Rebeca Fajolle Rodrigues

Obesidade: doença crônica que deve ser levada a sério

Rebeca Fajolle Rodrigues
Rebeca Fajolle Rodrigues

Além de explicar o que é a endocrinologia, a médica Rebeca Fajolle Rodrigues mostra, nesta entrevista, que ter
equilíbrio hormonal é importante para a manutenção da boa saúde. Quando não há estabilidade, podem surgir doenças como a diabetes ou a obesidade, que devem ser levadas a sério. Rebeca explica que não há espaço para o preconceito e sim para o tratamento, que no caso da obesidade consiste em medicação, exercícios físicos e reeducação alimentar, sendo que estes dois itens são para a vida toda.

O que é a endocrinologia?

No corpo temos várias glândulas que produzem hormônios, e esses hormônios têm que estar em harmonia. Então esta área é o estudo das glândulas endócrinas, que produzem hormônios. Sendo assim, o médico endocrinologista trata as desordens hormonais, como alterações da tireoide, diabetes, alterações hipofisárias, adenoma de hipófise, alterações nas glândulas adrenais. Além disso, atuamos como metabologistas, fazendo tratamento para obesidade, que é considerada uma doença crônica cada vez mais prevalente.

Quando as pessoas procuram um profissional desta área?

Uma boa porcentagem dos pacientes que me procuram querem cuidar do corpo e emagrecer, pois estão em sobrepeso ou com obesidade. Grande parte também faz tratamento para diabetes e há também os que são encaminhados pelo cardiologista, porque a maioria dos pacientes diabéticos tem hipertensão ou colesterol aumentado, ou então pelo ginecologista, que faz exames de rotina e as vezes descobre alguma alteração e encaminha para fazer tratamento em conjunto.

Porque é importante ter equilíbrio hormonal?

Quando se fala em hormônio costuma-se lembrar somente dos hormônios estradiol e progesterona para mulheres e a testosterona para homens. Mas, na verdade, temos hormônios tireoidianos, hipofisários, e uma desordem pode refletir no corpo todo, já que eles se conversam. Enquanto “glândula mãe”, se acontece algum probleminha na hipófise, toda a produção de glândulas do corpo será alterada.

São muitos os pacientes que somente consideram problemas hormonais em último caso?

Sim. Há vários casos em que se pensa que o problema é stress, rotina intensa no trabalho, falta de sono, mas pode ser que a causa seja, por exemplo, a alteração de um hormônio tireoidiano, ou a falta de testosterona. Por isso sempre é preciso fazer uma anamnese nos pacientes, checar os sintomas e considerar o histórico dele.

Qual a relação dos hormônios com a obesidade?

Na verdade as doenças endocrinológicas são a minoria das causas da obesidade. A maioria é provocada por maus hábitos alimentares, falta de atividade física ou privação do sono, mas há doenças que podem culminar em ganho de peso. Normalmente as pessoas acham que tem problema de saúde, pensando que é mais fácil corrigir algo do que mudar os hábitos. Mas enquanto a maioria acha que há alteração na tireoide, em 90% dos casos não há.

O que causa a obesidade então são maus hábitos?

A obesidade é uma doença poligênica multifatorial. Então é um conjunto, e a tendência genética soma-se ao meio ambiente. Se o paciente está consumindo mais calorias do que gasta, na conta final haverá ganho de peso, mas stress, noites mal dormidas, com menos de seis horas por noite, também favorecem o ganho de peso. Por isso trabalhadores noturnos ou que revezam turnos têm desequilíbrio e sentem mais fome e menos saciedade.

Como é a autoestima das pessoas que te procuram?

Muitos têm autoestima baixa, e há muita associação entre ganho de peso e depressão e aumento de
irritabilidade. Hoje em dia por mais que a gente trabalhe essa questão do peso, ainda há preconceito com a
pessoa obesa, que é tachada como preguiçosa, que não
fecha a boca, desleixada, quando não é. O próprio paciente apresenta preconceito com ele mesmo e acha
que é errado tomar remédio. Como médica, deixo bem
claro que obesidade é uma doença crônica. É muito difícil perder peso, e mais ainda manter. Há tratamento e
acompanhamento, e isso deve ser para o resto da vida.

Existe hoje um movimento, cada vez com mais adeptos, de não ter vergonha em exibir corpos considerados fora do padrão. Como você enxerga isso?

A gente tem que se aceitar, gostar de como somos, mas sempre procurando ter peso metabolicamente saudável, independente da parte estética. Ganho de peso, além dos riscos de diabetes, colesterol e doenças cardíacas, aumenta a incidência de câncer de mama, de intestino, de vesícula, então não dá para dizer a frase “obeso saudável”, porque a obesidade é uma doença crônica, e portanto, deve ser tratada e acompanhada. Somente 20% dos obesos mórbidos vão chegar aos 80 anos, então este é um problema a nível mundial, e que infelizmente só aumenta.

E como é o tratamento?

Existem medicamentos anti-obesogênicos, que auxiliam na perda de peso. Mas é preciso esclarecer que as
medicações não são a solução total. O corpo tem sempre um mecanismo de autodefesa de retornar ao peso anterior, e junto com os remédios a atividade física é muito importante, pelo menos três vezes por semana, sendo 50 minutos cada vez, intercalando entre exercícios aeróbico e atividade resistida, além da reeducação alimentar.

A reeducação alimentar é a parte mais difícil?

Talvez. O termo dieta é muito penoso, e nosso cérebro tende a bloqueá-lo, mas o que é necessário é reeducar. Dieta ninguém consegue fazer pra sempre, mas a mudança de hábito sim. E é aí que entra o tratamento multidisciplinar. O endócrino vê desordem hormonal e patologias associadas, o nutricionista vê erros alimentares e também há o acompanhamento psicológico, pois comer é emocional.

Como identificar a obesidade?

No consultório faço medida do peso e altura e faço a classificação no Índice De Massa Corpórea (IMC). De 18,5 a 24,9 este índice é normal, de 25 a 29,9 mostra sobrepeso e acima de 30 denuncia a obesidade, que
pode ser grau I (entre 30 e 34,9), II (entre 35 e 39,0) ou III (mórbida – acima de 40).

Uma pessoa com sobrepeso já deve procurar auxílio médico?

Sim, pode e deve procurar o endocrinologista, pois o sobrepeso já aumenta o risco de doenças metabólicas. O principal problema do ganho de peso é o aumento de gordura na região da cintura, a circunferência abdominal, que impregna nos órgãos, principalmente em cima do pâncreas, e começa a liberar substâncias inflamatórias, que aumentam trombose, aumentam resistência insulínica e influenciam diabetes do tipo II.

Quando a cirurgia bariátrica se torna uma opção?

Quando o IMC está acima 40 ou acima de 35 mas com comorbidades, ou seja, outras doenças associadas, como hipertensão, doenças cardiovasculares, síndrome da apneia do sono, esteatose hepática, diabetes. Para ser indicado à bariátrica, o paciente tem que ter tido acompanhamento anterior, de pelo menos dois anos, com tentativa comprovada de medicações e mudança de hábitos de vida. E isso não é só o endocrinologista que faz. É necessária a avaliação a aprovação também do cardiologista, do nutricionista e do psicólogo.


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