ALEKSANDRO MOREIRA

O papel da Igreja na sociedade

Na entrevista, o padre Aleksandro fala sobre o papel da Igreja na formação dos jovens e também a importância das ações sociais promovidas por entidades religiosas na cidade. (Foto: Eisner Soares)
Na entrevista, o padre Aleksandro fala sobre o papel da Igreja na formação dos jovens e também a importância das ações sociais promovidas por entidades religiosas na cidade. (Foto: Eisner Soares)

Ordenado padre há pouco mais de quatro anos, Aleksandro Moreira é formado não só em Filosofia e Teologia como também é pós-graduado em Libras e em Psicopedagogia. Aos 33 anos ele acumula experiências na área educacional: já coordenou a formação propedêutica no Seminário Diocesano de Mogi das Cruzes, auxiliou, a pedido do bispo dom Pedro Luiz Stringhini, na administração da faculdade Paulo VI e hoje é o responsável pela creche de sua paróquia, a São José Operário, no Mogilar, além de ser o diretor-presidente do Instituto Dona Placidina. Aleksandro também é um dos assessores eclesiásticos da Festa do Divino, cuidando da programação espiritual do evento. Toda essa bagagem o permite falar nesta entrevista sobre o papel da Igreja na formação dos jovens e também a importância das ações sociais promovidas por entidades religiosas na cidade.

Além de padre o senhor atua numa creche e também numa escola. Isso faz com que o senhor acredite na presença da Igreja na Educação?

Sim, com certeza. Seria uma oportunidade para poder ajudar o ser humano a reconhecer-se, a reconhecer os valores, poder perceber-se também como filho de Deus e notar uns aos outros como irmãos. É preciso lembrar que a religião não está fechada, e se abre para diversos assuntos. Pregamos o bem e o amor no coração, e quem busca construir a paz pode acolher as pessoas. Acreditamos na Educação como um norte. As crianças e adolescentes têm o mundo a ser explorado, tem oportunidades, vida, saúde, força, e o pai, a mãe, o político e o padre precisam estar próximos dos jovens, que são a esperança do amanhã.

O senhor diz que o padre precisa estar próximo do jovem para orientá-lo?

Sim, o padre tem esse lado orientador, e pode ajudar não só os jovens, mas todas pessoas a tomar os caminhos, sem decidir por elas, mas mostrando as opções que têm. Muitos procuram o padre em busca de conselhos sobre família e trabalho. Faz parte do lado humano de acolher, conversar e de poder mostrar a força da fé, que é o que abre os caminhos.

Essa orientação aplica-se em atentados e massacres, como o da Escola Professor Raul Brasil, em Suzano?

Nesses momentos a igreja tem o papel de acolher, orientar, profetizar e ajudar as pessoas a se compreender, apontando caminhos e buscando esperança por meio de orações. A fé torna-se até mesmo como uma voz profética, levando o ser humano a refletir, a perceber sinais que precisam de um cuidado maior, como infelizmente aconteceu em Suzano. Aliás eu sou de lá e conhecia a Marilena Umezu, coordenadora pedagógica que foi assassinada.

Ainda sobre os jovens, é difícil aproximar-se deles, considerando a presença das redes sociais?

De fato existe uma dificuldade de aproximação com os jovens pelo acesso a tantas informações, mas isso também pode ser um caminho facilitador. Muitas vezes falando no altar não conseguimos comunicar com os mais novos, mas publicando uma foto no Facebook vemos maior alcance em comentários e respostas. Aliás somos atuantes e até organizamos eventos católicos nas redes sociais.

Quando o senhor decidiu ser padre, já pensava em atuar na Educação?

Na verdade não. Eu sempre acreditei bastante na força da Educação, e hoje poder estar a frente de um serviço assim, como padre, me traz muita esperança. Além de ensinar e rezar, trabalhar com crianças e adolescentes significa ser uma referência para eles e também para os adultos, que muitas vezes esquecem suas missões como homens, mulheres, maridos, esposas, enfim, como seres humanos que devem ensinar o caminho aos jovens.

Como é o trabalho desenvolvido pela Creche São José Operário?

