Olhar solidário

Os últimos dias e noites geladas estão servindo para mensurar o tamanho das dificuldades de atendimento social e institucional às pessoas em situação de rua, uma população em crescimento nas cidades localizadas em regiões metropolitanas, como Mogi das Cruzes. As temperaturas congelantes obrigam as cidades a olhar de frente esse grave problema social e de saúde pública. Quem tem casa, cobertor, comida quente e tudo o mais que combate o frio, raramente fica imune quando vê quem está provisória ou definitivamente vivendo nas ruas.
O que mudou neste ano foram as temperaturas que chegaram a zero grau em determinados horários da madrugada. Os últimos invernos não foram tão severos. No mais do tempo, entretanto, é forçoso lembrar, a moradia de rua está incorporada no cotidiano urbano, e não provoca grandes reações populares, a não de ser de entidades e pessoas comprometidas com essa causa.

Quando os grupos de moradores de rua ocupam uma praça, o cidadão costuma desviar do caminho e segue a vida. O morador ou o comerciante da praça reclama da ocupação que traz, consigo, reflexos como a balbúrdia constante, o mau cheiro do uso do espaço público como banheiro, dormitório e sala. Mas também esse cidadão acaba, no mais das vezes, adaptando-se a uma realidade instituída. O Largo Bom Jesus é um exemplo disso.

As políticas públicas desenvolvidas até aqui não estão conseguindo reduzir o tamanho dessa população, e nem atacar o cerne das causas que leva homens e mulheres abandonados pela família para a rua. Essas pessoas são doentes, dependentes químicos, na maioria. A percepção geral de quem reside e trabalha na região central é de aumento desse grupo de pessoas. E, essa percepção calha com as ações sociais e com a expansão da rede de acolhimento a elas.

Mogi apresenta alguns resultados concretos de uma demanda criada por uma questão geográfica, ser o ponto final da linha do trem. Entre esses resultados estão a manutenção do subsídio a quatro casas beneficentes de acolhimento destinadas a essa demanda, com a existência de 170 vagas, e a manutenção de endereços de assistência imediata, como o Centro POP, destinado à população de rua.

Pode não ser a política dos sonhos, mas está funcionando porque uma parte da sociedade, entidades sociais e voluntários anônimos, e o poder público conseguem manter uma rede de assistência capaz de desprender um olhar solidário a essas pessoas.

Cada um desses moradores tem uma história, um motivo para estar na rua: falta de família? De escola? De amparo institucional? A conjunção dessas variantes? Essas pessoas não nasceram dependentes químicos e nem marginais. Felizmente, a Cidade dá sinais de ser mais humana e solidária do que reacionária.


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