EDITORIAL

O que ensina Diógenes

Pode surgir de uma indicação da vereadora Fernanda Moreno (PV) a criação de um grupo técnico para prevenir e tratar uma parcela da população que sofre de um distúrbio de saúde mental em ascensão. Mais conhecidos nos Estados Unidos, os acumuladores compulsivos estão ganhando visibilidade com o aumento do número de vítimas da disposofobia ou síndrome de Diógenes – um filósofo grego que vivia dentro de um barril, fazia da pobreza extrema uma virtude e era a antítese da acumulação de bens.

Há outro nome para o problema, a síndrome de Noé, que identifica as pessoas que tratam e convivem com um grande número de animais.

A parlamentar do PV propõe a manutenção de um grupo de atenção integral às pessoas que acumulam objetos ou animais, que costumam viver em isolamento e são responsáveis por problemas sanitários, perturbação do sossego público e o sofrimento aos animais domésticos.

A disposofobia é mais comum em mulheres e idosos. Nos Estados Unidos, pesquisas indicam que um em cada quatro habitantes tem a tendência de acumular coisas e animais. Já a doença, em casos mais severos, atinge um número menor de pessoas.

Mogi das Cruzes acompanha, nos últimos tempos, o surgimento de alguns casos de acumuladores extremos, como os identificados em bairros como o Rodeio e, mais recentemente, no Jardim Nova União.

A experiência mostra que apenas retirar o lixo amealhado durante anos, sem o encaminhamento para um tratamento adequado do cidadão que enfrenta esse dilema, não resolve um situação que tem sido conectada ao consumismo exagerado. Muitas pessoas, não são acumuladores compulsivos, mas estão a caminho desse estágio e também precisam de ajuda.

A Prefeitura de Mogi das Cruzes tem atuado nesses casos, com a fiscalização e o desmonte de casas que se transformaram em verdadeiros depósitos de materiais inservíveis. A ideia de Fernanda avança no combate a um problema de saúde pública.

E o assunto vem ao debate público no final do ano, tempo de reflexões sobre o futuro, e vale para alertar também quem está longe dos extremos, mas gasta demais, junta bens materiais desnecessariamente. Qual é a nossa relação com o consumo e com o supérfluo? Diógenes viveu com o mínimo e ficou conhecido por acreditar que a virtude do homem era revelada por suas ações, e não pela teoria. Por isso, o filósofo grego fez da própria vida uma campanha incansável para desbancar as instituições que alimentavam a sociedade corrupta, aquela que se locupleta de coisas e não de valores humanos, e causa danos como o aprofundamento da desigualdade social.