. Pode ficar de fora do Censo 2010, a contagem de quem vive nas ruas. Os últimos levantamentos foram feitos em 2006, em 71 cidades, pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, e em 2016 pelo IPEA, em 1.924 cidades brasileiras.

O que se sabe: está na rua quem é pobre (há uma menor parte formada por pessoas classe alta) e não teve e nem tem acesso aos serviços públicos das áreas da saúde, educação, emprego e segurança pública. Muitos sequer têm documentos. Há pessoas com problemas mentais, dependentes químicos, desempregados.

No inverno que o fortalecimento dos serviços destinados à pessoa em situação de rua (Centro POP, CapsAD, e a profissionalização da Secretaria Municipal de Assistência Social) faz diferente no combate à prevenção à morte que mais comove. A morte no frio, no desabrigo de um teto.

Mogi se tornou referência entre as cidades do Alto Tietê. Esse é um ponto favorável para a cidade porque sustenta, em grande medida, outro diferencial de peso: a rede solidária e voluntária que acolhe quem está vivendo nas ruas. Os resultados não são suficientes, como o restante do ano nos mostra. Mas, há centenas de pessoas que trabalham nessas duas pontas, na Prefeitura e em obras sociais, para aquecer o inverno de Mogi. No melhor dos sentidos.