ARTIGO

O sucesso e o fracasso

Gaudêncio Torquato

O novo governo nem chega a dois meses e já dispara um conjunto de interrogações: qual o rumo do país? Terá vez um populismo de direita? O presidente conseguirá apoio do Congresso? Os militares assumirão papel de tutela ou de poder moderador? A polarização política continuará?

As dúvidas se multiplicam ante a perplexidade que aflorou com o affaire entre o presidente Jair, seu filho Carlos e o ex-ministro da Secretaria-Geral do governo. Exagero dizer que houve uma crise. Faltou muito para isso. O pior foi ouvir o presidente nos áudios trocados entre ele e Bebianno. Que realmente manteve comunicação com o presidente, não sendo o mentiroso conforme dizia Bolsonaro filho.

Daí a perplexidade. Muito a ver com desavenças e ciumeira, o caso poderia ser equacionado rapidamente, não tivesse o presidente agido sob o escudo familiar. Mas o extravagante comportamento do capitão lhe deu dimensão maior.

É cedo para dizer onde vamos parar. O teste das reformas da segurança e da Previdência será a bússola. Passando, o país define um norte. Mas as dificuldades crescem. A derrota do projeto de acesso à informação mostra que a base governista não está bem alinhada.

O presidente terá de engrossar o caldo populista – bolsas, melhoria dos serviços públicos, a partir de saúde, educação e segurança – para agradar as massas. O conservadorismo na área dos costumes marcará sua identidade e mais volume à polêmica.

Após a lua de mel, a real politik dará as caras para apresentar a fatura. Cobrará compensações. O PSL, partido do presidente, já vê seus integrantes trocando tiros. Se o governo for mal, o partido abre uma rota de fuga.

Os militares andarão na corda bamba. Mesmo no poder pelo voto, temem a pecha de guardiões de um governo militarista de direita. Ao invés de guardiões, querem ser reconhecidos como moderados, com foco na harmonia e pacificação, puxando o país para o centro do arco ideológico. Tentarão também tirar o presidente da redoma familiar, impondo o discurso da razão.

Se o governo chegar ao fim de 2019 com inflação controlada, juros baixos, mais empregos, serviços básicos melhores, Bolsonaro passará no primeiro teste. Mas se a esfera familiar continuar a dar o tom, melhor desfazer a ideia de que Deus é brasileiro.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político