O retrato do Morro do Alemão próximo das Olimpíadas

Mais de R$ 700 milhões foram investidos em obras no Complexo do Alemão na última década. Políticos, ONGs e artistas de Hollywood subiram o morro para celebrar a ocupação das comunidades pelos militares em 2010. A região virou até cenário de novela da Globo em horário nobre.
Mas, a menos de três meses da abertura da Rio-2016, o Alemão – às margens de uma das principais vias do trajeto olímpico, a Linha Amarela – está longe de ser área pacificada, apesar de contar com quatro UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora). Moradores são obrigados a conviver com tiroteios frequentes e toque de recolher do tráfico, dominado pelo Comando Vermelho.

Em maio, sete pessoas foram feridas a bala e duas outras morreram: uma moradora e um policial militar.
Na tarde do último domingo, uma mulher de 21 anos foi atingida por dois tiros na perna ao descer de um ônibus próximo à Grota, uma das comunidades mais povoadas. Segundo a ONG Voz das Comunidades, formada no complexo, oito mortes foram registradas na região desde o início do ano –sete de moradores e um de um policial. Além dos mortos, outras 20 pessoas ficaram feridas: 13 moradores e sete militares.

Os traficantes do Comando Vermelho, que haviam sido expulsos durante a ocupação em 2010 – em uma cena célebre, na qual foram filmados correndo em fuga –, retomaram o comércio de drogas nas favelas locais e agora se aproveitam da crise financeira que atingiu o Estado e a Secretaria de Segurança para acirrar os confrontos.
Eles dominam as regiões distantes das cinco estações do teleférico, onde funcionam postos policiais, e montam barricadas no complexo.

A reportagem constatou a instalação de barras de ferro e latões metálicos recheados de cimento. A intenção é impedir a entrada de carros da polícia em pelo menos duas comunidades, Areal e Casinhas. Moradores se recusam a falar publicamente sobre a violência ali. Mas, nas redes sociais, é possível encontrar postagens quase diárias de fotos e vídeos mostrando confrontos entre PMs e bandidos.

Até nos bairros vizinhos ao Alemão, os moradores mudaram seus hábitos. Voltaram a ficar reclusos em casa.