O ônibus parou

Você está numa rodoviária. Há duas opções de ônibus para o seu destino. Você escolhe uma delas, compra a passagem e embarca. No início da viagem, tudo corre aparentemente bem. De repente, o motorista começa a dirigir de forma completamente desordenada. Acelera onde deveria frear. Freia onde deveria acelerar. Entra em velocidade acima do permitido, ultrapassa em locais proibidos e coloca em risco a vida de todos. Uma parte do ônibus começa a reclamar. A outra reage, defendendo o motorista, que o cara é legal e foi contratado para tal, logo quem está ali tem que aceitar o fato e calar-se. Percebendo o calor da discussão e o fato de haver gente no ônibus que o defende, o motorista sente-se ainda mais confortável em suas barbeiragens. E aumenta a dose. A metade que está desconfortável grita e diz que vai parar o ônibus, para que outra pessoa assuma o volante, até que se chegue com um mínimo de segurança até o próximo ponto. Lá todos decidirão o que fazer. Entre os passageiros, há um outro motorista da mesma empresa, de carona. Ele está com a habilitação vencida, soma vários pontos na carteira, porém ali, naquele momento crítico, ele é quem pode dirigir o ônibus. Já escureceu e o lugar onde você está parado, além de ermo, começa a tornar-se perigoso.Ninguém é idiota de acreditar que o segundo motorista é uma opção saudável. Trata-se da menos pior, talvez a única por hora. É o que tem pra janta. É o suficiente para fazer o ônibus chegar na próxima rodoviária, porque não dá pra construir uma rodoviária ali, do nada, para tornar o caminho mais curto ou esperar algum outro passageiro fazer um curso.
A outra opção é ficar ali, parado na beira da estrada, enfrentando toda sorte de crise: fome, frio, doença, chuva, falta de segurança e o que derivar disso, apenas para não ferir o orgulho da opção feita lá atrás, ainda na rodoviária. Não trata-se mais de orgulho, por gostar da cor do ônibus ou por ser simpático ao motorista. Trata-se de fazer com que o ônibus chegue. Apenas isso. Entendeu porquê impeachment não é golpe?
O ônibus já parou, a crise é realidade e, nela, quem pode menos, vai chorar mais. A escolha é sua. A escolha é nossa.

Eduardo Zugaib é escritor e palestrante


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