EDITORIAL

O preço da eterna vigilância

Não foi sempre assim, principalmente no período da República Velha, encerrado com a ascensão de Getúlio Vargas em 1930. Com Getúlio pôs-se fim à chamada Política-do-Café com Leite, pela qual representantes de São Paulo (café) e Minas Gerais (leite) alternavam-se na Presidência da República.

Durante os mais de 30 anos de hegemonia paulistas/mineiros, o Brasil elegeu 11 presidentes, sendo 6 paulistas e 3 mineiros; romperam essa rotina o gaúcho Hermes da Fonseca e o paraibano Epitácio Pessoa.

Mas, a grande depressão de 1929, iniciada com o crash da bolsa de Nova York, e a disposição do então presidente Washington Luiz, em insistir na indicação de outro paulista (Júlio Prestes) para sucedê-lo, criou a tempestade perfeita. E lá vieram os oligarcas gaúchos a apoiar Getúlio Vargas ante a cisão do grupo dominante e a insatisfação popular.

Não tem sido outra a história de rompimentos institucionais ao longo dos séculos. Os guerrilheiros de Sierra Maestra só conseguiram levar Fidel Castro ao poder (Cuba/1959), com a deterioração da ditadura de Fulgencio Batista. Salvador Allende (Chile/1973) perdeu para os militares mas, antes, promoveu um amplo programa de estatização que espraiou descontentemente entre importantes setores da economia nacional. João Goulart (Brasil/1964) cedeu aos militares e às manifestações populares que se espraiaram pelo País, expressas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Nicolás Maduro (Venezuela/2019) pode ser o próximo a confirmar a tese de que a história se repete.

Pois no Brasil, que iniciou esta semana a sua 56ª legislatura, deputados e senadores têm, pela frente, uma missão hercúlea: decidir, nos próximos 90 dias, sobre a reforma previdenciária. Será um divisor de águas. Aprovada, em tamanho responsável, preservará o otimismo confirmado pela Bolsa Mercantil & Futuros, cujo índice Bovespa subiu quase 11% em janeiro.

Mas, se a reforma previdenciária fracassar, sepultará boa parte desse otimismo. Há que estar focado: o tsunami eleitoral que engolfou muitos dos coronéis da política nacional em 2018, trouxe consigo um recado claro: o brasileiro está descontente e ansia por reformas. Deus cuide do Brasil se as reformas não vieram céleres.