EDITORIAL

O Tietê segue sujo

Tudo o que se faz agora busca corrigir o que começou errado no passado

Em mais um Dia do Tietê, as notícias são quase colagens do passado. Quase porque neste ano a mancha de poluição do manancial a poucos quilômetros de sua nascente aumentou em relação a 2018, segundo a última pesquisa da Fundação SOS Mata Atlântica.

É histórica a lentidão do poder público no combate ao passivo ambiental criado por políticas que desconsideraram o manancial como fonte de água para o consumo, agricultura e a preservação da fauna e flora ribeirinha.

Embora a conscientização ambiental amplie braços com a adesão de mais pessoas preocupadas com a finitude dos recursos hídricos, no caso do Rio Tietê, ainda não se tem uma pressão popular forte o bastante para cobrar obras mais rápidas e incentivar mudanças de hábito que minimizam a poluição como não jogar o óleo de cozinha na pia.

Tudo o que se faz agora busca corrigir o que começou errado no passado, com a ocupação do entorno dos córregos e do rio. O que é feito chega com atraso, caro e de maneira insuficiente.

A demora tem algumas explicações. Uma delas: o saneamento não é um capital político-eleitoral dos mais interessantes. Por décadas, ficou praticamente parado o projeto de interligação entre a rede de esgotos de Mogi das Cruzes ao Interceptor Tietê (Iti-10) construído para levar os resíduos poluentes até a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de Suzano. Essa estação começou a funcionar em 1982, e ainda hoje opera abaixo da plena capacidade plena.

Mogi das Cruzes começa a década de 1980 com 197 mil habitantes. Hoje abriga mais do que o dobro disso: são 445 mil moradores (Fonte: IBGE).

Com o tempo, mudanças na legislação ambiental passaram a exigir dos novos núcleos residenciais sistemas próprios de tratamento de esgotos – o que determinou um aumento do índice de despoluição – mas não o combate ao passivo existente.

A produção do esgoto das casas e comércios dos bairros mais antigos cai em córregos e ribeirões. Ainda assim o tratamento avançou de 0,5% para 6,1% com a construção da ETE de Mogi.

O Ministério Público atua para vincular este e os próximos governos a cumprirem um acordo para a despoluição do Rio Tietê, com uma agenda a ser executada nos próximos anos.

Será passo importante para combater esse crime ambiental. Porém, o passado, sempre ele, nos lembra: em 2013, o governo municipal prometia acelerar as obras do Plano Municipal para o saneamento. Ainda não cumpriu o que disse. Entre os motivos, a complexidade e o tamanho das obras, a burocracia – há obras com recursos financeiros liberados há seis anos que não saem do papel, a falta de dinheiro, e algo que ainda não mudou: o Tietê não é tratado pelos governos como prioridade. Por isso, ele segue poluído.

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