WAGNER CUCICK ESCOBAR

O universo das barbearias

Wagner Cucick Escobar tornou-se-se barbeiro profissional em Londres (Foto: Vitoria Mikaelli)

Ainda que tivesse vontade de cortar cabelos desde criança, Wagner Cucik Escobar não seguiu este sonho de imediato. Ele voltou-se para o turismo: foi agente de viagens e mais tarde supervisor de aeroporto. Quando estava com a carreira estável, decidiu mudar de vida. Formou-se cabeleireiro pelo Instituto L’oreal em São Paulo, e na sequência foi para Londres, onde tornou-se barbeiro profissional pela London School of Barbering. Wagner esticou a temporada por lá e ganhou experiência trabalhando. Quando voltou à Mogi, em 2016, abriu a Barbearia Escobar, que além de ter uma barbeira mulher (Luciana, irmã dele), atende homens e até mulheres de todas as idades. Wagner está se preparando para fazer uma especialização em barbearia clássica na Holanda no próximo mês de junho, e na entrevista concedida à O Diário comenta o mercado de estética masculina, afirmando que os homens têm se mostrado mais vaidosos, procurando se cuidar mais.

Como barbeiro, você aplica mais cortes tradicionais, e inclusive está prestes a se especializar neste segmento. Qual a diferença da barbearia clássica para a moderna?

A clássica remete a cortes sociais das décadas de 1930, 1940, 1950, enquanto a moderna gosta de utilizar muito do freestyle, desenhos feitos na cabeça, penteados que usam muito spray, laquê e tinta. São dois públicos bem diferentes. A Escobar é clássica, mas temos elementos atuais como a risca, que a criançada adora, mas não fazemos à mão livre, desenhando caricaturas. Mesmo assim conseguimos produzir cortes supermodernos, como o skinfade, chamado no Brasil de degradê, que era o corte mais pedido em Londres e também é o mais pedido por aqui.

Então as pessoas pedem por cortes específicos?

Com o acesso fácil à internet o público hoje sabe exatamente o que quer. É muito raro o cliente chegar na barbearia e dizer “não sei o que faço do meu cabelo”. Eles normalmente não sabem o nome dos cortes, o que não é importante, mas é preciso que nós, barbeiros, consigamos entender a mensagem que os clientes estão pedindo. Se não conseguimos, apelamos para referências na internet, mas é importante a compatibilidade da “matéria-prima”, ou seja, se há cabelo para realizar o pedido.

Ou seja, nem sempre dá para fazer o corte desejado pelo cliente.

Exato. Depende do comprimento e da estrutura do cabelo, do número de rodamoinhos que se tenha espalhado pela cabeça, da textura do fio… As vezes você olha a imagem de referência e não tem o perfil daquela pessoa, as linhas de recessão (entradas). Nesses casos fazemos cortes aproximados, até mesmo porque as imagens da internet costumam ser super produzidas, com muita pomada, muito spray.

Também é preciso perguntar para o cliente se quer um corte prático ou despojado, e em alguns casos se ele está disposto a ficar de 20 a 30 minutos na frente do espelho para arrumar o penteado. Existem cortes que exigem muito tempo de preparo, além do uso de pomada para dar textura e fixador para não deixar o vento derrubar o topete. Então vai da vaidade de cada um.

Quais são os serviços mais procurados pelos homens?

Hoje em dia isso é muito equilibrado. Eu poderia dizer que faço muito mais barbas aqui em Mogi do que na época que eu estava em Londres, mas há um equilíbrio. Tenho clientes que só fazem cabelo, outros que só fazem barba, e tem também quem faça os dois. Aliás nosso público é formado por pessoas de todas as faixas etárias, e inclusive mulheres, que executam cortes masculinos com alguns toques especiais.

De maneira geral o homem tem procurado se cuidar mais?

