EDITORIAL

O sentido da vida

Um antigo médico da Secretaria de Saúde do Estado, após longos anos de exercício da função no complexo do Juqueri, em Franco da Rocha, dedicado a abrigar internos por demência mental, foi removido para o Sanatório de Santo Ângelo, em Jundiapeba, ainda ao tempo do isolamento compulsório dos contaminados por hanseníase.

Aposentado, seguiu residindo com a família em Mogi e era presença constante na redação deste jornal, ainda ao tempo em que ocupávamos o número 388 da Rua Barão de Jaceguai. Ali, dedicava horas a partidas de xadrez quando encontrava um oponente, ou a dedos de prosa.

Nas conversas, era comum ser indagado acerca de sua experiência com os loucos e com os leprosos. Àquele tempo, estes termos não eram considerados injuriosos. Tampouco havia o patrulhamento dos politicamente corretos, prontos a apedrejar quem não lhes desse ouvidos.

E o nosso sábio repetia, sempre, que tudo depende do enfoque, da interação que se estabeleça entre o transmissor e o receptor da mensagem. “Tudo está ligado ao sentido da vida que cada um se dê”, insistia ele. Sim, a loucura é muito triste, difícil, aniquila a condição humana; mas o que é pior: o isolamento inconsciente do demente ou o desmanchar físico consciente do hanseniano?

Recentes acontecimentos na esfera política em Mogi das Cruzes nos trazem, à lembrança, os ensinamentos de nosso sábio visitante. Uma das piores, se não a pior, conselheira para o político é a soberba. E difícil encontrar, dentre estes, quem não tenha sido subjugado pela imaginação de ser unânime. E, então, sobram-lhe, altanaria, bazófia, empáfia, arrogância, sobranceria, altivez, soberba, jactância, pedantismo.

Fica-nos, mais uma vez, a lição de James Freeman Clarke, o norte-americano que viveu entre 1810 e 1888 e legou-nos, entre outras, a lapidar “um político pensa na próxima eleição; um estadista, na próxima geração”. Nossos contemporâneos, entretanto, parecem conferir eternidade à próxima eleição, e ao próprio momento, que usufruem com tanto gáudio. Falta-lhes, para bem servi-los, um dreno de ego.

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