'PEDAGOGIA DO PALHAÇO'

O palhaço educador conquista ‘plateias’

Marco Guerra protagoniza o espetáculo 'Circo de Brinquedo do Palhaço Melancólico'. (Foto: Divulgação)
Marco Guerra protagoniza o espetáculo ‘Circo de Brinquedo do Palhaço Melancólico’. (Foto: Divulgação)

Ator, agitador cultural, professor, arte-educador, palhaço. Principalmente palhaço. Nascido em Santa Catarina, mas criado em solo mogiano, Marco Guerra trabalhou em locais de alta vulnerabilidade social e desenvolveu a própria metodologia de trabalho, a ‘Pedagogia do Palhaço’. A partir dela, criou dinâmicas e espetáculos como o ‘Circo de Brinquedo do Palhaço Melancólico’, financiado pelo Programa de Fomento à Arte e Cultura de Mogi das Cruzes (Profac) em 2018 e que voltou a ser encenado na cidade no começo deste ano, pela 9ª Mostra de Teatro – Tablado. Agora, as experiências e vivências de Marco o permitem mergulhar num novo projeto, também possibilitado pelo Profac, que deve acontecer em janeiro próximo.

Antes de explicar a novidade, porém, é interessante conhecer a trajetória de seu idealizador, que se envolveu com arte aos 13 anos, num curso que fez durante a escola. Aliás, Marco não se adaptava a este ambiente e o deixou, se formando no Ensino Médio somente 17 anos mais tarde. Nessa época já era ator profissional e buscava aparecer na TV, seja em propagandas ou em novelas.

Como o próprio conta, a visão que ele tinha da arte era mais voltada para o lado comercial, até que participou do Centro de Pesquisa Teatral do Sesc (CPT) e teve os olhos abertos para “a função social da arte e o papel do artista na sociedade”. Isso foi no ano de 2000. “Desde então segui como artista educador”, lembra.

Nessa empreitada, Marco conseguiu um emprego numa casa de cultura numa área de vulnerabilidade onde “sofria um bocado” com a “violência e a indisciplina”. O trabalho com crianças e adolescentes, no entanto, o encantou. Para enfrentar os desafios, começou, ainda que não soubesse que estava fazendo isso, a criar a metodologia que logo mais viria a ser chamada de ‘Pedagogia do Palhaço’.

“Descobri que o que faltava nos professores era autoridade moral, e não autoridade autoritária. E desenvolvi uma técnica que consiste em utilizar elementos do palhaço para me comunicar melhor”, explica. Vale lembrar que a estratégia não acompanha a vestimenta, o nariz ou a maquiagem de palhaço. Somente o “jogo, o riso, o jeito de se mexer, o corpo jogador”, que o permitiam não se desgastar e estressar, já que estava utilizando um “alter ego” em classe.

Após dois anos nesta instituição o “mogiano” foi para outro endereço, que assim como o CPT provocou mudanças profundas em sua vida. Entre 2005 e 2006 atuou numa unidade da antiga Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem), hoje Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente).

Quando aceitou o novo emprego, Marco exercitava a figura do palhaço como o “amigo imaginário de cada um, um ‘eu’ mais inteligente, que dá conselhos”. Só que os jovens da Febem não acreditaram nisso e riram do conceito. A saída foi “esquecer a teoria” e “partir para a prática”.

De acordo com o arte-educador, em poucos meses de atividades já se podia ouvir frases como “me explica o que acontece comigo, porque quando me maqueio, me transformo” e “quero dormir com a maquiagem”, faladas por crianças e adolescentes antes tratados exclusivamente como marginais.

“Com isso, descobri que eu tinha que fazer pedagogia. Fui para outros lugares, pelo menos 30 bairros de São Paulo, e estudei muito”, conta Marco, que em 2007 passou no vestibular da área desejada na Universidade de São Paulo (USP). Mais do que se formar em seis anos, ele fez uma iniciação científica, e aí começava a surgir o primeiro esboço de uma metodologia antes testada na prática.

Quando iniciou o mestrado na USP, em 2013, o conteúdo teórico já estava amadurecido, e o título ‘Pedagogia do Palhaço’ já havia surgido. Foi preciso, no entanto, “esmiuçar” a ideia, o que continua a acontecer ainda em 2019, quando um recorte da temática passou a ser abordado no doutorado de Marco: “O arquétipo da sombra, a arte, e a educação de jovens em situação de privação de liberdade: introdução a uma vida não violenta”.

Projetos ligam educação e arte
Além de pesquisador pela USP e pelo próprio grupo deste gênero, o Circolo Livre de Atuadores, que se reúne toda terça-feira em São Paulo, o arte-educador Marco Guerra, 46, se mantém ativo como ator, e em paralelo aos trabalhos solo faz parte de dois coletivos: o Núcleo de Circo do Laboratório Experimental de Arte, Educação e Cultura da USP e o CircUSP (Coletivo Coletivo Interdisciplinar de Pesquisas Circenses da USP), do qual é fundador.

A pesquisa de Marco sobre a relação dos palhaços com a educação tem sido fundamental para a carreira de ator, e vice-versa. Exemplo disso é o espetáculo ‘Circo de Brinquedo do Palhaço Melancólico’, cujo protagonista fez mogianos chorarem em vez de rirem, em junho do ano passado. “Solitário, Calvero tem muita ausência, de pessoas que já se foram, e isso é manifestado por meio dos brinquedos, que vão revelando o que aconteceu. Assim, quem está assistindo revisita a própria história, e se emociona com as metáforas do texto, que é interpretativo e mexe com o imaginário”, explica o criador da peça.

Tudo isso foi apresentado a céu aberto, com vários workshops e oficinas para completar a imersão. Profundo? Sim. Diferente? Sim. E dá para ficar ainda mais? Dá. É isso o que o projeto ‘Encontro Internacional de Palhaços Educadores’ se propõe a fazer.

“Na verdade não existe essa rede de palhaços educadores. Trata-se de uma criação minha, voltada para educadores, arte-educadores e professores das redes municipal, estadual e particular”, explica. A intenção é trabalhar o conceito de arte educação, mostrando a importância deste ofício. O encontro está previsto para janeiro de 2020 e deve contar com cinco oficinas, cinco palestras e cinco mesas de debate, além de 10 espetáculos oficiais.

Marco acredita que a arte em Mogi tenha dois lados distintos. “O primeiro, são os artistas locais, que são muitos e diversificados, e o segundo tem a ver com o olhar e o investimento do poder público, que sempre foi depreciativo”. Talvez por isso ele tenha tantas atividades sociais em mente, como um programa de TV, ‘Saradolescência’, destinado ao público teen, com 30 minutos de duração e cinco quadros distintos, que ainda não tem uma plataforma ou data de estreia definida.