Tem sim, sem dúvida. Isso é uma grande verdade, tanto que estamos implementando um serviço de barba com vaporizador de ozônio, que abre os poros, limpa as impurezas, revitaliza a pele. Mas eu acho que essa preocupação não é de agora. Antes existia um preconceito velado, de que o homem não podia ser vaidoso, mas a realidade é que os homens são tão ou mais vaidosos que as mulheres, e no ambiente da barbearia não têm vergonha de dizer que querem fazer luzes, disfarce de grisalhos, remoção dos pelos do nariz e orelhas e outros serviços.

Sempre existiu este preconceito?

Acredito que sim, só que agora as pessoas têm perdido a vergonha. Isso vem mudando com a abertura do mercado internacional e o acesso à informação instantânea. O brasileiro começou a pensar: “se um cara dos Estados Unidos, da Inglaterra, do Japão ou da Austrália está fazendo isso, porque eu, que estou no Brasil e tenho acesso não faço também?”

Em Londres você sentia essa discriminação?

Não. Em Londres nunca vi preconceito de absolutamente nada. Tudo que os ingleses pedem é com a maior naturalidade do mundo, sem vergonha e com a mente muito aberta. Lá tem cada figura na rua que “você é só mais um”. Já o Brasil é um país é muito jovem, foi descoberto no ano 1500 e tem muito o que aprender, mas à medida que as barbearias vão se popularizando esse aspecto de vergonha está indo por água abaixo.

Falando nisso, como você vê a popularização das barbearias?

O brasileiro é extremamente criativo, e enxerga que toda e qualquer pessoa gosta de estar num lugar legal. Particularmente como cliente eu não gosto de cortar cabelo, pois neste mundo moderno temos minutos contados no relógio. Pensando assim eu e outros empresários querem proporcionar ambientes agradáveis para que os clientes sintam-se à vontade para cortar o cabelo.

Com muitos estabelecimentos deste tipo, o mercado está saturado?

Não. Acho que a concorrência é uma ferramenta muito importante para ver o quão preparado você está. É preciso participar constantemente de cursos, treinamentos e workshops para acompanhar o mercado, que muda muito rápido e só tem espaço para quem se atualiza.

Há no entanto um movimento negativo, em que muita gente desempregada faz cursos de barbeiro e ingressa rápido no mercado, sem ter a experiência necessária. Nessas situações quem sai prejudicado é o cliente, com cortes muito errados. Por isso é preciso que estar muito bem preparado, com especialização, e só começar depois de treinar muito, cortar o cabelo de toda a família e amigos. Afinal, trabalhamos com um dos bens mais preciosos: a imagem.

Ao longo do tempo as barbearias mudaram muito. Como se deu essa evolução?

Antigamente não existia a profissão de barbeiro, e havia a prática da sangria, feita por cirurgiões, consultores e psicólogos, que conversavam com as pessoas enquanto elas estavam apoiadas num poste de madeira fincado no chão com uma bacia embaixo. O objetivo era fazer cortes pelo corpo do cliente para que o sangue escorresse, eliminando toxinas, e depois os ferimentos eram cobertos com bandagens. Prática semelhante é usada hoje pelos acupunturistas, mas no geral a barbearia era um ambiente de encontros, em que o pessoal ia para conversar, ler e até fazer serestas.

Como no Brasil muitas eram sujas, na década de 1980 começaram a desaparecer, perdendo lugar para os salões unissex que traziam mais conforto e higiene. Porém nos últimos 10 anos as barbearias começaram a retornar por aqui, observando o cenário de fora, onde elas nunca perderam força. Em Londres, por exemplo, há barbearias com mais de 180 anos de história.

É papel do barbeiro ser um bom ouvinte para o cliente?

Sim e não. Às vezes, o barbeiro atua como um tipo de consultor. Mas tem que ter timing: muitos vão lá para ter um momento de tranquilidade e introspecção, ou seja, não gostam de manter uma conversa. Já outros adoram conversar e tem também aqueles que até dormem, o que significa que confiam muito em nosso trabalho.