ENTREVISTA DE DOMINGO

O pianista Carlos Eduardo Zappile lembra histórias da música de Mogi

RELICÁRIO O pianista Carlos Eduardo Zappile Albertini conta histórias da música de Mogi e de pianistas, como o maestro Gaó. (Foto: Eisner Soares)
RELICÁRIO O pianista Carlos Eduardo Zappile Albertini conta histórias da música de Mogi e de pianistas, como o maestro Gaó. (Foto: Eisner Soares)

Entre as primeiras lembranças de criança, o pianista mogiano Carlos Eduardo Zappile Albertini guarda a do filme ‘à Noite Sonhamos’, uma obra biográfica sobre o compositor polonês Frédérick Chopin (1810-1849), que ele assistiu na televisão, décadas mais tarde. Desde a infância, o ouvido era atento. Em casa, na vitrola, tocavam discos de Carmem Miranda a Johan Sebastian Bach. A mãe dele, Maria Zappile Albertini, instigou a curiosidade do garoto, ao contar detalhes da vida do pianista polonês expostos na romanceada produção feita, em 1945, durante a Segunda Guerra. Nunca mais Chopin saiu do radar de Albertini. Foi algo tão impactante na sua formação e carreira, que ele escreveu um livro, ‘Chopin’, publicado em segunda edição, em 2009, pelo Consulado da Polônia no Brasil. Foi preparada especialmente para as comemorações do bicentenário da morte de compositor. Professor que estuda diariamente, por horas seguidas, Albertini é o pianista do Coral do Carmo. Na Vila Industrial, onde mora, os dois últimos e pequenos cômodos da casa abrigam três pianos (um deles, agora, está no conserto), além de um acervo com livros, filmes, CDs, e as memórias da história da música em Mogi das Cruzes. Está ali, como tesouro, uma coleção reunida pelo maestro Antônio do Amaral Gurgel, o Gaó, que morou em Mogi das Cruzes e é considerado um dos pianistas mais famosos do Brasil. Na seguinte Entrevista de Domingo, Albertini fala de Chopin, Gaó, Villa-Lobos e de pianistas da cidade, como Alice Kato, Suzana Nakayama, Helenice Massaro, João Torquato, Niquinho, Werneck… Confira:

Quando você começou a tocar piano?

Nas aulas de catecismo, na Catedral de Santana, quando vi a professora de piano Alice Kato tocando, eu disse: é isso que quero fazer. Uma prima começou a estudar piano com a professora Suzana Nakayama, proprietária da Banca Patão. E eu pedi para também fazer aulas. Não parei mais. Com 12 anos, comecei a tocar em missas, casamentos e festas.

Onde mais você estudou?

No Conservatório de Música de Mogi das Cruzes, com o professor João Torquato. Alguns anos depois, estudei com o maestro Gaó, que veio morar no Brasil porque não se adaptou ao frio dos Estados Unidos, onde ele tocou com grandes orquestras e artistas.

E quando começou a estudar com ele?

Quando fui procurá-lo eu tinha 16 anos, e ele não tinha vaga na agenda. Possuía muitos alunos. Passaram-se algumas semanas, me chamou. Posso dizer que ele foi um “pai musical’ para mim.

Vocês se apresentaram juntos?

Algumas vezes, em locais como o Clube Náutico, o Tiro de Guerra. Uma audição especial foi durante a reinauguração do Teatro Vasques, em 1981. O maestro Gaó faleceu em 1991.

Você herdou partituras dele?

Ele me presenteou com livros. E poucos dias antes de falecer, me disse que estava pensando em vender uma coleção americana, feita para maestros, uma edição em inglês. Ele pensava em vendê-la para comprar um aparelho de audição para a esposa dele, a dona Dina. Eu demonstrei interesse, mas ficamos apenas na conversa. Em dois dias, ele faleceu. O acervo foi remanejado para locais como a Universidade de Mogi das Cruzes, e depois para a Prefeitura. Anos mais tarde, amigos estavam em um sebo, em São Paulo, e encontraram essa coleção do maestro Gaó, com uma dedicatória feita para ele. Eu estava no Japão, participando de uma série de concertos com o tenor Kohdo Tanaka, e eles me contaram o que tinham achado. Não acreditei. E pedi para que comprassem para mim. Acho que era para ser minha.

A memória do maestro Gaó está preservada?

