ARTIGO

O truque pelo truque

Rafael Sampaio

O cancelamento do IPO do WeWork indica que a fase de construir “negócios” em cima de promessas e conversas vazias talvez se esgotou. Até recentemente a avaliação geral era que o IPO da WeWork poderia alcançar 47 bilhões de dólares.

A empresa, vamos lembrar, se dedicava ao negócio de co-sharing de espaços comerciais, mas tinha ambições maiores, de “elevar a consciência do mundo” e promover o ideal de que “viver uma vida consciente significa escolher viver de forma proativa e com propósito”. Através de sua holding, a We Company, e de diversas extensões de marca, como o hotel WeSleep e o sistema de serviços financeiros WeBank. Mas, no fundo, se tratava de aluguel de escritórios.

No final, dois ou três artigos bem colocados de críticos desse processo alucinado que gera os “unicórnios” eviscerou a realidade de que a empresa fazia US$ 200 mil por hora de prejuízos e precisava levantar rapidamente de US$ 3 a 4 bilhões para cobrir seu buraco.

Essa é uma situação limite, que expressa bem o fenômeno da criação de valor descolado da realidade, no qual muitas organizações entraram, em busca de um IPO milionário, que deixa seus fundadores, primeiros investidores e executivos muito ricos, mas no fundo reparte sonhos mal construídos dos que apostam em fórmulas disruptivas.

Algumas, deram muito certo e estão mudando o mundo. Caso da Amazon, Google e SalesForce, que demoraram para dar lucro mas, quando deram, criaram um universo à parte. Outras, como o Facebook, aparentemente estão bem, mas carregam tantos problemas que talvez não resistam às ondas e vendavais que enfrentam.

Há casos muito falados mas pouco ou nada rentáveis e que navegam em mares revoltos e instáveis, como a Netflix, que está no topo da onda do streaming, ao custo de uma dívida de US$ 12 bilhões, que sua receita não tem como pagar; ou a Uber, que desde seu IPO em maio último está sendo negociada 30% abaixo do preço.

O que esses casos, entre outros, têm em comum é a promessa de revolucionar completamente seus mercados. O que tem sentido, maior ou menor, dependendo da situação, é sua capacidade de dar uma nova visão a velhas práticas e saber como tecer a modernidade entremeada com o tradicional.

Rafael Sampaio é consultor em Propaganda e Marketing

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