A creche atende 107 crianças de 4 meses a 5 anos, não só do Mogilar mas também de bairros próximos, como Rodeio e Ponte Grande. A instituição tem 33 anos, e começou como uma iniciativa dos paroquianos que queriam atender as crianças do bairro. Aos poucos o projeto foi crescendo e se tornando o que é hoje. Contamos com uma subvenção da Prefeitura, o que nos ajuda a pagar as contas e os salários dos 20 funcionários, incluindo os professores. Há uma porcentagem para manutenção, mas quando há necessidade de construir algo novo, como um cercado para o parquinho, por exemplo, precisamos arrecadar fundos. Temos seis paroquianos voluntários que nos ajudam muito também, e eu, como responsável pela creche, procuro liderar, incentivar, promover, dirigir e motivar a todos.

Sendo ligada à Igreja, qual é o diferencial da creche?

O diferencial dela é justamente ser da Igreja, pois observamos valores cristãos, e temos cuidado muito grande com tudo que se fala, com as músicas que são tocadas. Mas não é por isso que deixamos de atender aqueles não ligados à Igreja: estamos ali para servir, e inclusive atendemos pessoas carentes, não esquecendo que a creche está mais a serviço da criança do que da família, garantindo o direito dela de ter um lugar para estudar e socializar.

Que outras ações sociais a Paróquia São José Operário promove?

Temos o Cáritas, que é uma pastoral que ajuda pessoas vulneráveis, como moradores de rua e famílias que necessitam de cesta básica, roupas e mantimentos. Recebemos muitas doações e temos a alegria de distribuir, aproximar e acolher. E temos também o grupo Legião de Maria, que visita semanalmente o hospital das Clínicas Luzia de Pinho Melo, prestando assistência aos enfermos.

A Igreja mantém outras atividades sociais em Mogi?

Sim, há muitos trabalhos, como o asilo São Vicente de Paulo, a Casa de Assis, que acolhe moradores de rua, a fraternidade O Caminho, que também assiste as pessoas, as ações envolvendo dependentes químicos como as realizadas pela Casa Nossa Senhora Rosa Mística, o orfanato Casa São Lourenço, em Taiaçupeba, e o Instituto Dona Placidina, que concede muitas bolsas anualmente.

Estes trabalhos fazem parte da missão religiosa?

Não só faz parte como de fato torna a Igreja uma casa de irmãos, um local de amparo e refúgio, principalmente para as pessoas com alguma vulnerabilidade. Temos a missão de rezar e também de poder estender as mãos para essas pessoas, que foi o que Cristo nos ensinou.

Qual o papel da comunidade nestas ações?

A comunidade é a Igreja, que na verdade surge de um grupo de pessoas que se unem com o propósito de seguir Jesus Cristo e fazer o bem, buscando o próximo, encontrando caminhos e soluções e superando barreiras e dificuldades. Ser padre me possibilitou procurar este diálogo, lembrando que não é possível separar a Igreja da sociedade.

Hoje as pessoas são mais solidárias do que antigamente?

A gente percebe mais envolvimento das pessoas sim. Mas apesar do crescimento no apoio, ainda é preciso romper algumas barreiras para que haja mais ajuda ao próximo. Isso depende da presença do padre, da fé, do amor, da paz e de uma confiança, pois a igreja recebe muitas doações e a população deve confiar que tudo será bem destinado.

Porque é importante ajudar o próximo?

É importante pois faz bem também à quem ajuda. Aquele que se coloca a serviço é mais feliz. Hoje eu sou muito feliz como padre justamente por conta disso, por poder prestar atendimentos e acompanhar as pessoas. Somos mais felizes ofertando do que recebendo, e quem não ajuda pode estar fechado em si. Por isso acredito que as pessoas deveriam ter mais experiências voluntárias, que auxiliam o ser humano a se encontrar no outro, pois como nós pregamos, somos irmãos, uma família.

Qual é o maior desafio em ser padre?

Buscar compreender a nossa missão, nosso caminho. Como padre é preciso sempre refletir, estar em comunhão com Deus, reforçar os laços com as pessoas e com os compromissos. Às vezes queremos fazer muitas coisas, mas também precisamos pensar a vontade divina e como podemos servir melhor.