ARTIGO

O vídeo da discórdia

João Anatalino Rodrigues

Se eu ainda tinha dúvidas sobre o verdadeiro pensamento do Bolsonaro, a divulgação do vídeo da sua reunião com seus ministros esclareceu-me totalmente. Sempre desconfiei que sua impetuosidade na busca por confrontos com as demais autoridades era uma estratégia para conduzir o país a um impasse institucional, no qual o povo tivesse que optar entre a “democracia” que ele tem na cabeça e a que a Constituição de 1988 implantou.

Agora estou quase convencido de que esse é o caminho escolhido por ele. Dissimulado ele nunca foi e fariseu ninguém pode acusá-lo de ser. Desde seus primeiros discursos como candidato, nunca deixou de expressar simpatia pela ditadura militar e que o seu desejo era a reconstituição dos valores da “revolução redentora” que, em março de 1964, segundo sua opinião, “salvou” o país da avalanche comunista que Jango, Brizola, Arraes, Lula e outros estavam fazendo cair sobre o país.

As falas de Bolsonaro e as diatribes contra o que ele e seus apoiadores chamam de “esquerda” nunca deixaram dúvidas de que, eleito presidente, ele faria fogo cerrado contra tudo que cheirasse coisa de esquerdista. Isso ficou claro com as escolhas que fez para ocupar pastas tradicionalmente administradas pelos progressistas, como a comandada pela inefável Damares Alves e o Ministério da Cultura, com o sinistro Weintraub. Sem falar do aético Ricardo Salles, que quer aproveitar a pandemia para passar regulamentos para desmontar a proteção ambiental que ele julga prejudicial ao desenvolvimento do agronegócio.

E a fala do Bolsonaro sobre o armamento da população também não deixa dúvidas de suas intenções. Se seus apoiadores estiverem armados, os opositores terão que pensar duas vezes antes de tentar derrubá-lo. E já tem general botando as mangas de fora.

A ditadura militar teve seus méritos e embora tenha deixado feridas que não se fecharam, no plano econômico ela atingiu melhores resultados que nos mais de 30 anos da nossa atual democracia. Toda a infraestrutura que o país tem hoje foi feita durante a ditadura. Não há uma única grande obra, com exceção da transposição do São Francisco e da Usina de Belo Monte, que não tenha sido iniciada no governo dos generais. Mas hoje vivemos uma realidade diferente da de 1964.

Não há ambiente para ditaduras nem de direita nem de esquerda. Levar o país para esse caminho nos conduzirá a uma tragédia ainda maior do que a que estamos vivendo com a pandemia do Covid-19 e a crise econômica que ela produziu. Radicalismos não resolverão os problemas. Ainda não se inventou sistema de governo melhor do que a democracia. E por mais corrupta e ineficiente que ela seja, sempre será preferível a qualquer tipo de ditadura, por mais virtuosa que ela pareça ser. O grande estadista grego Péricles disse isso há mais de 2.500 anos e concordo com ele.

João Anatalino Rodrigues é advogado, escritor e presidente da Apae


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