Não como deveria. O teatro de arena, no Parque da Cidade, recebeu o nome dele. Preparei um histórico para falar no dia da inauguração, mas nem fui chamado para isso. Todo o mundo respeita o maestro Gaó, que gravou músicas como a primeira versão para Tico-Tico no Fubá, com a autorização do próprio Zequinha de Abreu, o compositor desse clássico. Seria preciso mais, a reunião do acervo, a abertura ao público. No final do ano passado gravei um CD, a convite da Secretaria Municipal de Cultura, com músicas feitas por ele. Os arranjos feitos por ele, não sabemos onde estão.

Onde viveu a infância?

Meus pais são Maria Zappile e Luiz Carlos Albertini (falecido em 2017). O meu avô paterno foi Alberto Albertini, que era carpinteiro e trabalhou na Pianos Schwartzmann, em Braz Cubas. Minha avó foi Doralice Rabello. Do lado de minha mãe, os avós são Emílio e Joana Giacco Zappile. E meu bisavô, Ferdinando Giacco, que veio da Itália para o Brasil, no século XIX, com a esposa, Maria Graccia, está entre os fundadores do distrito de Luis Carlos, em Guararema.

Você compõe?

Eu costumo brincar que eu decomponho.

Com quem mais estudou?

O músico sempre procura ouvir, seguir e estudar os pianistas que possuem técnicas com as quais se identifica. Eu tinha um sonho e consegui realizá-lo, que foi estudar com o maestro (João de) Souza Lima, que ganhou o primeiro Grande Prêmio do Conservatório de Paris, em 1919, e ficou conhecido como o príncipe dos pianistas do Brasil, um título dado por Guiomar Novaes, considerada uma das maiores pianistas do mundo. Com ele, eu estudei durante um ano. Quando ele faleceu, fiquei um mês sem tocar. Depois, conheci a Iara Ferraz, esposa do pianista, Amaral Vieira, com quem estudei durante quase 20 anos, e também estudou com a grande pianista Eudóxia de Barros, que está na ativa aos 80 anos.

Como surgiu o livro ‘Chopin’?

Eu o estudei a vida inteira e decidi escrever uma biografia em português. Há várias obras falando sobre ele e eu escrevi sobre o último ano da sua vida. Chopin morreu aos 39 anos, de tuberculose. A primeira edição foi publicada em 2005, distribuída entre amigos, alunos. E um dia, conversando com a minha dentista Patrícia Kapicius, ela disse que iria me apresentar a Janina Wscieklica, a dona Ianca, esposa de um dos diretores da Aços Anhanguera, que foi prisioneira durante a Segunda Guerra. Dona Ianca foi quem levou o livro ao cônsul da Polônia no Brasil, Marek Krynski. E ele, depois de ler o livro, me disse que gostaria de fazer uma segunda impressão, a ser lançada durante as celebrações brasileiras do bicentenário do nascimento de Chopin. Integrei, inclusive, o Comitê Brasileiro do Ano Chopin. Fiz uma revisão, acrescentei novos dados, e o livro foi publicado. Nesse momento, conheci o cônsul Jacek Such, que se tornou um grande amigo.

Onde viveu a infância?

Em uma casa da Rua Francisco Franco que, antigamente, se chamava Santo Ângelo. Na casa dos meus avós, na Rua Olegário Paiva, meus tios ouviam música. Meu avô, Emilio, tocava bandolim. Minhas referências são minha mãe e o meu tio Olímpio, que ouviam música clássica. Fui presenteado com um pequeno busto do Chopin, que o Olímpio (que faleceu neste ano) tinha em sua casa.

Como surgiu o Coral do Carmo, que está completando, neste 2019, 34 anos?

O Coral do Carmo foi ideia da dona Cida Terra e minha. O primeiro regente foi Milton de Souza Melo e, algum tempo depois, passou a ser o Guilherme José Faria. Ele começou com um quarteto (Silvio Carrupt, Edi, dona Cida e Edson Terra). Nós fizemos uma lista e convidamos os primeiros 20 participantes. O Coral se mantém com ensaios aos domingos à noite, na Igreja da Ordem Primeira Carmo.

O Coral recebe incentivo?

Ele vive pela paixão que os músicos, o Guilherme, especialmente, e os demais integrantes têm pela música. O único apoio é da Igreja do Carmo, que nos cede o nome. E os resultados são bons. Nesse ano, a presença do maestro Marcos Thadeu, o principal regente do Coral da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), foi um presente, um reconhecimento para a trajetória do Coral do Carmo.

