EDITORIAL

Olhar aos esquecidos

Em 18 anos, uma das mais tradicionais ONGs de Mogi das Cruzes, o Tradef (Trabalho de Apoio ao Deficiente), conseguiu empregar apenas 800 pessoas com deficiência em idade produtiva. Os números dizem muito sobre um assunto em destaque a partir do discurso da primeira dama, Michelle Bolsonaro. Mogi possui cerca de 29,5 mil pessoas com deficiência severa em algum dos sentidos humanos.

Números sobre a prevalência da deficiência física no Brasil sempre foram controversos. No final do ano passado, usando os mesmos indicadores propostos pela Comissão de Estatísticas de ONU, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) buscou aproximar os cálculos da realidade. Anteriormente, considerava-se que 24% da população brasileira possuía deficiência, com graus diferenciados.

O novo parâmetro agrega os indivíduos que têm muita dificuldade em ouvir ou enxergar, por exemplo, e as que não conseguem de modo algum escutar e ver. Essa mudança mirou as políticas públicas de universalização da educação, passo primeiro para promover a inclusão real desses cidadãos.

O discurso de Michelle Bolsonaro pode provocar uma inflexão ao que tem vivido por uma expressiva parcela da população.

Evidentemente que apenas o tempo dirá se a fala da primeira dama deixará a retórica para a prática. Porém, a quebra de um protocolo, o falar diretamente com quem nunca teve vez, alenta.

Não apenas os surdos, os deficientes em geral conquistaram espaços nos últimos tempos, mas eles são alijados do pleno acesso à educação, ao trabalho, à mobilidade urbana. O número de analfabetos é maior entre as pessoas com deficiência e o restante da população.

Surge uma esperança a quem esteve longo dos mais diversos holofotes direcionados a outras importantes lutas, como a violência contra mulher e o negro, o feminicídio, a identidade de gênero.

“Gostaria de dirigir-me à comunidade surda, às pessoas com deficiência e a todos aqueles que se sentem esquecidos: vocês serão valorizados e terão seus direitos respeitados”, disse Michelle.

Entres os esquecidos de Mogi das Cruzes estão cerca de 22 mil deficientes auditivos, sendo 4,6 mil com dificuldades severas. Um primeiro passo para a inclusão é a popularização da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Muitos templos religiosos protestantes (mais do que o meio corporativo e público) saíram na frente para atender esse público. Mas, o desafio é gigantesco porque o preconceito com quem é diferente tem raízes muito profundas. Na maioria das vezes, nem no círculo familiar, o surdo possui interlocutores preparados para interagir com ele por meio da comunicação por sinais, ensinada em alguns polos de Mogi das Cruzes, como os cursos do Crescer, Associação de Moradores de César de Souza, Igreja Batista e Gatem, no Mogilar.