A música erudita vive momento diferenciado. Em Mogi, temos a formação e a descoberta de talentos, como o regente Luís Guilherme de Godoi, a quem você deu aulas, e faz uma carreira internacional. A que se deve esse momento?

Penso que o projeto de música da Prefeitura, com iniciativas, como a vinda da maestrina paranaense Dulce Primo (que desenvolveu o Canto em Cada Escola), foi importante para isso. Temos e tivemos pianistas inspiradores, como a Elenice Massaro, e maestros Niquinho, Gaó. Corais como o Carmo, que sobrevivem à própria custa dos integrantes. De alguma forma, a música está ganhando público. Na apresentação dos 34 anos do Coral do Carmo a igreja estava lotada. Em São Paulo, temporadas na Sala São Paulo, de operas, sinfônicas e corais, têm ingressos esgotados.

A música é uma cura para o mundo?

Não tenha dúvida. Quando as palavras faltam, a música dá sentido à vida. A vida sem a música é um erro, como disse (Friedrich) Nietzsche.

O piano sempre foi um símbolo da elite. Qual é o futuro do piano?

O futuro do piano está na China, está no Japão, na Ásia. Mas o berço está na Europa. Antes, para um pianista brasileiro ter acesso a uma gravação levava meses. Eu me lembro dos discos vendidos pela Livroeton, e que chegavam no final do ano. Hoje, não. Todos têm acesso a partituras, têm a facilidade para gravar uma música ou acompanhar a vida de um músico. O que sempre vai diferenciar um e outro pianista é a técnica, o estudo.

Que descobertas sobre Mogi você fez ao longo da carreira?

Sobre a vinda do pianista Heitor Villa-Lobos a Mogi, eu descobri, conversando com o maestro (João) Souza Lima, que estava com ele, e quando o trem parou na cidade, eles desceram e almoçaram no Restaurante Fontana, que ficava no centro. Villa-Lobos percorria o Brasil levando a música clássica às cidades, e fazia isso de trem. Nós tivemos um prefeito músico, João Batista Julião, que trabalhou, inclusive, com o maestro Villa-Lobos. E o compositor Pietro Mascagni fez uma parada em Mogi das Cruzes, na histórica viagem que fez ao Brasil em 1911.

Você deu aulas para o Luís Guilherme, que está à frente do Coral Pequenos Cantores de Viena, na Áustria?
Sim, é um talento mogiano. A ele dei poucas aulas, porque logo foi estudar em São Paulo. Mas dei aulas para o (Antonio Carlos) Machado Teixeira (ex-prefeito), o maestro Sérgio Werneck, Ana Luiza de Oliveira, Sonia Gaeg e muitos outros. Tenho 30 alunos hoje.

A música é sua vida?

Sim, mesmo quando não estou dando aula. Eu me casei com a música (risos).

O que sentiu quando a banda Santa Cecília encerrou as atividades?

Muita tristeza porque, na infância, íamos ouvir a Santa Cecília. Foi uma perda para Mogi.

Um grande momento foi a temporada no Japão?

Com certeza. Fui ao Japão a convite do tenor Khodo Tanaka, que veio a São Paulo, a convite do Bunkyo, e precisava de um pianista. Algum tempo depois da apresentação no Brasil, ele me convidou e fui para o Japão. No Teatro de Osaka o público era de mil pessoas. O concerto foi gravado em CD, e depois eu vi na TV aberta, quando estava no hotel, cinco apresentações de concertos. Foi muito especial. Mas a minha vida é aqui.

O que diz sobre Mogi?

Seria bom se a cidade conseguisse manter o crescimento com as características do lugar pequeno, onde todos se conhecem. Ainda há lugares que você vai, e conhece as pessoas. Mas há o trânsito difícil, situações em desacordo, como a moradia de rua, que a cidade não consegue conter. Mas, eu gosto demais de Mogi. Ela precisaria ser mais bem cuidada.

Um sonho?

Visitar o túmulo de Chopin, na França, no mesmo cemitério onde estão Alan Kardec, Balzac e Jim Morrison. Outro é conhecer a lendária pianista Ruth Slenczinska, com 92 anos. Eu conheci a pianista Shelly Moornan-Stahlman, e quando eu postei um vídeo no Facebook, da Ruth, e na hora, ela escreveu: “Minha querida professora”. Desde os 15 anos eu tenho uma foto da Ruth. Desde então, ela passou a se corresponder comigo. É uma surpresa possível pelas redes sociais. Ruth é a maior pianista prodígio – com 4 anos, ela dava recitais nos Estados Unidos.


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